Capítulo 3

Eu estava na varanda do meu quarto, contemplando o céu noturno. Claro, não tão estrelado por causa das luzes das casas e das ruas… mas ainda assim, o céu. Ah, eu amava o céu. Amava olhar para as estrelas. Não era à toa que tinha tatuado uma constelação no ombro direito. O céu noturno sempre teve o poder estranho de me acalmar desde pequena. Sempre preferi a noite. Sempre preferi o escuro.

Uma batida na porta me fez virar o rosto. Luke estava ali. Agora parecia outra pessoa. Ele esperou, mas eu desviei o olhar de volta para o céu. Não pediu para entrar. Apenas entrou e se sentou de frente para mim, no lado oposto da varanda, me observando.

— Você mentiu esses anos todos para mim. — minha voz saiu afiada, magoada.

Não precisei olhar para saber que ele se encolhia, como se tivesse levado um tapa.

— Seus pais não deixaram eu contar. Eu queria te contar desde o primeiro dia que te conheci.

Ri sem humor.

— Aliás… você me conheceu por acaso mesmo, ou foi mandado para ser meu guarda-costas?

Silêncio. Ele não respondeu. Olhei para ele, firme.

— Sem mentiras, Luke.

Ele suspirou, balançando a cabeça. — Oberon me mandou.

Oberon. O nome me confundiu. Eu era basicamente uma historiadora, meus pais adotivos também eram. Oberon… rei das fadas, certo?

— Oberon é mitologia. Ele era o rei das fadas, não? — perguntei, confusa.

Luke sorriu de lado. — Eu não o chamaria assim… mas seguindo essa lógica, sim.

Suspirei, fechando os olhos.

— O que o rei das fadas tem a ver comigo? Meu Deus… que porra eu estou falando… rei das fadas…

Ele me olhou, cansado. — No tempo certo, Kallista, tudo vai se esclarecer. Por enquanto, é melhor você descansar. Amanhã Fenry virá buscar você.

Neguei com a cabeça.

— Por que eu preciso ir embora? Meus pais não fugiram de lá? Por que eu vou voltar então?

Ele suspirou. — Porque seus avós irão te proteger. Você está perto da maturidade sobrenatural. É a única viva da linhagem real. Todos achavam que você estava morta… lá você estará em segurança.

Olhei para ele, depois voltei a encarar o céu.

— O céu sempre te acalmou. — disse Luke, afirmando, não perguntando.

— Não minta mais para mim. — sussurrei, sem perceber que uma lágrima escorria pela minha bochecha.

— Kallista… — ele murmurou, a voz embargada.

— Não minta mais para mim. Você é meu melhor amigo. Não faça mais isso.

Percebi que seus olhos brilhavam, como se fosse chorar. Ele apenas assentiu. Me joguei em seus braços, finalmente liberando aquele choro cheio de sentimentos. Ele me abraçou de volta, como se quisesse me proteger do mundo inteiro.

Chorei compulsivamente. — Estou com medo, Luke. — confessei.

— Seria uma tola se não tivesse. — respondeu, sincero.

Sem mentiras. Ele estava sendo verdadeiro.

— Daemon e Fenrys irão cuidar de você. Eu prometo.

Uma blusa preta, uma jaqueta de couro marrom, jeans claro e um All Star. Era só isso que eu levaria comigo. Nada de coisas humanas, nada de roupas humanas. Eu iria com a roupa do corpo e lá receberia minhas próprias vestes. Luke não estava brincando quando disse: “NADA.” Nem celular, nem livros, nada.

Encarei o carro preto à minha frente. Para meu alívio, Fenrys não veio em forma lupina. Ele estava ali, alto, musculoso, bronzeado, cabelo curto em corte social, um ar rústico. A camisa branca de botões, impecável, contrastava com a calça preta de tecido pesado. Parecia uma mistura de medieval com moderno. Ignorei a adaga presa à cintura. A cicatriz que cortava seu maxilar até a boca lhe dava um ar perigoso, quase sedutor. Seus olhos verdes eram diferentes dos de Luke: claros, frios, com uma pitada de provocação.

Ao lado dele, Daemon. Um vampiro. Alto, esguio, pele pálida, cabelos pretos curtos. Os olhos azuis intensos e brilhantes pareciam me cumprimentar silenciosamente. Sua roupa toda preta, com blazer, destacava ainda mais sua palidez e a cor dos olhos. Mas havia algo nele que me deixava inquieta… familiar.

Minha mãe, Susan, vendo os dois homens sobrenaturais à porta, se virou para mim com uma pequena caixa dourada nas mãos.

— Não posso levar nada, mãe.

Meu pai respondeu firme: — Isso você pode.

Olhei curiosa. Minha mãe suspirou. — É a última lembrança dos seus pais.

De repente, a caixa ficou pesada demais, fria demais. Um nó subiu à minha garganta. Não abriria agora. Apenas assenti.

Me aproximei deles. Minha mãe segurou meu rosto com delicadeza. — Você sempre será minha filha. Não importa onde esteja.

Meu pai colocou a mão em meu ombro. — Seja forte, Kalli. 

Engoli em seco, tentando não chorar. Funguei e me virei para Luke.

— Por que você não pode ir comigo? — perguntei, a voz embargada.

Ele sorriu de lado. — Não sou bem-vindo na corte Caelirris. Mas eles vão cuidar de você.

Olhei para ele. Meu amigo. Meu irmão. Luke tinha aparecido no meu primeiro ano de faculdade, perdido, e desde então éramos inseparáveis. Nunca o vi com outros olhos. Ele era parte da minha alma. Seria meu padrinho de casamento, dos meus filhos… droga, esse homem era parte da minha vida. E agora me deixaria.

— Não vou te deixar. É só um até logo.

Tapei a testa, nervosa. — Pare de ler minha mente.

Ele riu, e aquele riso foi direto ao meu coração.

— Fenrys deve te dar aulas de comunicação telepática com urgência. — disse, olhando para o lobo.

Suspirei. Ele me abraçou com força, sussurrando no meu ouvido: — Quando estiver no seu quarto, veja o presente que está no bolso da sua jaqueta.

Se afastou. Assenti discretamente e me virei. Daemon abriu a porta para mim. Respirei fundo.

E então, me despedi. Da minha vida humana.

Quatro horas. Quatro horas dentro daquele carro, com aqueles dois na frente, calados, como se fossem estátuas. Eu já não sentia minhas pernas, meu corpo reclamava. Suspirei exasperada. Cassete… o mundo sobrenatural fica onde, no inferno?

A voz rouca de Fenrys me fez pular. — Pelo amor de Deus, você não cansa de tanto falar?

Arregalei os olhos. — Perdão? — minha voz saiu rouca, provando que eu não falava há tempos.

— Pare de tagarelar. Estamos quase chegando.

— Mas eu nem abri a boca! — reclamei.

— Desde que você sentou a bunda aí não para de falar. Sua mente não cansa? E não, o mundo sobrenatural não fica no inferno.

Meu rosto corou. Pelo retrovisor, vi o sorriso discreto de Daemon, quase imperceptível.

— Dê tempo a ela. Ela não sabe controlar os poderes telepáticos. — disse Daemon, com uma voz quase tranquilizadora.

— Tente dirigir com ela reclamando de tudo aí atrás. E ela não fala, ela grita. — resmungou Fenrys.

— Credo, você parece um velho rabugento.

— Eu ouvi isso. — retrucou ele, rosnando.

O sorriso de Daemon se alargou. — Não ligue para Fenrys. Ele não gosta de andar de carro. Prefere correr como um labrador feliz.

Apertei os lábios quando Fenrys rosnou para ele.

— Continue falando com a reclamona aí atrás. Quando você fala com ela, os pensamentos dela se aquietam. — disse Fenrys.

Daemon arqueou a sobrancelha. 

— Não sei se é uma boa ideia. Não tenho muito assunto com vocês. - Rebati

— Pois arrume. — respondeu Fenrys, seco.

Franzi o nariz. — Sutileza não é uma virtude sua, né?

— E paciência também não. — reclamou ele.

Fiz careta. Daemon parecia se divertir.

— Desculpe. Eu e Fenrys somos professores. Não temos muito tempo para ficar em silêncio. Quando temos uma oportunidade, aproveitamos.

Olhei surpresa. Fenrys é professor de alguém? Coitados dos alunos…

— Qual parte do “eu posso te ouvir” você não escutou, Mephista?

— Kallista. — corrigi, irritada.

— Tanto faz.

— Sou sua princesa. Não devia saber meu nome?

Fenrys rosnou. 

— Daemon, ou você puxa assunto com ela, ou eu acabo com a linha real aqui mesmo.

Sua voz retumbou dentro do carro. Daemon gargalhou.

— Kallista, somos professores da Academia de Sobrenaturais. É onde você vai ficar pelos próximos dois anos.

— O quê?! — respondi alto.

— Estamos do seu lado. Não precisa gritar. — rosnou Fenrys.

— Eu já me formei no ensino há anos. Estou terminando minha graduação em História. Não vou para uma escola. — disse, ignorando Fenrys.

— Seu diploma humano vale exatamente nada no nosso mundo. — respondeu ele, ríspido.

Daemon o repreendeu com o olhar. — Sinto lhe dizer, Kallista, mas ele está certo. Todos os sobrenaturais da sua idade precisam passar pela Academia. É lá que aprendem a se controlar e viver em sociedade.

Me joguei contra o banco, cansada demais para debater.

— Nossa… finalmente ela cansou. — murmurou Fenrys.

— Deus do céu… você é sempre tão desagradável?

Fenrys riu. — Hoje eu até estou de bom humor.

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