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CAPÍTULO 08 -  Despachem a Brasileira - DOMINIC BELLANDI

Dominic Bellandi

A dor de cabeça parecia um martelo batendo atrás dos meus olhos.

Abri as pálpebras devagar, soltando um resmungo irritado ao encarar o teto desconhecido.

Então lembrei que estava no quarto de Lucca.

Passei a mão pelo rosto antes de me sentar na cama bagunçada. O cheiro de cigarro ainda impregnava o ambiente, misturado ao perfume doce de Chiara espalhado pelos lençóis.

A lembrança da noite anterior voltou aos poucos. Eu entrando no quarto com ela logo atrás. Chiara tirando os saltos altos enquanto parecia carente por atenção.

— Por que não fomos para o seu quarto? — Ela perguntou naquela hora.

Acendi um cigarro antes de responder.

— Porque o meu está ocupado.

Soltei a fumaça lentamente.

Chiara parou o movimento quase na mesma hora.

— Então é verdade?

Ergui uma sobrancelha sem entender onde ela queria chegar.

— Você colocou uma mulher lá? — Perguntou, mais baixa. — Por quê, Dom?

Meu olhar encontrou o dela. Frio. Direto.

— Não é da sua conta, Chiara ou esqueceu qual é o seu lugar?

O semblante dela mudou, o brilho divertido desapareceu, dando espaço a uma expressão abatida que me irritou.

Odiava sentimentalismo.

Chiara era inteligente o suficiente para entender as regras daquele lugar.

Ninguém fazia perguntas sobre minha vida. Muito menos sobre decisões envolvendo a organização.

Ela desviou os olhos por um instante, claramente arrependida.

Suspirei baixo.

Então bati levemente na minha perna esquerda.

— Vieni.

Ela me olhou outra vez antes de caminhar até mim.

Sentou no meu colo sem resistência, os braços deslizando pelos meus ombros e passei a mão lentamente pela cintura dela.

Ela é uma encomenda importante — expliquei, mais calmo. — E problemática demais pra ficar com as outras.

Chiara relaxou um pouco ao ouvir aquilo. Meus dedos acariciaram distraidamente os cabelos escuros.

— E quando ela vai embora?

— Logo.

Chiara abriu um pequeno sorriso e aproximou o rosto do meu.

— Então para de pensar nisso.

Ela beijou meu pescoço devagar. Depois minha mandíbula. A boca deslizando pela minha pele com experiência suficiente para enlouquecer qualquer homem.

— Agora deixa eu fazer o que faço de melhor, Don…

Sorri de canto ou pelo menos tentei.

Porque cada vez que Chiara me beijava…

Minha cabeça voltou para outra mulher..

Olhar de gelo, sarcasmo irritante e uma calma absurda para alguém sequestrada pela máfia.

Merda.

Aquilo começou a me frustrar de verdade.

Chiara continuava me provocando, os lábios descendo lentamente pelo meu pescoço enquanto as mãos dela abriam os botões da minha camisa.

Mas minha mente não ficava ali.

Voltava sem permissão para Alina Montserrat ocupando meu quarto e provavelmente planejando uma forma de fugir naquele exato momento.

Bufei irritado.

Chiara ergueu o rosto imediatamente.

— O que foi?

Passei a mão pela nuca, encarando a parede por um instante.

— Nada.

Mas não era verdade e eu sabia disso.

Abri os olhos, afastando as lembranças da noite anterior, Chiara ainda dormia largada sobre a cama desarrumada. O lençol claro cobria apenas parte do corpo dela, enquanto a luz suave da manhã atravessava as cortinas do quarto de Lucca, iluminando o ambiente aos poucos.

Levantei sem fazer barulho e segui direto para o banheiro.

A água fria do chuveiro ajudou a afastar parte da ressaca e do peso da noite anterior, mas não foi suficiente para silenciar meus pensamentos.

Depois do banho rápido, comecei a me vestir em frente ao espelho, passando a mão pelos cabelos ainda úmidos enquanto abotoava a camisa escura.

A noite tinha sido boa.

Chiara sabia exatamente como me satisfazer, normalmente, aquilo bastava para me fazer esquecer qualquer problema por algumas horas. Mas dessa vez não funcionou. Mesmo transando com ela, era na brasileira que eu pensava.

Eu era um fodido mesmo.

Alina Montserrat era apenas uma encomenda.

Uma garota problemática esperando para ser entregue a um cliente rico e perturbado. Nada além disso.

Então por que caralho ela ainda ocupava espaço na minha cabeça? Resmunguei irritado e peguei o maço de cigarros sobre a cômoda.

Acendi um antes mesmo de terminar de fechar os botões da camisa.

A fumaça queimou devagar na garganta enquanto eu caminhava até a porta do quarto.

Chiara se mexeu na cama, abrindo os olhos lentamente.

— Já vai? — perguntou com a voz rouca de sono.

— Preciso resolver algumas coisas.

Ela sorriu de canto, ainda sonolenta.

— Negócios?

— Sí.

Chiara conhecia minhas prioridades. Antes de sair, peguei a chave da Maserati sobre a mesa e dei uma última tragada no cigarro. Precisava ir para casa.

A manhã na Sicília estava clara demais para alguém que havia dormido pouco.

Desci do carro já sentindo o gosto amargo do café que ainda nem tinha tomado.

A dor de cabeça tinha diminuído, mas o cansaço permanecia preso atrás dos olhos. Assim que entrei na mansão da famiglia, o cheiro de café italiano fresco e pão assado tomou o ambiente.

Pelo menos alguma coisa naquele dia ainda fazia sentido. Segui direto para a mesa onde o café estava sendo servido. Lucca foi o primeiro a me ver e, claro, o primeiro a abrir a boca.

— Madonna… — ele soltou uma risada curta. — Você tá com cara de quem brigou com um caminhão.

Puxei a cadeira sem paciência.

— Cala a boca.

Isso só fez ele rir mais.  Flora ergueu os olhos da xícara imediatamente, me analisando com atenção de mãe.

— Mio figlio, você dormiu?

— Pouco.

— Você está pálido — ela comentou, preocupada. — E com olheiras.

Sofia nem levantou os olhos do tablet.

— Talvez seja o karma finalmente funcionando.

Lancei um olhar seco para minha irmã.

— Quer testar sua teoria?

Ela sorriu sem qualquer medo.

— Não. Gosto muito da minha cara intacta.

Meu pai continuava lendo o jornal tranquilamente até finalmente abaixá-lo.

— O que aconteceu?

Suspirei baixo antes de pegar a garrafa de café.

— Trabalho demais.

Lucca gargalhou de novo.

— Trabalho? É disso que estão chamando agora?

Ignorei o idiota e servi café na xícara.

Flora estreitou os olhos para o filho mais novo.

— Lucca deixe seu irmão.

— O quê? — Ele ergueu as mãos em falsa inocência. — Ele tá estranho desde ontem.

Sofia apoiou o cotovelo na mesa.

— Agora fiquei curiosa também.

— Não deveria — respondi seco.

Meu pai continuou me avaliando. Domenico tinha aquele hábito de parecer enxergar além do que as pessoas mostravam.

— Alguma complicação nos negócios? — Perguntou por fim.

Antes que eu respondesse, passos se aproximaram pelo corredor.  Marco entrou primeiro e Ivan vinha logo atrás, com a mesma expressão fechada de sempre.

— Buongiorno, famiglia — Marco cumprimentou.

— Buongiorno — Flora respondeu primeiro.

Meu pai apenas assentiu discretamente.

— Sentem-se — minha mãe insistiu. — Vocês precisam comer alguma coisa.

Marco abriu um sorriso educado.

— Grazie, Flora. Mas precisamos falar com o Don.

Ivan sequer disfarçou.

— Depois.

Bastou olhar para Marco e Ivan para entender que aquilo não podia esperar.

Peguei outra xícara de café antes de sair da sala, enquanto Lucca fazia o mesmo ao meu lado.

Troquei um olhar rápido com meu pai, Domenico permaneceu sentado ao lado de minha mãe com a tranquilidade de sempre. Ele ainda era respeitado como um rei dentro da La Corona Nera, mas evitava se envolver em assuntos menores ligados ao tráfico.

Flora odiava essa parte da organização, e, depois de tantos anos juntos, meu pai havia aprendido a escolher quais batalhas travaria dentro da própria casa.

— Escritório — falei sem rodeios.

Marco e Ivan vieram atrás de nós imediatamente.

O som dos nossos passos ecoou pelos corredores da mansão até chegarmos ao escritório principal, entrei primeiro e fechei a porta logo em seguida.

Lucca se largou no sofá de couro com a mesma preguiça de sempre, enquanto Marco permaneceu próximo à mesa e Ivan manteve a postura rígida perto da entrada.

Caminhei até a janela panorâmica, observando por alguns segundos os vinhedos ao longe antes de levar o café aos lábios. Forte, amargo e exatamente do jeito que eu precisava. Então me virei para eles.

— Quero ouvir tudo.

Marco respirou fundo antes de começar.

— Augusto Montserrat está desesperado atrás da filha.

Apoiei a xícara sobre a mesa enquanto ele continuava.

— Ele apareceu na imprensa há poucas horas. Deu entrevista para canais internacionais, pressionou autoridades francesas e italianas e ainda ofereceu uma recompensa milionária por qualquer informação.

— Quanto? — Lucca perguntou.

— Dez milhões de euros.

Meu irmão soltou um assobio baixo.

— Porra.

Ivan cruzou os braços.

— O governo brasileiro entrou oficialmente na investigação. Estão monitorando aeroportos, portos, fronteiras e empresas privadas ligadas a transporte internacional. Alguns voos e embarcações já foram interceptados durante a madrugada. Revistaram cargas, passageiros e tripulações.

Meu maxilar endureceu lentamente.

— E nós?

— Limpos — Ivan respondeu. — Passamos antes das ordens chegarem às autoridades locais.

Lucca se recostou na cadeira.

— Tivemos sorte então.

Eu odiava depender dessa palavra. Sorte deixava rastros, e erros matavam homens no nosso mundo. Marco colocou outra pasta sobre minha mesa.

— Tem mais uma coisa.

Abri o arquivo rapidamente.  Fotos, matérias e imagens de Augusto Montserrat cercado pela imprensa. O homem parecia destruído, com olheiras profundas e com a expressão abatida.

Mas ainda mantendo aquela postura fria típica de empresários acostumados a controlar crises. Só que aquela não era uma crise empresarial.

Era a filha dele.

— O cliente entrou em contato três vezes desde a madrugada — Ivan falou logo depois. — Ele quer a entrega da garota imediatamente.

Fechei a pasta devagar.  Uma parte de mim queria acabar logo com aquilo.

Despachar Alina, receber o restante do pagamento  e encerrar o problema antes que crescesse ainda mais.

Seria o mais inteligente.  O mais lógico. Então por que caralho eu continuava hesitando? Passei a mão pela barba antes de encarar os três.

— Preparem tudo.

Marco me observou com atenção.

— Tem certeza?

Minha resposta demorou alguns segundos.

Longos demais.

— Quero ela despachada hoje à noite.

A frase saiu mais seca do que eu pretendia.

O escritório estava tomado pelo cheiro forte de cigarro e café.

Eu continuei analisando os lucros da semana enquanto Lucca terminava o uísque que tinha servido para si mesmo logo cedo. 

Marco revisava algumas rotas alternativas no tablet, sempre metódico.

Então o celular de Ivan vibrou. Ele olhou rapidamente para a tela antes de atender.

— Fala.

A conversa começou em russo, do jeito que negociadores daquele tipo gostavam de trabalhar.  Sem enrolação.

Continuei observando os documentos à minha frente, mas minha atenção já estava na ligação.  Ivan ouviu por alguns segundos antes de responder:

— O cliente foi informado sobre os riscos.

Os olhos dele vieram discretamente até mim.

— Entendo.

Ivan afastou o aparelho da orelha.

— O negociador de Atlas quer falar diretamente com você, Don.

Estendi a mão sem pressa e peguei o celular.

— Parla.

A voz masculina do outro lado era fria. Controlada. Acostumada a lidar com gente perigosa.

— Don Bellandi.

— Está preocupado demais para alguém que comprou uma garota — respondi seco.

O homem ignorou a provocação.

— Você sabe como o nome dela explodiu na imprensa internacional.

Claro que eu sabia.

Aquela porra estava em todos canais de notícia.

— Augusto Montserrat está movimentando governos inteiros atrás da filha — ele continuou. — Atlas prefere evitar transporte desnecessário nesse momento.

Cruzei os braços lentamente.

— Vá direto ao ponto.

— Ele mesmo irá buscá-la.

Aquilo me incomodou mais do que deveria e senti meu corpo tensionar automaticamente.

Meu irmão se aproximou devagar e bateu uma vez no meu ombro, como se dissesse silenciosamente para eu manter a cabeça no lugar.

— Onde? — Perguntei.

O negociador respondeu na mesma hora:

— Queremos um local neutro.

Soltei uma risada curta.

— Não existe território neutro na Sicília.

Aquilo arrancou um pequeno silêncio do outro lado.

Então continuei:

— A entrega será em Castelbuono.

Marco levantou os olhos imediatamente ao ouvir o nome.  Era uma boa escolha.

Uma propriedade antiga da família cercada por floresta e estradas estreitas nas montanhas.

Distante o suficiente da cidade e, principalmente, longe demais do Palazzo.

Ninguém podia associar nossos negócios reais ao submundo.

A fachada precisava continuar limpa.

— Atlas deve trazer o restante do pagamento em dinheiro vivo — falei enquanto caminhava lentamente pelo escritório. — E não quero excesso de homens armados circulando no meu território.

— Quantos homens serão permitidos?

— Os suficientes para proteger Atlas. Não os suficientes para me insultar.

— Certo.

Peguei outro cigarro e acendi calmamente.  A fumaça subiu devagar enquanto eu encarava os vinhedos ao longe pela janela.

— Que horas ele pousa?

— O jatinho chegará às dezenove horas em Palermo. Às vinte e uma, Atlas estará no ponto marcado.

Horário bom, escuro o suficiente, movimentação menor nas estradas e menos olhos curiosos.

— Enviarei o endereço exato uma hora antes — respondi.

— Acordo fechado então.

Desliguei sem responder. Marco fechou o tablet e apoiou os braços sobre a mesa.

— Vou reforçar a segurança em Castelbuono.

— Quero atiradores posicionados nas rotas principais e homens nas entradas da propriedade.

Todos assistiram.

Meus olhos foram até a janela outra vez.  Alina Montserrat tinha virado notícia internacional em menos de vinte e quatro horas e todo mundo estava procurando por ela.

Mas ali… Na Sicília… Aquele território ainda era meu e nenhuma autoridade pisaria onde a La Corona Nera controlava sem autorização.

Não quando metade dos homens importantes da região estava na nossa folha de pagamento.

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