Mundo de ficçãoIniciar sessãoJá estávamos há uns vinte minutos dentro da estrada que cortava a floresta. O caminho que Fenrys acessou não era nada convencional. Árvores se fechavam ao redor, como se quisessem engolir o carro. Eu estava quase me acostumando ao silêncio quando algo me fez congelar.
— Fenrys… você está vendo a parede na sua frente, né? — perguntei, o coração acelerando.
Ele me olhou pelo retrovisor, impassível. — Não.
Daemon reclamou, a voz carregada de paciência. — Fenrys…
— Estou vendo, Katrina.
— Kallista. — corrigi, irritada.
Ele revirou os olhos. Daemon, percebendo que nós dois qualquer hora iríamos nos atacar, tomou a frente.
— Essa muralha é o que divide nosso mundo do mundo humano. Atravessamos com magia feérica.
Arqueei as sobrancelhas. — Uau… magia feérica. E o que acontece se um humano estiver no carro?
— Fica estatelado na muralha de pedra. — respondeu Fenrys, seco.
— E se eu não for sobrenatural? — perguntei, nervosa.
— Vamos testar agora. — retrucou ele, maldoso.
Daemon suspirou. — Kallista, você é sobrenatural. Fenrys só está te enchendo o saco.
— É… tanto faz. — murmurou Fenrys.
Revirei os olhos. — Lembre-me de nunca mais te perguntar nada.
Fenrys ergueu as mãos do volante, teatral. — Meu pai… pelos deuses da lua, finalmente ela vai me fazer um favor.
Daemon apenas esfregou os olhos, exasperado. Eu e Fenrys estávamos acabando com a sanidade do pobre vampiro.
O paredão de pedra se aproximava. Se eu fosse morrer, ficaria puta que meus últimos minutos fossem discutindo com um lobo rabugento. Fechei os olhos com força.
Um som ecoou, como se tivéssemos entrado em um túnel de rodovia.
— Bem-vinda a Caelirris. — disse Daemon.
Abri os olhos.
E vi. Uma cidade linda. O cheiro de madeira e cítrico invadiu minhas narinas. As ruas eram de paralelepípedos, as casas rústicas, lembrando algo da Holanda antiga: construções de madeira erguidas umas sobre as outras, vitrines grandes, portas imensas. Símbolos de lua e de lobos marcavam cada esquina. A rua era íngreme, obrigando o carro a ir de modo mais lento para a rua acima. Havias tantas arvores em volta que o ar parecia mais puro do que qualquer coisa. Até que algo me chamou a atenção.
As pessoas… eram incrivelmente altas, musculosas, loiras em diversos tons.
— Olha só quem ainda está viva. — murmurou Fenrys. Ignorei.
— Todos aqui parecem… muito bonitos. — falei mais para Daemon.
Ele olhou em volta, ponderando. — Lobos e vampiros, como todos os sobrenaturais, têm uma beleza muito sutil.
Torci o nariz. E por que eu sou tão… simples?
Vi Fenrys sorrir de modo maldoso. — Babaca. — mandei pela mente.
— Não posso mais sorrir? — devolveu ele, divertido.
Depois de alguns minutos, paramos diante de uma mansão imensa. Não, não era uma mansão. Era um castelo. Gótico, glorioso, se estendendo para os céus.
Saímos do carro. Fenrys foi na frente.
— Daemon… — chamei. Ele parou ao meu lado. — Posso mandar cortar a cabeça de Fenrys?
Daemon riu.
— Ainda te ouço, pestinha! — gritou Fenrys lá de dentro.
E eu acabei sorrindo.
Era isso. Eu tinha voltado de novo para o inferno de ser a aluna nova. A esquisita.
A sala da diretora era ampla, com janelas altas e cortinas pesadas. O cheiro de madeira antiga misturado com algo doce pairava no ar. Rose De Lioncourt estava diante de mim: alta, esguia, cabelos ruivos flamejantes, olhos tão azuis que pareciam brancos. Os lábios vermelhos destacavam-se contra a pele pálida. Ela tinha um ar de autoridade, mas também de gentileza.
— Princesa, Daemon me informou que há pouco você soube que é sobrenatural. Sinto muito, deve ser confuso para você.
Sorri de modo educado. — Não precisa me chamar de princesa. Kallista está bom… ou Kalli mesmo.
Ela piscou e sorriu. — Você é uma princesa e a última herdeira dos tronos. Temos que manter a cordialidade.
Ri, lembrando. — Fenrys pareceu bem à vontade me chamando de pestinha há cinco minutos.
Rose apertou os lábios, assim como Daemon. — Ele tem um jeito peculiar de comunicação. Vai ver que a maioria dos lobos são assim.
Suspirei, murmurando baixo: — Estou no inferno então…
Aguentar Fenrys já era uma coisa. Um batalhão como ele? Aí seria demais.
Rose continuou, calma: — Bem, temos duas colegas de quarto para você. Como expliquei, os alunos moram aqui e só vão para casa no período de férias quinzenais. Mas isso é raro. Os pais preferem deixar os filhos aqui para que aprendam a se controlar.
Assenti, mesmo achando aquilo um absurdo.
— Elas são boas meninas. Tenho certeza que vão te ajudar a se enturmar.
Daemon me levou até o quarto. Ao sair da diretoria, o salão inteiro estava tomado por alunos. Me encolhi ao lado dele, sentindo todos os olhares. Eram da minha idade, lindos, seguindo o mesmo padrão: loiros altos, musculosos, de olhos claros; outros de cabelos escuros ou vermelhos, olhos azuis ou negros. Eu me destacava com meu cabelo castanho e, mesmo sendo alta no mundo humano, ali parecia pequena. Os olhares eram de desprezo. Respirei fundo, ignorando o ódio que crescia no estômago.
— Ignore eles. — disse Daemon. Assenti.
Seguimos por um corredor de mármore escuro, portas enormes de madeira maciça em um tom de marrom escuro. No fim corredorna ultima porta Daemon .
Uma loira alta apareceu. Lábios pintados com gloss rosa brilhante, olhos verdes quentes e convidativos que me lembravam Luke. Cílios espessos, sobrancelhas bem desenhadas. Curvilínea, vestia o uniforme da escola: blusinha preta de alcinhas, calça jeans preta e coturno. O cabelo loiro caramelo caía em ondas.
— Kallista, esta é Zara Belladonna, uma das suas colegas de quarto.
Estendi a mão, mas ela me puxou para um abraço forte demais. — Kallista, é um prazer te conhecer. — disse com voz doce.
Sorri, o rosto vermelho ao me afastar. — Kalli. Pode me chamar de Kalli.
Daemon, vendo que não precisava mais dele, se despediu. — Se precisar, é só me procurar.
Assenti, agradecendo. Entrei no quarto. Imenso. Três camas grandes, cada uma com um guarda-roupa pequeno à frente. A cama perto da janela estava vazia, com uma escrivaninha de madeira linda. A do meio, claramente de Zara, estava coberta de maquiagens e objetos reluzentes.
Olhei para a última cama. Uma figura estava sentada, focada em um livro. Usava o mesmo uniforme de Zara, mas era mais alta, magra, esguia. Cabelo preto curto na altura do queixo, pele pálida. Seus olhos se ergueram para mim: escuros, negros, sob sobrancelhas grossas e arqueadas. Linda, mas de um jeito assustador.
Ela abriu as narinas, como se me cheirasse, e fez uma careta. Discretamente, tentei sentir meu próprio cheiro. Será que as horas no carro me deixaram fedendo?
— Essa é Hanna Mortem. — disse Zara, apresentando.
Hanna riu, desinteressada. — A híbrida é nossa? — perguntou para Zara.
Zara a olhou com cara de quem queria matá-la. Apertei os lábios e sorri. — Eu acho que a híbrida é de vocês. Mas se quiser me chamar de Kalli, tá tudo legal também.
Hanna estreitou os olhos, me analisando. Depois de um longo tempo, sorriu. — Gostei dela.







