Mundo ficciónIniciar sesiónDOMINIC BELLANDI
Ela estava deitada na cama como se aquilo fosse um hotel de luxo e não um dos quartos mais protegidos do Palazzo della Corona. Os braços permaneceram relaxados, a respiração seguia estável e os olhos atentos percorriam tudo ao redor sem demonstrar medo.
Nada nela lembrava as outras garotas que chegavam ali desesperadas. Aproximei-me devagar, tomado por uma curiosidade irritante. Alina não recuou nem alterou a postura. Apenas virou o rosto levemente na minha direção.
— Você é imprudente. — falei.
— Eu sou a vítima e tenho direito de me defender.
Continuei encarando aquela garota estranha à minha frente.
— Agredir um dos meus homens não foi uma decisão inteligente.
Ela soltou um pequeno som de desdém.
— Também não foi inteligente ele puxar meu cabelo.
Aproveitei para reparar melhor na sua aparência.
Pequena e magra; mas com músculos definidos visíveis nos braços e nas pernas expostas pelo vestido amarrotado. O tecido estava marcado, sujo da longa viagem no compartimento de carga do navio e até o cheiro salgado de maresia misturado com peixe ainda permanecia nela. Nada agradável.
— Nem ameaçar arrancar a língua da minha prima. — continuou. — Muito menos bater em mulheres na minha frente.
Cazzo.
A brasileira tinha coragem demais para alguém naquela posição. Ela se ajeitou na cama devagar, apoiando as mãos no colchão. Os cabelos longos e ondulados deslizaram pelos ombros enquanto aqueles olhos acinzentados voltavam direto para mim.— Por que eu?
Sem hesitação. Sem rodeios.
— Vai me vender?
A pergunta ficou suspensa entre nós e naquele instante percebi algo incômodo: eu queria alguma reação dela. Qualquer uma.
Pânico. Ódio. Desespero.
Mas Alina parecia feita de gelo.— Você já foi vendida.
Dessa vez houve uma mudança mínima. Os lábios se entreabriram discretamente e os olhos se estreitaram numa surpresa contida. Foi isso que chamou minha atenção. Surpresa. Não medo.
— Para quem?
— Um homem que usa o codinome Atlas.
Ela ficou em silêncio por um momento, absorvendo a informação. Calculando. Ligando peças dentro da própria cabeça.
— Conhece? — perguntei.
— Não.
A resposta veio alguns segundos depois, em seguida, ergueu levemente o queixo.
— Então você já sabe quem eu sou.
— Sim, bambina.
Ela desviou a atenção por um breve instante, como se analisasse possibilidades invisíveis antes de voltar a me encarar outra vez e antes que eu percebesse, a pergunta escapou da minha boca.
— É virgem?
No mesmo instante soube que tinha cometido um erro.
Cazzo. Idiota. Aquilo não era da minha conta e não deveria importar. A garota tinha dezessete anos e já pertencia a outro homem.Minha mandíbula enrijeceu discretamente. Alina não respondeu de imediato, apenas manteve aqueles olhos presos nos meus, sem qualquer traço de vergonha ou desconforto.
— Isso aumenta o valor?
A pergunta veio afiada. Defensiva. Inteligente pra caralho.
— Não.
Ela sustentou o silêncio por mais alguns segundos antes de responder com calma irritante:
— Então não é relevante.
O quarto mergulhou em outro intervalo pesado depois da resposta dela.
E, por mais irritante que fosse admitir… eu concordava.Ainda assim, alguma coisa dentro de mim rejeitava violentamente a ideia daquela garota sendo entregue para outro homem. Principalmente se fosse inocente demais para entender o tipo de monstro que poderia estar esperando por ela.
E isso era um problema. Um grande problema.
Alina se inclinou para frente com uma tranquilidade absurda e retirou as sandálias, desfazendo as tiras devagar antes de largá-las ao lado da cama. Como se estivesse realmente confortável naquele quarto.
Depois tornou a me encarar.
— Por que vende mulheres?
Definitivamente Alina Montserrat não era normal.
Qualquer outra garota naquela situação estaria chorando, implorando ou surtando. Ela não.Parecia mais interessada em me analisar.
Eu deveria estar em qualquer outro lugar naquele momento, resolvendo negócios, fodendo alguma mulher gostosa da boate e ignorando completamente a existência daquela brasileira problemática.
Mas estava ali… no quarto conversando com ela.Cruzei os braços devagar enquanto sustentava o olhar azul acinzentado preso ao meu.
— Porque dá dinheiro.
Ela soltou uma risada curta. Descrente.
— Eu também ganho dinheiro. Meu pai ganha ainda mais. E nenhum de nós trafica mulheres.
Semicerrei os olhos diante do atrevimento. Mas ela continuou.
— Você parece inteligente. — comentou, inclinando discretamente a cabeça. — É um desperdício usar isso para justificar esse tipo de negócio.
Aquilo arrancou uma irritação imediata dentro de mim. Eu não estava acostumado a ser analisado daquela forma. Muito menos por uma garota sequestrada.
— Você fala demais — respondi em tom baixo.
— E você tenta se convencer demais.
A resposta veio rápida outra vez.
Ela puxou uma das pernas para cima da cama, assumindo uma postura quase relaxada, embora os olhos permanecessem atentos a cada mínima reação minha.— Homens como você sempre usam dinheiro como desculpa — continuou. — Mas dinheiro nunca é motivo. É escolha.
Meu semblante endureceu diante da resposta insolente, mas ela não pareceu se importar.
— Você acha que entende esse mundo, bambina?
— Você fechou os punhos quando viu as outras garotas. Evitou encarar algumas delas por muito tempo. E mandou soltarem meu cabelo sem necessidade nenhuma.
Ela fez uma breve pausa antes de continuar:
— Também impediu que aquele ruivo revidasse.
Os lábios dela ameaçaram um pequeno sorriso.
— E agora está aqui… conversando comigo.
O quarto pareceu menor de repente. Mais quente. Mais perigoso.
Então Alina levantou a cabeça mais uma vez.— Então só existem duas possibilidades.
Meu corpo inteiro ficou alerta.
— Ou você odeia essa sujeira mais do que demonstra… – Ela piscou devagar. — Ou gostou de mim.
Cazzo.
A brasileira era inteligente demais. Mas não levaria vantagem sobre mim.Podia me analisar o quanto quisesse. Continuaria presa dentro do meu território, cercada pelos meus homens e completamente dependente das decisões que eu tomasse.
— Você tem razão, brasileira. Eu não gosto dessa parte do negócio. Mas continua sendo extremamente lucrativa.
Deixei um sorriso lento surgir no canto da boca.
— E você, bambina… me rendeu cifras bem interessantes.
Ela mordeu o lábio inferior com força e minha atenção ficou ali por um segundo maior do que deveria.
— Posso tomar banho?
Franzi discretamente o cenho diante da mudança repentina de assunto.
— Não gosto de me sentir suja — respondeu com naturalidade irritante. — Afinal… meu comprador deve preferir uma encomenda limpa e não uma porca.
Forcei um sorriso pequeno. Mas aquela conversa começava a me desgastar mais do que eu gostaria de admitir e quanto mais eu entendia a dimensão da situação mais ela se tornava incômoda.
— E quando eu vou ser entregue?
Dessa vez respondi sem demora.
— Em três dias.
As palavras saíram firmes. Mesmo que parte de mim soubesse que eu deveria despachar aquela brasileira problemática o mais rápido possível antes que ela começasse a virar um problema ainda maior dentro da minha cabeça.
Ela absorveu a informação sem alterar a expressão.
Como se estivesse apenas reorganizando estratégias mentalmente.— E vocês são o quê? Uma organização isolada?
Cristo…
Ela fazia perguntas demais para alguém nessa situação.— Somos a máfia. La Corona Nera.
— Entendi.
O tom parecia desinteressado, mas os olhos entregavam outra coisa.
A mente daquela piccola funcionava rápido demais.— Tem roupas aqui ou vou precisar dormir pelada? — Perguntou inclinando levemente a cabeça.
Deboche outra vez. Eu já começava a perceber que aquilo era uma arma dela.
— E comida? — Continuou. — Porque eu estou com fome.
Dessa vez um riso baixo escapou antes que eu impedisse. Inacreditável.
A garota tinha sido sequestrada pela máfia italiana e ainda conseguia agir como uma hóspede irritada reclamando do serviço de um hotel.Apoiei uma das mãos no bolso da calça enquanto olhava aquela brasileira sentada na minha cama como se pertencesse ao lugar.
— Você deveria estar desesperada.
Ela deu de ombros.
— Desespero não vai me tirar daqui.
Resposta cruelmente lógica. Quando seguiu em direção ao banheiro, parou na entrada e virou parcialmente o rosto na minha direção.
— Qual é o seu nome?
— Dominic.
Ela repetiu mentalmente. Percebi pelo leve movimento dos lábios. Como se estivesse experimentando o som. Então fez menção de entrar no banheiro, mas parou outra vez.
— Espera.
Ela virou completamente para mim.
— Você é o famoso “Dom” que manda nessa porra toda?
Fez aspas no ar com os dedos finos enquanto completava:
— Tipo… o chefão?
Um riso curto escapou pelo meu nariz antes que eu pudesse impedir.
Isso é ridículo. Ela parecia mais interessada em confirmar hierarquias do que em entrar em pânico.Mesmo assim, a coragem dela era absurda. Muito homem treinado dentro da organização não sustentava minha presença daquele jeito.
— Sim — respondi por fim. — Sou o Don da famiglia.
Observei atentamente esperando alguma reação. Qualquer uma. Mas Alina apenas fez um pequeno bico pensativo, como se estivesse avaliando uma informação comum demais.
— Ok. Só queria confirmar.
E entrou no banheiro e fechou a porta como se o mundo do lado de fora não fosse um problema imediato. Fiquei alguns segundos encarando a madeira fechada.
Pensando no quanto aquela garota conseguia bagunçar o ambiente apenas existindo.
Então finalmente me movi. Saí do quarto e tranquei a porta atrás de mim. Lucca e Marco aguardavam alguns metros à frente.— O leilão começa em vinte minutos — Marco avisou.
Assenti enquanto ajustava o relógio no pulso.
— Andiamo.
Seguimos pelo corredor até eu parar ao lado de Francesca, uma das funcionárias responsáveis por cuidar das meninas da casa.
— Leve roupas para a brasileira que está no quarto principal.
Ela assentiu imediatamente. Sem perguntas.
Como todos naquele lugar aprendiam a fazer. Mas antes que saísse, completei:— Nada chamativo. Capito?
Os olhos dela ergueram rapidamente em surpresa quase imperceptível.
Provavelmente porque eu nunca me importei com esse tipo de detalhe.— Sim, Don.
Assim que Francesca se afastou, continuei andando pelo corredor ao lado de Marco e Lucca. Não demorou nem dez segundos para meu irmão abrir a boca.
— Vai me explicar por que diabos a brasileira está no seu quarto?
— Porque ela não pode ficar com as outras.
— Essa resposta foi uma merda — Lucca rebateu imediatamente.
Marco soltou um riso discreto ao meu lado.
— Ele tem razão.
Passei a mão pela barba lentamente enquanto descíamos os últimos degraus em direção à área restrita do club.
— Ela reagiu no sequestro. Reagiu quando chegou aqui. Observa tudo. Se deixar aquela garota perto das outras, em menos de um dia ela convence alguém a tentar fugir.
Lucca soltou fumaça devagar do cigarro que segurava entre os dedos.
— Então você isolou a brasileira porque ela é inteligente demais?
— Porque ela é problemática demais.
Marco me lançou um olhar lateral.
— E porque ela vale dinheiro demais para correr risco.
Essa parte pelo menos era verdade. Ou parte dela. Seguimos até a área VIP da boate enquanto a música grave preenchia o ambiente abaixo.
Mulheres dançavam nos palcos iluminados em vermelho e dourado, garçons circulavam com bebidas caras e homens ricos apostavam fortunas como se dinheiro fosse descartável.
O leilão aconteceria em uma sala privada nos andares superiores do Corona Black.
Nos acomodamos na mesa reservada com vista privilegiada para o salão principal. Um dos homens serviu nosso uísque, enquanto Marco acendia outro cigarro ao meu lado.Peguei o copo de cristal, girando lentamente o líquido âmbar antes de beber um gole. Forte. Do jeito que eu precisava. Mas, pela primeira vez em muito tempo…
Minha cabeça não estava focada nos negócios.Estava nela.
Na brasileira irritante ocupando meu quarto como se tivesse sido feita para desafiar minha paciência. Porcaria. Levei o cigarro à boca enquanto via mais pessoas entrando. Então falei sem tirar os olhos do salão:— Já levaram comida pra ela?
Marco ergueu uma sobrancelha discretamente antes de pegar o celular.
Falou rápido com um dos homens da segurança e desligou segundos depois.— Sim. Francesca mandar levar faz pouco tempo.Lucca se virou para mim.
— Você tá estranho pra caralho hoje.
Ele tomou outro gole do bourbon antes de continuar:— Acho que você só precisa descarregar tensão.
Marco soltou fumaça lentamente.
— Concordo.
Revirei os olhos.
— Vocês dois falam demais.
Lucca apoiou o braço no encosto do sofá e inclinou a cabeça em direção ao salão principal.
— Chiara tá olhando pra você faz uns quinze minutos com cara de gata sem dono.
Meu olhar desceu automaticamente até o andar inferior. Chiara estava no bar.
Vestido preto curto e as pernas cruzadas. Olhos presos em mim como acontecia praticamente toda vez que eu aparecia ali.Ela era bonita, sabia como me agradar e principalmente minha exclusiva.
Talvez Lucca tivesse razão e eu realmente precisasse tirar Alina Montserrat da minha cabeça antes que aquilo virasse um problema.Soltei uma risada baixa enquanto apagava o cigarro no cinzeiro de cristal.
— Talvez eu precise mesmo de uma boa trepada.
— Finalmente o Don voltou ao normal.
Terminei o uísque em um único gole e só então me dei conta de uma coisa. Merda.
Alina Montserrat estava ocupando meu quarto.— Problema? — Lucca perguntou já segurando o riso.
Bufei pelo nariz.
— A brasileira tá no meu quarto.
Meu irmão riu baixo.
— Cristo… você realmente tá fodido.
Marco soltou um riso contido enquanto tomava outro gole do bourbon. Lucca apoiou o braço no encosto do sofá e abriu um sorriso debochado.
— Usa o meu, fratello.
Balancei a cabeça com uma pequena risada.
— Va bene.
Apaguei o cigarro no cinzeiro de cristal e me levantei.
No mesmo instante, fiz um simples movimento com a mão em direção ao salão principal.Nem precisei chamar, Chiara entendeu o recado e o sorriso da morena se alargou enquanto ela descia do banco do bar caminhando na minha direção quase saltitando nos saltos altos.
Bonita, sensual e o suficiente para me divertir.
A água quente deslizava sem pressa, preenchendo o banheiro com uma névoa densa. Depois daquele banho, eu deveria me sentir melhor.
Apoiei as mãos na parede do box e mantive os olhos fechados, tentando afastar a sensação incômoda de fragilidade enquanto o chuveiro continuava despejando água sobre o mármore claro.Forcei as pálpebras com mais intensidade. Ainda assim, minhas pernas falharam.
Acabei sentada no chão, sem me importar com a corrente morna escorrendo pela minha pele.Foi encarando os veios do mármore branco que tudo veio de uma vez: primeiro o nó preso na garganta, depois a pressão sufocante no peito e, por fim, as lágrimas quentes misturadas à água do chuveiro.
Raiva, vergonha, frustração e uma saudade dilacerante do meu pai.
Meu peito contraiu ao pensar nele. Augusto só tinha a mim e eu fui arrancada da minha vida como se não passasse de algo descartável.Mordi o lábio com força até sentir o gosto metálico do sangue, mas a dor física parecia insignificante perto do caos que me consumia por dentro. Mavi.
O que tinham feito com ela?Até aquele instante, eu estava ocupada demais tentando manter a cabeça no lugar para pensar de verdade na minha prima. Ela estava viva? Ferida? Presa em algum lugar ainda pior?
Meus dedos se fecharam devagar enquanto o vazio no estômago se misturava ao nervosismo crescente. Eu nem lembrava qual tinha sido minha última refeição.
Até agora, a única coisa que me sustentava era o ódio.A ponta dos meus dedos já estava enrugada pela água quente, mas continuei ali por mais alguns minutos. Porque, às vezes, até quem aprende a suportar tudo acaba cedendo. Sustentar firmeza o tempo inteiro era exaustivo demais.
Muito mais do que provocar desespero, homens como aqueles se alimentavam dele.
Do medo. Da confusão. Daquele instante exato em que alguém perdia completamente o controle.Os mais frágeis quebravam primeiro, os fortes levavam mais tempo… porque eles apreciavam destruir cada parte devagar, sem pressa, até não restar nada inteiro.
Eu conhecia aquele tipo de gente. Aprendi cedo demais convivendo com o mundo do meu pai.Por isso, sobreviver nunca teve relação apenas com força.
Tinha relação com adaptação. Parecer vulnerável quando fosse conveniente.
Ingênua quando necessário. Serena enquanto me analisavam. E implacável… quando não existisse outra saída.Era exaustivo sustentar aquilo o tempo inteiro.
Ainda assim, eu conseguiria.Passei as mãos pelo rosto úmido e finalmente fiquei de pé.
Fechei o registro do chuveiro, peguei a toalha dobrada perto da bancada e me envolvi nela antes de secar os cabelos de maneira apressada.Ao sair do banheiro, o quarto pareceu maior e mais frio do que antes.
Sobre a cama, algumas roupas femininas haviam sido separadas com cuidado. Um conjunto de pijama discreto.Provavelmente escolhido por alguma funcionária da boate ou pelo próprio Dominic. Vesti as roupas largas que haviam deixado para mim. A calça era tão grande que a barra arrastava no chão a cada passo.
Caminhei até a cama e me deitei devagar.
O colchão afundou sob meu corpo de um jeito confortável demais para aquela realidade. Os lençóis carregavam um aroma suave de lavanda, quase acolhedor. Em outra situação, talvez aquilo tivesse sido agradável.Mas nada ali conseguia transmitir conforto de verdade. Permaneci encarando o teto por alguns minutos enquanto minha mente retornava às outras garotas.
As loiras chorando sem conseguir disfarçar o desespero, a morena encolhida, tomada pelo medo e a ruiva completamente desnorteada, como se ainda não tivesse entendido o que estava acontecendo. Aquela cena me corroía por dentro.
A facilidade com que pessoas poderosas arrancavam a liberdade alheia como se estivessem negociando mercadorias era revoltante.
Virei para um lado. Depois para o outro, incapaz de encontrar uma posição confortável enquanto tentava pensar em alguma saída. Qualquer possibilidade. Porque existia uma única certeza dentro de mim: Eu não pretendia morrer naquele lugar.
O som da fechadura girando fez meu corpo ficar alerta imediatamente. Sentei na cama num movimento brusco, mantendo toda a atenção voltada para a porta. Ela se abriu devagar, revelando um homem empurrando um carrinho prateado de comida.
Era alto, tinha alguns fios grisalhos espalhados pelos cabelos escuros e o rosto limpo, marcado pelo cansaço discreto de alguém que trabalhava demais. Vestia roupas sociais simples e um avental preto preso à cintura.
Os olhos dele passaram rapidamente por mim antes que fechasse a porta com cuidado.
— Trouxe comida, signorina — disse com um forte sotaque italiano.
Meu foco desceu automaticamente para o carrinho. Pratos quentes, pães, frutas e até sobremesa. Aquilo definitivamente não parecia compatível com um cativeiro.
O homem atravessou o quarto e começou a organizar tudo na pequena mesa perto da janela.O aroma da comida se espalhou depressa pelo ambiente. O cardápio era sofisticado demais para a situação: risoto de parmesão, filé ao molho de vinho, legumes salteados e uma cesta pequena com pães italianos ainda quentes.
Meu estômago se contraiu na mesma hora, lembrando que eu não comia desde Mônaco.
— Meu nome é Enrico — comentou enquanto alinhava os talheres. — Sou o chef daqui.
Chef. Claro. Até a máfia italiana mantinha um cozinheiro particular.
— Isso tudo é pra mim?
— Ordem do Don.
— Ele acha que comida vai me deixar mais obediente?
Enrico soltou um suspiro discreto, carregado daquele desgaste silencioso de quem já tinha escutado perguntas demais ao longo da vida.
— Não faço perguntas sobre ordens. Apenas cozinho.
Justo.
Analisei melhor o homem diante de mim. Ele evitava sustentar meus olhos por muito tempo, como se soubesse exatamente o tipo de coisa que acontecia naquele lugar e preferisse não encarar a realidade de frente.
— E minha prima? — perguntei sem rodeios. — A garota que estava comigo.
Pela primeira vez, ele demonstrou hesitação.
— Não sei — respondeu por fim. — Não me contam esse tipo de coisa.
Mentira parcial. Ou talvez apenas uma verdade conveniente.
De qualquer forma, qualquer detalhe ainda era melhor do que permanecer completamente no escuro.Enrico terminou de organizar a mesa e empurrou o carrinho vazio em direção à porta. Antes de sair, parou por um breve instante.
— Você deveria comer, bambina.
Franzi a testa de leve.
— Por quê?
Ele segurou a maçaneta sem responder imediatamente. Naquele momento, pareceu carregar mais anos do que realmente tinha.
— Porque as garotas que desistem de lutar… não sobrevivem muito tempo aqui.
A frase ficou suspensa no quarto por alguns segundos.
Então ele abriu a porta e saiu, me deixando sozinha outra vez.






