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Capítulo 06 — A Encomenda Chegou - DOMINIC BELLANDI ♟ Alina Montserrat

Dominic Bellandi

A noite já havia tomado a Sicília quando Marco entrou no meu escritório sem bater.

Do lado de fora da cobertura envidraçada, as luzes de Palermo brilhavam contra o mar escuro enquanto a música grave da Corona Club subia abafada pelos andares inferiores.

A boate estava cheia como sempre. Milionários bêbados, políticos corruptos, empresários fingindo importância enquanto gastavam fortunas escondidos no Palazzo della Corona.

Fechei o arquivo que analisava antes de erguer os olhos para Marco.

— A encomenda brasileira chegou.

— Sozinha?

— Não. Vieram mais quatro junto.

Então Ivan conseguiu.

Transportar uma herdeira daquele nível sem chamar atenção internacional já era complicado, tirar ela de Mônaco e atravessar o Mediterrâneo sem levantar suspeitas exigia mais do que sorte.

— Algum problema? — perguntei.

Marco se aproximou da mesa.

— Duas tentaram fugir quando chegaram e foram contidas.

Nada fora do esperado. A maioria surtava quando entendia para onde tinha sido levada. Fechei o arquivo completamente e me recostei na cadeira.

— Onde estão?

— No subsolo do prédio. Aguardando triagem.

— O cliente?

Marco soltou um suspiro baixo.

— Já entrou em contato duas vezes.

Claro que entrou, a brasileira não tinha sido escolhida aleatoriamente, ela foi desejada e comprada antes mesmo de pisar na Sicília. Passei os dedos lentamente pela barba.

— Diga que confirmo em breve.

Marco assentiu, mas não se moveu.

— Tem mais alguma coisa?

— Ela parece… diferente.

Franzi levemente a testa.

— Diferente como?

Marco cruzou os braços antes de responder.

— Nenhuma reação histérica. Não implorou. Não entrou em pânico.

Aquilo já bastava para destoar das outras.

— E?

— Ela observa tudo, não diz nada e quando chegaram, um dos homens tentou empurrá-la pra dentro da sala e ela simplesmente deu uma cabeçada nele.

Arqueei levemente a sobrancelha e Marco soltou um riso curto antes de continuar:

— Quebrou o nariz do idiota.

Um sorriso quase imperceptível surgiu no canto da minha boca.

Interessante.

— Ivan comentou que ela também reagiu durante o sequestro — ele acrescentou. — Muito mais do que esperavam.

Apoiei os cotovelos na mesa por um instante, em silêncio. Então a herdeira brasileira não era só mais uma bambina rica acostumada a viver cercada de proteção.

Ela mordia de volta.

— Você deveria ver por conta própria — Marco concluiu.

Peguei o paletó escuro apoiado na cadeira enquanto a música da boate vibrava distante sob nossos pés, Marco abriu passagem sem dizer mais nada. Saímos da cobertura e seguimos até o elevador privado que levava aos andares restritos.

Quanto mais descíamos, mais o ambiente mudava. As luzes sofisticadas davam lugar ao concreto frio, corredores estreitos e homens armados posicionados em pontos estratégicos.

Dois seguranças abriram a porta metálica assim que nos aproximamos e logo ouvi vozes femininas do outro lado. Choro, discussões e o cheiro de medo impregnado no ar.

Descemos além da área principal, passando pelos andares privados até finalmente chegar ao nível inferior. Ali começava a parte que quase ninguém via.

O subterrâneo do Palazzo della Corona era onde as garotas permaneciam antes dos leilões, negociações ou transferências. Apesar da natureza podre daquele negócio, existiam regras rígidas dentro da organização.

As mulheres recebiam alimentação, quartos limpos, atendimento médico e segurança constante.

Me arriscaria a dizer que muitas tinham condições melhores ali do que tiveram a vida inteira em seus próprios países. Tinham conforto. Proteção. Tudo.

Exceto liberdade.

O corredor que levava às salas de triagem permanecia silencioso naquela hora da noite. Homens armados ocupavam pontos estratégicos enquanto portas reforçadas impediam qualquer tentativa de fuga.

Marco caminhava ao meu lado. Lucca vinha logo atrás, mexendo no celular sem muito interesse. Assim que entrei na sala principal, encontrei as cinco garotas sentadas lado a lado aguardando avaliação médica. Quatro delas choravam.

As duas loiras americanas estavam agarradas uma à outra, soluçando baixinho.

A cubana tremia enquanto juntava as mãos em oração desesperada. A russa roía as unhas de forma compulsiva enquanto lágrimas escorriam pelo rosto.

Quando perceberam minha presença, as loiras ergueram os olhos imediatamente.

As marcas vermelhas nos rostos deixavam claro quais foram as gênias que tentaram fugir ao chegar.

Meu olhar percorreu o restante da sala e então parou nela. Alina Montserrat.

Sentada na última cadeira. As mãos presas agora à frente do corpo, postura ereta apesar da situação.

Sem lágrimas, sem histeria, exatamente como Marco havia dito.

Os olhos azul-acinzentados analisavam cada pessoa naquele ambiente com atenção e uma calma absurda. Não parecia derrotada, parecia procurando uma oportunidade para fugir e então o olhar dela encontrou o meu.

As íris frias percorreram meu corpo lentamente, me avaliando de cima abaixo, não como uma vítima encarando o sequestrador. Mas como alguém tentando entender o adversário à frente.

Minha mandíbula se contraiu discretamente diante da ousadia e caminhei até ela;

o ambiente inteiro parou para prestar atenção.

Parei à sua frente e inclinei levemente o corpo antes de erguer seu rosto com dois dedos. A pele era quente e macia.

Alina não recuou, apenas sustentou meu olhar como se estivesse se recusando a demonstrar qualquer fraqueza.

Perguntei em italiano para Ivan:

— Vocês drogaram ela?

— Só o necessário para apagar durante o transporte, Don. Nada além disso.

Franzi levemente o cenho.

— Então por que caralho as pupilas dela estão dilatadas e ela não derramou uma lágrima?

Silêncio. 

Então ela soltou uma risada debochada e respondeu em um italiano impecável, embora carregado por um leve sotaque.

— É adrenalina, Don.

A última palavra saiu carregada de provocação.

Cazzo, a voz era baixa e suave.

E aqueles pequenos furinhos surgindo nas bochechas quando ela sorria…

Bonitos pra caralho.

Foco, Dominic.

Soltei o rosto dela e me afastei um passo.

— Coloquem ela no quarto principal.

— Principal? — Lucca e Marco perguntaram ao mesmo tempo.

Mantive os olhos nela.

— Fui bem claro.

Os dois trocaram um olhar discreto e honestamente? Eu também não sabia exatamente por que tinha tomado aquela decisão. Talvez porque colocar Alina Montserrat junto das outras garotas parecia uma ideia péssima.

Talvez porque eu simplesmente não confiava nela.

Ou talvez… eu só quisesse ela longe dos olhos dos clientes.

— Andiamo — ordenei, percebendo que todos ainda estavam processando minha decisão.

— Vai avisar o comprador que a premium está pronta para despacho? — Ivan perguntou.

— Ainda não.

As palavras saíram antes mesmo que eu pensasse direito.

— Don…

— Eu disse que ainda não.

Dessa vez minha voz saiu mais dura e suficiente para encerrar qualquer discussão.

Começamos a sair enquanto os homens seguravam Alina pelos braços para levá-la.

Ivan então puxou os cabelos dela sem necessidade alguma.

— Vamos, principessa brasileira.

Ela soltou um som irritado imediatamente e algo em mim reagiu antes mesmo que eu pensasse.

— Solta o cabelo dela.

Ivan parou na mesma hora.

— Don?

— Não quero entregar a mercadoria careca para o cliente.

Ele soltou os fios e Alina bufou baixo antes de ajeitar o próprio cabelo preso nos ombros.

— Difícil — murmurou com um sorriso discreto. — Cai dez, nasce trinta.

Lucca soltou uma risada baixa. Marco desviou o rosto tentando esconder a própria.

Eu quase fiz o mesmo. Mas mantive a expressão neutra enquanto observava a garota caminhar escoltada pelo corredor.

Naquele momento, comecei a entender por que ela vinha me incomodando tanto.

👑👑👑

Alina Montserrat

Eu estava sendo arrastada com pouquíssima dignidade.

Mas jamais daria a qualquer um deles o prazer de me ver assustada. Seguimos por corredores estreitos enquanto tentava memorizar cada detalhe possível.

Câmeras nos cantos superiores, homens armados em pontos estratégicos, portas reforçadas e foi aí que percebi onde estávamos, era uma boate.  As luzes vermelhas, música alta vibrando pelo chão, homens ricos bebendo, rindo e analisando mulheres como se fossem mercadoria.

Minha cabeça virou bruscamente quando o ruivo acertou um tapa leve na lateral do meu rosto.  Não foi forte. Mas humilhante.

Meu maxilar já doía de tanto que eu pressionava os dentes. Continuei andando sem reagir. Ainda. Descemos uma pequena escada privada no fim do corredor até chegar a uma área mais isolada.

Então ele abriu uma porta e me empurrou para dentro sem qualquer cuidado, tropecei um passo à frente e quase fui direto contra o chão. Quase.

Porque o idiota segurou meu braço no último instante e tenho certeza absoluta de que não foi gentileza, só não queria “danificar o produto”.

O quarto era… inesperado, grande e luxuoso até demais para uma vítima de sequestro ficar. Isso era muito estranho.

A cama ocupava boa parte do espaço, o banheiro parecia maior que muitos apartamentos, e a janela ampla de vidro escuro entregava uma visão parcial da cidade lá fora.

As luzes espalhadas pelas ruas brilhavam contra a noite como pequenas facas douradas. Construções antigas se misturavam com prédios modernos, e ao longe eu conseguia ouvir buzinas, vozes e o som distante do trânsito.

Eu já tinha entendido que estava na Itália pelo idioma que circulava pelos corredores. Pelos xingamentos. Pelas ordens secas. O problema era descobrir em qual parte daquele inferno eu tinha ido parar.

Observei o ambiente mais uma vez ao meu redor, então era isso, uma gaiola bonita ainda continuava sendo uma gaiola.

— Senta. — o ruivo ordenou.

Ignorei completamente.

Ele soltou o ar pelo nariz, claramente irritado, e voltou a se aproximar. Sem delicadeza alguma, segurou meus pulsos para cortar as cordas.

Assim que as amarras cederam, a circulação retornou, uma dor ardida subiu pelos braços, acompanhada daquela sensação insuportável de agulhas atravessando a pele.

Contive a careta, flexionando os dedos devagar enquanto as marcas vermelhas queimavam ao redor.  Estiquei lentamente os pulsos enquanto olhava as marcas deixadas pela corda.

O ruivo já estava virando as costas quando chamei:

— Ei… soldadinho.

Ele parou no mesmo instante. Virou devagar, os olhos estreitando.

— O quê?

Não respondi. Só me movi.

Avancei rápido e acertei o golpe direto. Minha mão atingiu o lado da tatuagem no pescoço dele antes que tivesse tempo de reagir. O impacto arrancou um grunhido baixo e fez o homem cambalear para trás, claramente pego de surpresa.

— Isso… — falei com calma demais para alguém naquela situação — foi pelos meus cabelos.

Antes que recuperasse o equilíbrio, ataquei outra vez.

Exatamente como José tinha me ensinado. Meu segundo golpe afundou na lateral da costela dele. O ar saiu pesado dos pulmões do ruivo enquanto ele se curvava por reflexo.

— E isso… pelo tapa nas garotas e por assustar minha prima.

Agora não existia mais surpresa no rosto dele. Só raiva.

Ivan avançou na minha direção como um animal enfurecido.

Mas eu já estava posicionada, os pés firmes, corpo inclinado na medida certa, respiração controlada e pronta para reagir mesmo sabendo que um soco dele provavelmente conseguiria me derrubar.

Ele percebeu e hesitou por uma fração de segundo, o suficiente para entender que eu sabia exatamente o que estava fazendo. Mas antes que qualquer um de nós atacasse…

— Basta.

A voz veio da porta grave autoritária, o ruivo parou imediatamente e, para minha surpresa, parecia mais intimidado do que eu.

Ele abaixou o olhar na mesma hora, dando um passo para trás sem discutir, eu não precisava virar para saber quem tinha chegado. Mesmo assim, virei lentamente a cabeça em direção à porta.

O chefe dos escrotos.

Encostado ali como se fosse dono do mundo ou pior como se tivesse certeza absoluta de que era. E droga…o canalha era absurdamente bonito.

Alto, ombros largos, corpo meticulosamente definido sob o terno escuro perfeitamente ajustado, a barba alinhada deixava a mandíbula ainda mais marcada, e os olhos verdes tinham aquele tipo de intensidade perigosa que fazia qualquer pessoa pensar duas vezes antes de enfrentá-lo.

Ele passava os dedos lentamente pela barba, exibindo um anel negro pesado na mão direita.  Havia tatuagens discretas em alguns dedos, mas ele abaixou a mão no instante em que percebeu meu olhar ali.

Interessante, a postura dele era relaxada, não porque estivesse despreocupado; mas porque claramente era o homem mais perigoso daquele lugar e sabia disso.

Aqueles olhos verdes me analisavam sem pressa e pela primeira vez desde que fui sequestrada, senti algo diferente atravessar meu corpo. Não foi medo ou incômodo. Porque era como olhar para uma versão muito mais sombria da frieza que eu conhecia desde criança.

A mesma calma controlada que meu pai usava em reuniões, a mesma presença que fazia pessoas se calarem sem precisar levantar a voz e talvez…a mesma frieza que muitos diziam existir em mim.

— Ela me atacou, Don — o ruivo resmungou, ainda segurando o pescoço.

— Eu vi.

A resposta saiu tranquila.  Mas carregada de autoridade suficiente para fazer o ambiente inteiro ficar imóvel. O italiano chefe não desviou os olhos de mim nem por um segundo.

— Saia.

Ivan hesitou.

— Don—

— Agora.

O ruivo saiu imediatamente, fechando a porta atrás dele.

— Bundão — murmurei em português enquanto via o ruivo ir embora.

O chefão arqueou levemente a sobrancelha, claramente sem entender. Ótimo.

Provavelmente não falava meu idioma.

Assim que o ruivo saiu, voltei toda minha atenção para o homem parado na porta.

Eu ainda não sabia oficialmente o nome dele.  Mas já tinha entendido quem comandava aquele lugar.  O Don.

E foi exatamente essa percepção que fez a realidade finalmente me atingir de verdade. Aquilo não era um sequestro comum. Não eram criminosos improvisados atrás de dinheiro rápido. Eu tinha caído nas mãos da máfia italiana.

A porra da máfia italiana.

Algo que sempre pareceu distante demais para existir fora de filmes, documentários ou livros policiais. E agora eu estava ali, dentro daquilo.

Respirei fundo, precisando controlar a vontade absurda de explodir de raiva.

Desespero não resolveria nada, o homem continuava me encarando com aqueles olhos verdes frios, atentos a cada mínima reação minha. Nenhum de nós falou por alguns instantes.

Então simplesmente virei as costas para ele.

Sem pressa, caminhei até a cama enorme no centro do quarto e me sentei na ponta, sentindo o colchão afundar levemente. Depois me deitei como se aquilo fosse normal. Como se eu não estivesse presa em um lugar comandado por criminosos e eu fosse apenas uma garota cansada descansando depois de um dia longo.

Eu sentia o olhar dele sobre mim o tempo inteiro. Não me importei.

Porque naquele momento eu já começava a perceber uma coisa importante.

O homem mais perigoso daquele lugar, talvez também fosse minha melhor chance de sair dali viva.

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