Mundo de ficçãoIniciar sessãoAs batidas na porta do sótão eram suaves, quase rítmicas, um contraste brutal com o caos que martelava dentro da cabeça de Helena. Ela se encolheu debaixo dos lençóis, sentindo cada músculo do corpo clamar pelo esquecimento do sono, mas o sol já invadia o quarto, denunciando que o mundo lá fora continuava a girar, indiferente à sua ruína.
— Helena, querida? Acorde, passarinho. Já passou da hora.
A voz de Marta era o único som naquela casa que não vinha carregado de espinhos. Helena forçou-se a sentar, ajeitando o pijama apressadamente para esconder qualquer marca que o estranho pudesse ter deixado em seu corpo.
Marta entrou no quarto equilibrando uma bandeja pequena. Ela não era apenas a babá que cuidara de Helena e Isabela; ela era a estrutura que impedia Helena de desmoronar há vinte e dois anos. Com seus cabelos grisalhos presos em um coque firme e um avental sempre impecável, Marta exalava um cheiro de lavanda e conforto.
— Trouxe um chá de camomila e umas torradas. Você não desceu para o desjejum e sua mãe... — Marta hesitou, a sombra de preocupação cruzando seus olhos cansados. — Dona Beatriz está de péssimo humor hoje.
Helena sentiu um aperto no estômago ao ouvir o nome da mulher que deveria chamá-la de filha, mas que mal a olhava nos olhos.
— Ela sempre está, Marta. Especialmente quando eu respiro o mesmo ar que ela — Helena murmurou, aceitando a xícara com as mãos ainda trêmulas.
Marta sentou-se na beira da cama e, com um gesto carregado de uma ternura que Otávio ou Beatriz jamais demonstrariam, afastou uma mecha de cabelo do rosto de Helena. O toque era tão gentil que Helena sentiu vontade de chorar novamente. Por que aquela mulher, que era apenas uma funcionária, a amava mais do que as pessoas do seu próprio sangue?
— Não diga isso. Você é uma menina preciosa, Helena. Um dia, você vai entender que o problema nunca foi você, mas sim as sombras que habitam o coração deles.
Helena olhou para Marta, buscando alguma resposta nas rugas ao redor de seus olhos. — Por que eles me odeiam tanto, Marta? O que eu fiz de tão errado para ser tratada como um erro? Isabela é a "Rosa de Ouro", e eu sou apenas... o espinho que eles tentam podar a todo custo. Papai nem sequer olha para mim sem sentir nojo.
Marta desviou o olhar por um breve segundo, e um silêncio pesado caiu sobre o quarto. Por um momento, Helena viu algo estranho no rosto da babá — uma dor antiga, um brilho de segredo que parecia queimar sob a superfície.
— O seu pai... o senhor Otávio Duarte é um homem de muitas falhas, minha querida. Ele olha para você e vê verdades que não tem coragem de enfrentar — Marta disse, a voz subitamente mais rouca. — Mas escute o que eu digo: você não deve nada a eles. Seu brilho não depende da aprovação de quem vive na escuridão.
Helena suspirou, bebendo o chá quente. Ela sentia que Marta sabia de algo. Havia algo na forma como a babá a protegia, como se Helena fosse feita de cristal, que não batia com a relação de uma simples funcionária. Mas Helena estava exausta demais para investigar mistérios familiares agora. O segredo que ela mesma carregava — o que aconteceu na biblioteca — pesava muito mais.
— Ricardo me humilhou ontem, Marta. Na frente de todos — Helena confessou, a voz sumindo.
Marta endureceu os ombros, e por um instante, a babá gentil deu lugar a uma mulher feroz. — Aquele rapaz não vale o chão que você pisa. Ele e Isabela se merecem. São duas almas vazias que se alimentam de aparências. Não deixe que as palavras de um Cavalcanti definam quem você é.
"Um Cavalcanti", Helena pensou. O nome agora tinha um peso novo. O homem da biblioteca... ele também seria um Cavalcanti? A ideia a fez estremecer.
— Você está pálida, meu passarinho. E está com febre? — Marta encostou a mão na testa de Helena, a expressão tornando-se alarmada. — Você está tremendo.
— É só o cansaço, eu juro — mentiu Helena, evitando o olhar perspicaz da mulher.
Marta suspirou, mas não insistiu. Ela sabia que Helena tinha o hábito de se fechar em seu próprio casulo quando a dor era demais. Ela se levantou e ajeitou os lençóis de Helena.
— Tente descansar mais um pouco. Vou dizer a eles que você está com uma enxaqueca forte e que não deve ser perturbada. Se precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, você me chama. Eu estarei aqui, Helena. Eu sempre estarei aqui por você.
Marta caminhou até a porta, mas parou antes de sair. Ela olhou para Helena com uma intensidade quase dolorosa, como se quisesse dizer algo que estava preso em sua garganta há duas décadas. Seus lábios tremeram, mas ela apenas deu um aceno triste e saiu, fechando a porta suavemente atrás de si.
Helena deitou-se novamente, sentindo o cheiro de lavanda que Marta deixara para trás. Naquele momento, ela se sentia a pessoa mais solitária do mundo, mas também a mais protegida. Ela não sabia que, em um futuro próximo, o amor de Marta seria a única coisa que a impediria de desistir quando o mundo descobrisse seu "pecado".
E ela também não sabia que a mulher que acabara de sair do quarto não era apenas sua babá, mas a guardiã de uma verdade que destruiria o império dos Duarte: a de que Helena não era uma sombra indesejada, mas o fruto de um amor proibido que Otávio Duarte tentava enterrar todos os dias sob camadas de ódio e luxo.
Por enquanto, Helena apenas fechou os olhos, rezando para que o enjoo que começava a subir por sua garganta fosse apenas efeito do estresse, e não o primeiro sinal de que sua vida nunca mais voltaria ao normal.







