Mundo de ficçãoIniciar sessãoA rua estava muito movimentada. A van corria muito e eu me esforçava para não perdê-los de vista.
Pra um homem tão rico, ele tinha péssimos seguranças. Como conseguiram roubar um bebê tão fácil? Por mais que o pai fosse um monstro, aquela criança não tinha culpa e não merecia sofrer as consequências. Senti uma movimentação estranha atrás de mim. Olhei pelo retrovisor e vi três carros pretos surgirem em alta velocidade. Ele certamente já havia ficado sabendo. Me concentrei na van que seguia à frente. O sinal estava quase fechando. Foi o suficiente para que eu conseguisse passar. O sinal fechou e um caminhão enorme veio na direção oposta, obrigando os carros atrás de mim a frear. Provavelmente os caras da van comemoraram. Acho que não haviam percebido que eu também estava seguindo. Adentraram uma estrada deserta e pararam em frente a um galpão. A ruiva entrou empurrando o carrinho enquanto a criança chorava freneticamente. Três homens desceram do carro. Um deles falava ao celular. Aquilo parecia ser orquestrado fazia tempo. Em seguida, um quarto homem desceu do veículo e meus olhos o reconheceram instantaneamente. Era o mesmo homem que recusou o meu questionário, o mesmo que nos recebeu no portão. Ele estava sendo traído por alguém do seu convívio, da sua inteira confiança. Isso explicava tamanha desconfiança da parte dele e por que não tomou nada na festa aquela noite. Ainda em estado de choque, tentei raciocinar. Eles eram muitos. Por mais que eu fosse boa de briga, se chegasse de uma vez seria um alvo fácil — e com certeza estavam armados. Dei a volta tentando conhecer o ambiente. Tinha que haver um jeito. Aquele lugar era deserto, não havia ninguém. Fiz a volta e consegui ver os fundos. Havia uma pequena saída, com uma porta. Eu precisaria de um momento de distração. Dei alguns passos cautelosos e voltei à mesma posição de antes, onde a visão era melhor. Assim eu poderia observar o que estava acontecendo. De repente, um carro preto surgiu em alta velocidade e freou rapidamente na entrada do galpão. Dois homens desceram armados. Eram os dois que vigiavam as escadas naquele dia. Eu ia me perguntar se eles estavam juntos nessa armação quando um pé com um sapato italiano preto caríssimo foi colocado para fora do carro. Eu engoli em seco ao ver o restante daquele corpo emergir, com aquele ar sofisticado e ao mesmo tempo frio. Ele estava de calça social, blusa branca com gravata e colete por cima. Provavelmente saiu tão apressado que esqueceu de pegar o paletó. O olhar parecia frio e calculista, mas no fundo havia uma fagulha que misturava medo pelo ocorrido e ódio. Seu antigo cúmplice saiu do galpão acompanhado por dois homens. Continuei observando enquanto decidia o que fazer. A distância era grande. Não dava para ouvir exatamente sobre o que falavam. Mas o homem parecia debochar dele com uma arma na mão. Apontava para o galpão e gesticulava. Eu esperava uma sequência de disparos, uma briga, mas isso não ocorreu. Ele olhou para seus homens e fez um gesto com a cabeça. Eles pareciam não concordar, mas não questionaram. Abaixaram devagar e colocaram as armas no chão. Não acredito nisso. O que eles estavam fazendo? Iriam ceder assim? Se não tivessem cedido, seriam quatro contra cinco — se é que aquela ruiva podia ser contada. Mas agora era apenas eu novamente. Em seguida, o outro homem saiu do galpão. Era minha chance. A ruiva estava sozinha. Comecei a me mover vagarosamente em direção aos fundos. Todos os homens estavam ocupados e de costas para mim. Assim que ganhei o espaço aberto para chegar à parte de trás do galpão, ele me avistou. Seus olhos se abriram como se não acreditasse no que eu estava fazendo. Um xingamento mental me ocorreu. Não era para ele ter me visto. Ele parecia querer dizer alguma coisa, algo como “saia daí, não faça isso”. Ou ao menos era o que sua expressão facial dizia. Cheguei atrás do galpão e me encostei na parede. Naquele exato momento um dos homens se virou e olhou na mesma direção que ele olhava. Será que me viram? Não se movimentaram. Então, provavelmente não. Me afastei um pouco e coloquei apenas a cabeça para observar. Estavam de costas novamente. E os olhos daquele homem mais uma vez encontraram os meus. Levantei a mão devagar e levei o dedo indicador aos lábios, indicando para que ele ficasse quieto. Feito isso, fui em direção à porta dos fundos. Como eu esperava, estava trancada. Peguei meu grampo de cabelo e fiz algumas tentativas. Rapidamente a fechadura cedeu. Pensei em entrar de uma vez, mas ela gritaria e com certeza os homens viriam. Abri uma pequena brecha na porta e vi o carrinho do bebê. Ele não estava mais chorando. Em uma cadeira ao lado dele, a ruiva estava sentada, dormindo. Eu pasmei… como assim? Como ela era capaz de dormir naquela situação? Abri mais a porta, peguei o carrinho do bebê e comecei a arrastá-lo bem devagar, tentando ao máximo não fazer barulho. A expressão daquela mulher era estranha. Soltei o carrinho e levei a mão embaixo de seu nariz. Não estava respirando. Senti seu pulso e confirmei. Estava morta. Aquilo me assustou. O que tinha acontecido ali? Por que matariam a própria aliada? Eu já estava perdendo tempo demais. Uma ideia me ocorreu. Peguei o bebê com muito cuidado para não acordá-lo e deixei o carrinho na mesma posição anterior. Saí e encostei bem a porta. Apareci bem devagar atrás da parede. Mais uma vez os olhos daquele homem pareciam me esperar. Já não estavam mais frios — pareciam angustiados. Gesticulei novamente para que ele ficasse quieto e mostrei o filho. Foi rápido. Me escondi novamente, porque pela expressão dele eu tinha certeza de que os outros olharam naquela direção. — O que está acontecendo? — um dos homens disse. Corri na direção oposta. E ouvi quando um deles falou: — Está tudo certo no galpão. Passei novamente pelo espaço aberto e repeti os passos até voltar para a posição inicial, que eu julgava segura. Mesmo tentando não ser pega, com a cabeça baixa, os olhos daquele homem me queimavam a cada passo que eu dava. Quando já estava longe o suficiente, ouvi dois disparos. Meu peito ardeu. E meu coração congelou






