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CAPÍTULO 3: O SILÊNCIO DAS CINZAS

O primeiro sentido a despertar foi o olfato.

O cheiro de carvalho, uísque e um perfume amadeirado marcante ainda pairava no ar, mas o calor do corpo que antes a aquecia já não estava ali.

Helena abriu os olhos lentamente. A luz pálida da madrugada atravessava as frestas das persianas da biblioteca, desenhando faixas prateadas sobre o chão de madeira. Por alguns segundos, a desorientação a dominou. Ela piscou, encarando as estantes altas, até que a represa das lembranças rompeu de assalto.

O jardim. O homem desconhecido. O beijo. As palavras sussurradas. O divã.

Seu coração acelerou violentamente. Helena sentou-se de chofre, puxando contra o peito o paletó escuro que a cobria. Uma fisgada aguda entre as pernas a fez fechar os olhos e prender a respiração por um instante.

Ele tinha ido embora. A biblioteca estava mergulhada em um silêncio absoluto. Não havia bilhete, explicação ou qualquer pista. Nem mesmo um nome.

— O que foi que eu fiz? — sussurrou, a voz sumindo no ambiente vasto.

Com movimentos vacilantes, ela desceu do divã e recolheu suas roupas espalhadas pelo tapete. O vestido de festa estava amassado, com uma das alças completamente rompida — um reflexo exato de como ela se sentia por dentro. Helena encarou o tecido rasgado por longos segundos antes de conseguir vesti-lo. A adrenalina da noite anterior escoava rápido, dando lugar a uma onda sufocante de vergonha.

Sempre imaginara sua primeira vez de outra forma. Não precisava ser um conto de fadas perfeito, mas, no mínimo, esperava conhecer o homem. Desejava sentir a segurança de um futuro, ou ao menos de um amanhecer compartilhado. Não aquilo. Não acordar sozinha, despida na biblioteca da própria família, sem saber sequer o nome de quem a tocara.

As lágrimas finalmente transbordaram. Não vinham por causa de Ricardo, e nem mesmo por Isabela. Vinham por ela mesma. Helena se encolheu, sem conseguir decidir se havia sido incrivelmente impulsiva ou apenas desesperadamente carente de afeto. Talvez as duas coisas.

Caminhou até o espelho antigo encostado à parede. Os cabelos escuros estavam desalinhados, os olhos inchados e os lábios ainda guardavam o dardo avermelhado dos beijos dele. Mas o que realmente a assustou foi a expressão refletida no vidro envelhecido. Parecia outra pessoa. Como se a Helena de ontem tivesse se fragmentado e ficado para trás durante a madrugada.

Respirando fundo, ela destrancou a porta de madeira pesada. O corredor estava deserto e a mansão inteira parecia adormecida, imersa naquele silêncio tenso que antecede o amanhecer. Helena caminhou na ponta dos pés, segurando os saltos em uma das mãos, o peito apertado pela urgência de se esconder.

Quando finalmente alcançou o próprio quarto, girou a chave na fechadura e encostou as costas na porta, deslizando até o chão. Só ali permitiu que o peso real daquela noite desabasse sobre seus ombros.

No banheiro, ligou o chuveiro no máximo. Sob a água quase ardendo, Helena tentou esfregar a pele, tentou organizar o caos em sua mente. Tentou convencer a si mesma de que aquilo fora apenas um erro mecânico, um momento de extrema fraqueza que o tempo se encarregaria de apagar.

Mas, quanto mais tentava esquecer, mais os detalhes insistiam em voltar. A firmeza das mãos dele em sua cintura. A forma como ele a olhara nos olhos — enxergando-a de verdade, quando o resto do mundo parecia ignorar sua existência. E era exatamente isso que a aterrorizava: não apenas o que havia acontecido, mas o quanto ela tinha desejado cada segundo.

Minutos depois, vestindo o pijama mais confortável que encontrou, ela se encolheu na cama. Lá fora, o céu ganhava tons de rosa e azul-claro. Para o restante da família, aquela seria apenas a manhã seguinte à grande festa de noivado de Isabela. Para Helena, era o início de um território completamente desconhecido.

Ela virou-se para a parede e forçou as pálpebras a se fecharem. Buscou o sono, buscou o esquecimento. Mas toda vez que a inconsciência ameaçava puxá-la, ela via aqueles olhos misteriosos e ouvia o eco daquela voz grave.

— Por que eu não fui embora? — questionou a escuridão do quarto.

No fundo, ela sabia a resposta. Porque, por algumas horas, sentira a única coisa que passara a vida inteira procurando: a sensação de ser a pessoa mais importante do mundo para alguém. Admitir aquilo para si mesma doía mais do que qualquer abandono.

Helena finalmente adormeceu quando os primeiros raios de sol começaram a cortar o quarto. Ela queria acreditar que aquele homem se tornaria apenas uma lembrança difusa, um segredo trancado a sete chaves, um capítulo encerrado.

Ela só não sabia que o destino tinha planos bem mais complexos. E que, na verdade, aquela noite estava muito longe de terminar.

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