Mundo de ficçãoIniciar sessãoO primeiro sentido a despertar foi o olfato. O cheiro de carvalho, uísque e o rastro de um perfume amadeirado ainda pairavam no ar, mas já não havia o calor de um corpo ao lado do dela. Helena abriu os olhos lentamente, a visão embaçada pela luz pálida da madrugada que filtrava pelas persianas pesadas da biblioteca.
Ela estava nua, coberta apenas por um paletó de linho escuro que não era seu.
O choque foi como um balde de água gelada. Helena sentou-se abruptamente no divã de couro, o corpo protestando com uma rigidez que ela nunca sentira antes. Uma dor aguda e latejante entre suas pernas a fez estacar. As lembranças da noite anterior voltaram em flashes violentos: as mãos grandes em sua cintura, o beijo que prometia o mundo, o som de sua própria voz implorando para ser vista.
E, principalmente, a percepção de que ela havia entregado a única coisa que ainda possuía de inteiramente sua para um homem cujo nome ela sequer sabia.
— O que eu fiz? — o sussurro escapou de seus lábios, carregado de pavor.
Helena olhou ao redor da biblioteca silenciosa. Ele não estava lá. Não havia bilhete, não havia explicação. Apenas o vazio. Ela se levantou, as pernas tremendo, e sentiu algo úmido escorrer por sua coxa. Ao olhar para baixo, viu a pequena mancha de sangue no couro do divã.
O sangue de sua inocência.
Lágrimas quentes e pesadas começaram a cair, desta vez não por causa de Ricardo ou Isabela, mas por si mesma. Helena nunca fora o tipo de garota que se perdia em festas. Ela era a moça que ficava na biblioteca estudando, a que voltava cedo para casa, a que sonhava com um amor que começasse com um café e um pedido formal, não com uma entrega desesperada em um divã escondido. Ela tinha vinte e dois anos e guardara sua primeira vez como se fosse um tesouro, esperando pelo momento em que se sentiria segura.
Mas a segurança que sentira nos braços daquele estranho fora uma ilusão química. Uma armadilha armada pela sua própria carência.
— Você é uma idiota, Helena — ela murmurou para as estátuas de mármore que pareciam julgá-la das estantes.
Com as mãos trêmulas, ela começou a procurar suas roupas. Seu vestido de dois anos atrás estava caído no chão, uma alça rasgada, como um símbolo de sua própria ruína. Ela o vestiu com dificuldade, lutando contra o nojo que sentia de si mesma. Cada movimento era um lembrete do que havia acontecido. Ela se sentia marcada, como se o toque daquele homem tivesse deixado cicatrizes invisíveis em sua pele que qualquer um poderia ler.
O arrependimento batia em seu peito como uma marreta. Como ela encararia a mãe? Como passaria por Isabela na mesa do café da manhã? O medo de ser descoberta se misturava à dor da rejeição. Ele a usara. Ele vira uma garota vulnerável, chorando no jardim, e aproveitara a oportunidade. No fundo, ele não era diferente de Ricardo. Talvez fosse pior, porque ele fingira que ela importava.
Ela caminhou até o espelho de moldura dourada no canto da sala. Sua aparência era deplorável. Os lábios estavam inchados, os cabelos desfeitos e os olhos vermelhos. Mas o que mais a assustava era a expressão em seu rosto: ela não se reconhecia mais. A Helena Duarte que entrou naquela festa ontem à noite estava morta.
Ela precisava sair dali antes que os empregados chegassem para limpar os restos da devassidão da festa.
Helena abriu a porta da biblioteca com cuidado, espiando o corredor. A mansão estava em um silêncio sepulcral, aquele tipo de silêncio que sucede os grandes desastres. Ela caminhou nas pontas dos pés, os sapatos na mão, sentindo o mármore frio contra os pés descalços. Cada sombra parecia um espectador. Cada batida de seu coração soava como um tambor anunciando seu pecado.
Ao chegar ao seu quarto, no sótão reformado da casa — o lugar mais longe possível do luxo dos pais — ela trancou a porta e desabou contra a madeira.
Ela correu para o banheiro e ligou o chuveiro no máximo. A água estava fervendo, mas Helena queria que estivesse mais quente. Ela esfregou a pele com a bucha até deixá-la em carne viva, tentando desesperadamente remover o cheiro dele, a sensação das mãos dele, a memória do prazer que, agora, parecia uma traição contra seus próprios princípios.
"Foi apenas uma noite", ela repetia para si mesma, enquanto a água levava o sangue e o suor para o ralo. "Ele não sabe quem eu sou. Eu não sei quem ele é. Isso nunca aconteceu. Eu vou enterrar essa noite e nunca mais falar nisso."
Mas, enquanto se encolhia no chão do box, abraçando os joelhos, Helena sabia que não seria tão fácil. Havia algo na intensidade daquele homem, na forma como ele a reivindicara, que sugeria que ele não era alguém que simplesmente desaparecia no éter. E havia o fato de que ela, pela primeira vez na vida, sentira-se completa nos braços de um monstro.
Ela saiu do banho e vestiu seu pijama mais fechado, escondendo-se sob as cobertas. O sol começava a despontar no horizonte, pintando o céu de um laranja cruel. Era um novo dia, mas para Helena, era o início de uma contagem regressiva que ela ainda não compreendia.
Ela tentou dormir, mas toda vez que fechava os olhos, via o abismo escuro dos olhos dele. Ouvia o som da voz dele dizendo que ela não pertencia àquele lugar.
— Por que eu não fugi? — ela perguntou ao teto escuro.
A resposta era a parte mais dolorosa: ela não fugira porque, por alguns minutos, o toque dele doera menos do que a indiferença de sua família. Ela trocara sua virtude por um pouco de atenção, e o preço daquela transação agora pesava como chumbo em seu estômago.
Helena Duarte adormeceu com o gosto amargo do arrependimento na boca, jurando que aquele homem seria apenas um fantasma em sua memória. Ela não fazia ideia de que o destino, com seu senso de humor distorcido, já estava movendo as peças para colocá-la exatamente no centro da vida daquele estranho novamente.
E o que ela sentia agora como um fim, era apenas o prefácio de uma história que a obrigaria a enfrentar cada um de seus medos.
Naquela manhã, Helena Duarte aprendeu que o silêncio após o erro é a conversa mais barulhenta que uma mulher pode ter com sua própria alma.







