Mundo de ficçãoIniciar sessãoO ar frio da noite atingiu o rosto de Helena como um tapa, mas nada doía mais do que as risadas que ainda ecoavam em seus ouvidos. No salão, ela era a "Duarte errada", a sombra sem brilho da irmã perfeita. Mas ali, no corredor mal iluminado que dava para os jardins de inverno da mansão, o tempo pareceu congelar sob o peso das mãos daquele desconhecido.
Ele a segurava pelos braços, impedindo que ela desabasse, e o calor que emanava de suas palmas atravessava o tecido fino de seu vestido barato, queimando sua pele. Helena ofegava, o peito subindo e descendo com força, os olhos embaçados pelas lágrimas que se recusavam a cair na frente dele.
— Olhe para mim — a voz dele comandou. Não era um pedido; era uma ordem absoluta, carregada de uma autoridade que Helena nunca tinha experimentado.
Lentamente, ela ergueu o rosto. A luz de uma arandela de bronze ao lado deles iluminava apenas metade do rosto do homem. Ele era esculpido em ângulos retos e sombras perigosas. Os olhos dele, escuros como uma noite sem estrelas, não a olhavam com a pena que ela recebia do pai, nem com o desprezo que recebia de Ricardo. Ele a olhava como se ela fosse algo... valioso. Algo que ele desejava possuir.
— Por que está fugindo? — ele perguntou, a voz baixando um tom, tornando-se mais rouca.
— Eu não pertenço a esse lugar — Helena sussurrou, a voz trêmula. — Eu sou invisível lá dentro.
O desconhecido soltou um de seus braços, mas apenas para levar a mão ao queixo dela, forçando-a a manter o contato visual. O polegar dele traçou o contorno do lábio inferior de Helena, um gesto tão íntimo que a fez estremecer violentamente.
— Invisível? — Ele soltou uma risada curta, sem humor, que vibrou no ar. — Aqueles idiotas estão cegos. Você é a única coisa que vale a pena olhar nesta casa, pequena.
Aquelas palavras foram o gatilho. Pela primeira vez na vida, Helena não se sentiu a sombra de Isabela. Pela primeira vez, ela não era a filha que decepcionava. Sob o olhar daquele homem, ela se sentia uma mulher. Uma mulher desejada. O poder que emanava dele era inebriante, um perfume de sândalo, couro e perigo que a envolvia, criando uma bolha onde o resto do mundo — e todas as humilhações de Ricardo — deixavam de existir.
Ela deveria se afastar. Deveria perguntar quem ele era. Mas o vazio em seu peito era tão vasto que ela só queria preenchê-lo, mesmo que fosse com fogo.
— Você não sabe quem eu sou — ela murmurou, quase um desafio.
— Eu sei exatamente o que você é — ele respondeu, aproximando o rosto do dela até que suas respirações se misturassem. — Você é a pessoa que vai entrar naquela biblioteca comigo agora, antes que eu perca o resto do meu autocontrole e te tome aqui mesmo, no meio do corredor.
Helena sentiu um choque elétrico percorrer sua espinha. A promessa de possessão naquelas palavras era assustadora e, ao mesmo tempo, a coisa mais viciante que já tinha ouvido. Sem dizer uma palavra, ela permitiu que ele a conduzisse para a biblioteca de portas pesadas de carvalho. Assim que entraram, o som do trinco sendo girado ecoou como o fechamento de um contrato.
Lá dentro, o aroma de livros antigos e uísque caro dominava o ambiente, mas Helena só conseguia focar na silhueta imponente à sua frente. Ele a prensou contra a porta fechada, as mãos encontrando sua cintura com uma urgência que a fez soltar um gemido baixo.
— Você tem certeza disso? — ele perguntou, o rosto a centímetros do dela. — Se continuarmos, não haverá volta. Eu não sou um homem que divide o que é meu.
Helena não queria volta. Ela queria o esquecimento. Queria que as mãos dele apagassem as marcas invisíveis de cada palavra cruel que já tinha ouvido. Ela envolveu o pescoço dele com os braços, puxando-o para baixo.
— Me faça esquecer — ela pediu, quase em um lamento. — Me faça sentir que eu existo.
O beijo dele foi uma devastação. Não houve delicadeza, apenas uma fome bruta que Helena correspondeu com a mesma intensidade. Ele a explorava com a língua e com as mãos, mapeando cada curva de seu corpo como se estivesse reivindicando um território que sempre lhe pertenceu. O vestido de Helena foi deslizado pelos seus ombros com uma facilidade que denunciava a força dele.
Quando ela sentiu a pele fria do homem contra a sua, um calor vulcânico explodiu em seu ventre. Ele a carregou até o divã de couro, deitando-a com uma possessividade que a fazia sentir-se o centro do universo. Naquela penumbra, ela não sabia o nome dele, não sabia de onde vinha, mas sabia que, pela primeira vez, alguém a tinha escolhido. Não como uma segunda opção, não como um prêmio de consolação, mas como o prêmio principal.
Cada toque dele era uma afirmação. Quando as mãos dele apertavam suas coxas, ele estava dizendo: Eu te vejo. Quando a boca dele encontrava a curva de seu pescoço, ele estava dizendo: Eu te quero. A química entre eles era algo além do físico; era um eclipse. A luz do sol da "família perfeita" de Helena estava sendo apagada pela escuridão poderosa daquele homem. Ela se entregou ao ritmo dele, aos sussurros roucos em seu ouvido que ela não conseguia decifrar, mas que faziam seu sangue ferver.
Naquele momento, Helena não era a irmã de Isabela. Ela não era a noiva humilhada por tabela. Ela era uma chama, e ele era o oxigênio que a fazia arder. O suor brilhava em seus corpos sob a luz fraca que vinha da fresta da porta. Helena enterrou as unhas nas costas largas dele, buscando âncora em meio à tempestade de sensações que a inundava.
— Você é minha — ele rosnou contra a pele dela, no auge do ato. — Lembre-se disso.
E ela acreditou. Naquela noite, envolta nos braços de um estranho cujo poder era palpável até no silêncio, Helena Duarte acreditou que tinha finalmente encontrado sua salvação. Ela não sabia que estava apenas trocando uma dor por uma complicação que mudaria seu destino para sempre.
Quando a exaustão finalmente a venceu, ela adormeceu sentindo o cheiro dele em seus cabelos, protegida pelo calor de um corpo que parecia uma muralha contra o resto do mundo.
Ela foi escolhida. Pela primeira vez, ela foi a primeira. Mesmo que fosse apenas por uma noite, Helena estava disposta a pagar qualquer preço por aquele sentimento de importância. O que ela não sabia era que o preço já estava sendo cobrado, silenciosamente, dentro de seu próprio ventre.
O desconhecido era um mistério, um perigo e um pecado. E ele seria o pai do seu filho.







