Capítulo 5

O espelho refletia uma sensação de derrota. O uniforme até que estava bom, mas não ficava tão perfeito quanto em Zara e Hanna. Bufei, ajeitando a trança simples que prendia meu cabelo castanho para trás. Todos ali eram lindos, sensuais, atraentes de tantos jeitos diferentes. E eu? O patinho feio. Não que fosse feia… só era comum.

— Me explica de novo… como funciona esse negócio de eu não poder ser híbrida mesmo? — perguntei, tentando arrancar alguma lógica daquilo.

Zara, paciente, recitou como se fosse uma professora: — Lei da União Proibida vampiros não podem se unir a lobos ou humanos. Filhos mestiços são vistos como ameaça à ordem.

Suspirei. — Essa lei vale tanto para vampiros quanto para lobos?

Ela assentiu. — É a única lei que temos em comum.

— E os feéricos? Quais são as leis deles?

As duas se olharam. O silêncio me fez pensar que tinha tocado em assunto proibido.

— Meninas, preciso que me orientem. Prefiro falar merda aqui com vocês do que lá fora. Já tenho alvo nas costas, não quero dar motivos para que dardos sejam alojados.

Elas suspiraram. Hanna foi quem respondeu: — Bem… na verdade, sobre os feéricos não sabemos muito. Eles existem, em algum lugar, mas nunca vimos. Não sabemos sobre a cultura deles. A única coisa que sabemos de verdade é que vivem em um mundo escondido… e que nossa muralha foi feita por eles. Só isso.

Arqueei as sobrancelhas. — Que curioso. Quer dizer que eles têm alguma coisa não bem resolvida com o mundo sobrenatural.

Zara me olhou, séria. — Também não sabemos. Antes da Grande Guerra, o pouco que sei é que havia híbridos, tríbridos… vivíamos juntos, sem distinção. Mas depois vieram as leis. Os feéricos não quiseram se juntar a nós, e desde então vivemos assim: eles lá, nós aqui.

Engoli em seco. — Espera aí… Grande Guerra? Quando foi isso?

Hanna balançou a cabeça, tentando lembrar. — Não posso te dizer com certeza. Acho que foi há uns quinhentos anos, talvez. Faz muito tempo.

Meu sangue gelou. — Eu sou a primeira híbrida em quinhentos anos?

As duas se olharam e assentiram.

— Por Deus… agora entendi por que querem me matar.

Zara se encolheu um pouco ao ouvir isso. — Não vai acontecer. Não tão fácil assim. Seus avós não permitiriam.

Ri sem humor. — Assim como não permitiram a morte dos meus pais? — perguntei, mais áspera do que gostaria.

Foi Hanna quem respondeu, seca: — É… e isso custou a sanidade da rainha Ony.

O silêncio caiu pesado. Decidi que, por enquanto, não queria saber mais nada sobre isso.

Nunca em nenhum período escolar eu tinha me sentido tão retraída. A cadeira parecia dura demais, e eu parecia uma criança mirrada no meio daqueles sobrenaturais. Precisava acalmar os pensamentos, mas ainda não sabia bloquear aquilo. Pelo pouco que Zara havia explicado, somente os lobos tinham o poder da telepatia.

Respirei fundo. A porta se abriu. Fenrys entrou com cara de poucos amigos, suas botas batendo firme no chão. Ótimo. Ele seria meu professor. Antes que eu pudesse pensar em algo, seus olhos caíram sobre mim. Encolhi na cadeira. Ele não tinha paciência, e eu não queria testar.

— Certo. Como sabem, temos uma aluna nova hoje, que dispensa apresentações, já que todos devem saber. — disse Fenrys em alto e bom som.

Ótimo. Todos os olhos que me encararam no corredor com aquele ar de “você é um erro” agora estavam sobre mim.

— Kaliupe terá que correr atrás de algumas matérias. — completou, folheando o próprio livro.

— Kallista. — corrigi baixo.

— É… tanto faz. — murmurou, virando para a lousa. Ligou o projetor, mostrando uma divisão com uma linha preta grossa. No slide seguinte, um casal de lobos de um lado e um casal de vampiros do outro.

— Bem, apesar de óbvio, alguém sabe me descrever a diferença entre lobos e vampiros? E se alguém der resposta idiota, eu juro pelos deuses que boto a chutes para fora da sala. — rosnou Fenrys.

Uma mão se levantou atrás de mim. Fenrys acenou para que a pessoa continuasse.

— Lobos são altos, musculosos, pele levemente bronzeada e quente. Olhos sempre verdes ou amendoado. Geralmente loiros, com traços firmes e fortes. — disse um rapaz.

Fenrys assentiu, entediado.

— Já os vampiros são mais altos que lobos, esguios, aparência pálida, olhos geralmente azuis claros ou escuros. Cabelos pretos ou ruivos. — continuou o mesmo aluno.

Fenrys aprovou com a cabeça e mudou o slide. Agora, lobos transformados e vampiros em posição de ataque, olhos dilatados, quase felinos.

— E alguém sabe me dizer o porquê disso?

Uma garota levantou a mão. Fenrys retraiu o músculo do rosto, mas assentiu.

— Pela linhagem pura. Não nos misturamos, e isso dá… pureza de linhagem. — disse a loba.

Ela era loira, tão clara que os cabelos pareciam brancos. Olhos delineados em preto, lábios cheios, uniforme sensual. Os olhos verdes claros quase brancos. E o tom venenoso da voz foi direcionado a mim. Senti minhas bochechas corarem.

— Obrigada, Kaya, por sua enfática explicação. — respondeu Fenrys, a voz endurecida.

Ele trocou o slide.

— Sobre pelagem lupina: quanto menor a oscilação de coloração, mais pura é a linhagem. Vampiros: quanto maior o traço de cores sombrias, mais puro é o traço. Vemos isso pelas famílias reais.

Meu coração se apertou. No telão, escrito acima: Saint Luise.

Um homem loiro de cabelos curtos, olhos severos, roupas reais, coroa sobre a cabeça. Ao lado, uma mulher de cabelos loiros quase brancos, grossos e pesados, olhar doce e gentil, olhos cor de mel. Quase sorri para aquela mulher. E então, ao lado dela, um jovem. Devia ter minha idade. Cabelos loiros cor de mel, caindo em camadas até a orelha. Olhos suaves, convidativos. Mais alto que o primeiro homem, postura relaxada, ar travesso.

— Os reis Julio e Ony. E o falecido filho, Hati Saint Luise. — disse Fenrys, as costas tensas.

Engoli seco. O rapaz de feição alegre… era meu pai. Meu coração acelerou. Antes que eu pudesse memorizar suas feições, Fenrys trocou a imagem.

Hungria.

Um homem da mesma idade do rei Julio. Pele pálida, olhos azuis claros, cabelos pretos como a noite. Lábios finos em sorriso contido. Alto, esguio, vestes reais pretas, coroa de prata. Ao lado dele, uma linda mulher, cabelos vermelhos como fogo, longos até a cintura. Vestido azul escuro contrastando com a pele branca. Olhos azuis intensos, como tempestades. Lábios vermelhos, cheios, rosto contornado e fatal.

— Infelizmente, a Rainha Elyra morreu no parto da princesa Katherine. Só sobrou essa foto do Rei Vicktor e da falecida princesa Katherine Hungria. — disse Fenrys.

Minha mãe. Aquela era minha mãe. Trinquei o maxilar, achando que quebraria os dentes. Meus pais, ali, diante de mim. Um casal de tirar o fôlego. Diferentes, mas tão certos um para o outro.

— E infelizmente, a linhagem real foi contaminada. — sussurrou Kaya, baixo, só para mim.

Tive certeza: odiava aquela mulher.

Mexia a comida na bandeja de modo distraído, quase sem humor. Graças a deus, pelo menos eles comiam comida normal. A única diferença era que vampiros precisavam de sangue; a comida comum era só complemento.

— Não fique assim. — murmurou Hanna, tomando algo em sua caneca de prata que eu desconfiava ser sangue. — Kaya é uma babaca que se acha superior a todo mundo.

Zara ao lado concordou com a cabeça. Suspirei, balançando a cabeça. — Só fiquei meio mexida de ver meus… pais. — disse baixo demais, quase engolindo as palavras. Era estranho aquela palavra sair da minha boca — O meu pai… ele parecia tão cheio de vida, né? Até um ar meio travesso. — percebi que meus olhos estavam cheios, quase transbordando.

Era estranho sentir aquilo. Meus pais adotivos sempre foram claros: eu era adotada. Sempre que perguntava sobre os verdadeiros, a resposta era a mesma: “quando for mais velha, saberá.” Com o tempo, parei de perguntar. Parei de me importar. E agora, no auge dos meus 19 anos, vinha essa enxurrada de emoções confusas.

— É… ele parecia mesmo. Pelo pouco que ouvimos, ele era sim. — disse Zara, suave.

Olhei para ela, depois para os lados. — As pessoas evitam falar sobre eles? Meus pais, digo.

As duas trocaram olhares. Hanna respondeu com cuidado: — Seus pais tiveram um caso. Fugiram quando descobriram sua gravidez. Muitas leis foram quebradas, Kalli. Todos evitamos lembrar disso.

Uma voz grossa e assustadora me fez pular. — Kallamita, te espero na biblioteca em dez minutos.

Fenrys estava atrás de Hanna e Zara, me encarando. As duas tiveram o bom senso de se encolher.

— Kallista, Fenrys. É tão difícil decorar meu nome? — perguntei, irritada.

Ele rosnou. — Dez minutos. Se atrasar um segundo sequer, não vai querer que eu te busque.

E sem dizer mais nada, sumiu.

— Ele é sempre assim ou é só comigo? — perguntei.

Zara se virou para onde ele tinha saído. — Vai por mim, ele está de bom humor. E leve a ameaça dele a sério. Já vi ele chutar alunos por menos.

Engoli a comida rápido. Hanna me mostrou o caminho até a biblioteca.

Fenrys estava sentado com as botas em cima de uma mesa redonda, claramente de estudos. Atrás dele, uma biblioteca extensa e maravilhosa, fileiras de livros se estendendo até perder de vista. Meu coração se aqueceu ao ver aquilo.

Ele olhou para o relógio e depois para mim, os olhos verdes e mortais fixos. — Olha só quem não vai levar um chute no traseiro hoje. — ronronou.

Bufei, indo até ele. Sentei na cadeira de frente. Ele parecia vidrado no livro.

— Me chamou aqui pra eu ficar vendo você ler? — me arrependi no instante em que ele ergueu os olhos.

— Sua língua é bem afiada, né, Kaliupe?

Bufei, cansada. — Kallista. KA-LLI-STA. — disse, separando as sílabas.

— Vou te chamar de pestinha. Assim fica mais fácil e você não me corrige toda hora.

Mordi o lábio para não responder. — Você é bem mal-humorado para alguém tão jovem.

Ele riu sem tirar os olhos do livro. — Quantos anos acha que eu tenho, pestinha?

Suspirei. — Sei lá… uns 25?

Ele gargalhou. Não entendi o motivo da graça. — Eu tenho 46 anos, criaturinha. Então tenho meus direitos de estar de mau humor.

Puta que pariu. Quarenta e seis anos? Ele não parecia nem ter 25.

— Sou um lobo. Um sobrenatural. Somos imortais. Quando atingimos nossa maturidade, ficamos com a beleza jovial por eras. Com o tempo, o corpo se adapta de acordo com… seu cargo ou responsabilidade. — respondeu, lendo minha mente.

— Tem idade pra ser meu pai. — soltei sem pensar.

Ele rosnou. — E dou graças aos deuses por não ser. Agora… vamos estudar.

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