O Luxo Não Esconde o Veneno

O táxi parou bem na frente do hotel.

Alto.

Luxuoso.

Bonito de um jeito quase intimidador.

Mas, mesmo assim…

Helena sentiu um aperto estranho no peito quando abriu a porta e desceu.

Não era sobre o lugar.

Era sobre tudo que tinha acontecido pra ela chegar até ali.

Ela segurou a alça da bolsa com mais força, como se aquilo ajudasse a manter o controle, e respirou fundo antes de entrar.

Precisava parecer forte.

Mesmo não estando nem um pouco.

O saguão era elegante, silencioso, com aquele cheiro leve de perfume caro que parecia coisa de filme.

Gente bem vestida passando de um lado pro outro.

Sorrisos educados.

Tudo organizado.

Tudo no lugar.

Totalmente diferente da bagunça que estava dentro dela.

— Boa tarde, senhora — disse o recepcionista, com um sorriso treinado.

Helena travou por um segundo.

“A senhora.”

Aquilo ainda soava estranho.

Como se não fosse com ela.

Mas ela apenas assentiu, tentando agir naturalmente.

— Tenho uma reserva.

A voz saiu mais firme do que ela esperava.

Alguns minutos depois, ela já estava com o cartão do quarto nas mãos.

Subiu sozinha.

O som do elevador parecia alto demais.

O silêncio lá dentro… desconfortável demais.

Ela olhava pro próprio reflexo no espelho.

Tentando reconhecer a pessoa ali.

Mas parecia outra versão dela.

Quando a porta do quarto se abriu, Helena entrou devagar.

Observando tudo.

A cama grande.

A janela enorme com vista pra cidade.

A iluminação perfeita.

Tudo bonito.

Tudo impecável.

Tudo… vazio.

Ela soltou a bolsa no sofá sem muita cerimônia e caminhou até a janela.

Os braços se cruzaram automaticamente, como se fosse um reflexo.

Como se estivesse tentando se proteger de alguma coisa invisível.

— Isso é temporário… — ela sussurrou.

Mas nem ela mesma acreditou muito no que disse.

Sua mão desceu devagar até o ventre.

O coração apertou na hora.

— Eu vou dar um jeito…

Mas antes que ela pudesse continuar o pensamento—

Um som.

A porta.

Abrindo.

O corpo dela travou na mesma hora.

Ela não tinha chamado ninguém.

Não tinha autorizado ninguém.

O coração disparou.

Ela virou rápido—

E congelou.

Porque, de todas as pessoas do mundo…

A última que ela queria ver…

Estava ali.

Encostada na porta.

Sorrindo.

Como se aquele lugar fosse dela.

Como se sempre tivesse sido.

— Eu sabia que você escolheria um lugar assim — disse, olhando ao redor com um certo desprezo disfarçado.

O coração de Helena batia tão forte que chegava a doer.

— Como você entrou aqui?

A mulher levantou levemente uma sobrancelha.

Calma.

Controlada.

Irritantemente segura de si.

— Você ainda não entendeu, Helena? — disse, fechando a porta atrás de si. — Lugares como esse não te protegem de mim.

O silêncio caiu pesado entre as duas.

E então o nome veio.

O nome que carregava tudo.

— Isabella… — Helena murmurou.

Isabella Almeida.

Sua irmã.

Ou pelo menos… quem um dia foi.

Isabella começou a andar pelo quarto, observando cada detalhe como se estivesse avaliando algo.

— Bonito — comentou. — Mas ainda está longe do que você perdeu.

Aquilo foi direto.

Sem aviso.

Helena puxou o ar com calma, tentando não demonstrar o quanto aquilo tinha atingido.

— O que você quer?

Isabella sorriu.

Devagar.

Do tipo que dava arrepios.

— Eu? Nada.

Ela fez uma pequena pausa, como se estivesse saboreando o momento.

— Só fiquei curiosa.

Mais um passo.

Mais perto.

— Queria ver até onde você ia cair.

O peito de Helena apertou.

Mas dessa vez…

Ela não recuou.

— Você já fez o suficiente.

Isabella inclinou a cabeça, fingindo pensar.

— Fiz?

E então riu.

— Eu só comecei.

O ar ficou pesado de um jeito quase sufocante.

— Você destruiu minha vida — disse Helena, e a voz falhou por um segundo, mas ela se manteve firme.

Isabella deu de ombros.

— Não, querida… eu só mostrei quem você realmente é.

— Uma mulher traída?

— Uma mulher substituível.

Silêncio.

Cortante.

Helena sentiu aquilo como um soco.

Mas não desviou o olhar.

Não dessa vez.

— Você não tem ideia do que fez.

Isabella sorriu de novo.

— Tenho sim.

Ela se aproximou mais devagar.

Os olhos brilhando de um jeito estranho.

— E faria tudo de novo.

O coração de Helena acelerou.

Raiva começou a crescer.

Misturada com dor.

— Por quê?

A pergunta escapou antes que ela pudesse segurar.

E, por um momento…

Isabella ficou em silêncio.

Mas quando respondeu—

Foi pior do que qualquer coisa.

— Porque você sempre teve tudo.

O silêncio ficou ainda mais pesado.

— Amor… atenção… aquela imagem perfeita de “boa filha”…

Ela soltou uma risada sem humor.

— Enquanto eu?

Uma pausa.

Os olhos dela escureceram.

— Sempre fui a segunda opção.

Helena sentiu algo apertar dentro dela.

— Isso não é verdade…

— Não mente pra mim!

A voz de Isabella subiu pela primeira vez.

Cheia de coisa acumulada.

— Você sempre foi a favorita!

E então Isabella sorriu de novo.

— Mas olha pra você agora…

O olhar dela desceu devagar pelo corpo de Helena.

Parou no ventre.

E ficou ali.

— Grávida… sozinha… abandonada…

O coração de Helena disparou.

— Como você sabe disso?

Isabella não respondeu na hora.

Só sorriu.

— Eu sei mais do que você imagina.

O clima ficou ainda mais tenso.

— Enzo sabe?

A pergunta saiu rápida.

Quase no impulso.

Isabella deu mais um passo.

Ficando perto demais.

— Ele sabe o suficiente.

O sangue de Helena gelou.

— Você contou?

— Eu ajudei ele a enxergar.

— Você é doente — Helena disse, sem conseguir segurar.

Isabella riu.

— Talvez.

Ela se inclinou um pouco, ficando ainda mais próxima.

— Mas eu sou a única aqui que está ganhando.

Aquilo foi o limite.

Helena deu um passo pra frente.

— Isso não é vitória.

— É sim.

Isabella levantou o queixo, orgulhosa.

— Eu tenho tudo o que você queria.

— Você roubou tudo.

— Não — ela corrigiu, calma — eu peguei o que você não soube segurar.

As duas ficaram em silêncio.

Respirações pesadas.

Olhares travados.

Duas irmãs.

Que agora pareciam completas estranhas.

Ou pior…

Inimigas.

— Isso não vai ficar assim — Helena disse.

Isabella sorriu, como se tivesse esperado por isso.

— Eu espero que não.

Ela deu um passo pra trás.

Arrumando o vestido com tranquilidade.

Como se não estivesse destruindo alguém por dentro.

— Porque eu ainda não terminei com você.

O coração de Helena travou.

— O que isso significa?

Isabella parou na porta.

Olhou por cima do ombro.

E respondeu:

— Significa que eu vou destruir tudo o que você ainda acha que pode ter.

O ar pareceu desaparecer do quarto.

— Inclusive… essa sua ideia de recomeço.

Os olhos de Helena escureceram.

— Eu não tenho mais nada a perder.

Isabella sorriu.

E dessa vez…

Foi cruel.

— Tem sim.

Ela olhou de novo pro ventre de Helena.

Sem disfarçar.

— E eu sei exatamente onde atacar.

O instinto veio na hora.

Proteção.

Medo.

Raiva.

Tudo junto.

— Chega.

Mas Isabella já estava abrindo a porta.

Sem pressa.

Sem medo.

— Aproveita esse hotel, irmã…

Ela fez uma última pausa.

E então disse:

— Porque logo… você não vai ter nem isso.

A porta se fechou.

E o silêncio voltou.

Mas não era mais vazio.

Era pesado.

Ameaçador.

Helena ficou parada.

Sem se mexer.

Tentando respirar direito.

Tentando entender tudo.

Mas, no fundo…

Ela já sabia.

Aquilo não era mais só sobre o passado.

Nem sobre traição.

Nem sobre dor.

Era mais do que isso.

Era pessoal.

Era profundo.

Era guerra.

E, pela primeira vez…

Ela entendeu uma coisa com clareza.

Ela não podia mais fugir.

Não agora.

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