Mundo de ficçãoIniciar sessão
O som do cristal tilintando contra o mármore era o único ruído que competia com as risadas abafadas no grande salão da mansão Duarte. Para qualquer espectador externo, aquela era a festa do ano: o noivado de Isabela Duarte, a "Rosa de Ouro" da cidade, com Ricardo Cavalcanti, herdeiro de um império logístico.
Para Helena, porém, aquele lugar era uma prisão decorada com flores caras e hipocrisia. Ela estava parada em um canto mal iluminado, segurando uma taça de champanhe que mal havia tocado. O vestido que usava era de uma coleção de dois anos antes, ajustado às pressas. Ao contrário de Isabela, que brilhava em um modelo exclusivo de seda branca, Helena parecia parte da mobília. Invisível. Como sempre fora. — Veja só se não é a nossa pequena sombra — uma voz carregada de escárnio ecoou perto dela. Helena retesou os ombros. Não precisava se virar para saber quem era. Ricardo Cavalcanti estava parado a poucos passos, com um sorriso de lado que nunca alcançava seus olhos frios. Ele era bonito de uma forma óbvia e agressiva, mas Helena sempre sentira um calafrio na espinha na presença dele. — Ricardo — murmurou ela, tentando manter a voz firme. — Achei que devesse estar ao lado da minha irmã. — Isabela está ocupada sendo adorada pelos convidados. E eu... bem, eu estava entediado. — Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Helena. O cheiro de uísque e arrogância emanava dele. — Sabe, Helena, eu sempre me perguntei o que se passa nessa sua cabeça. Você fica aí, com esse olhar de quem carrega o mundo nas costas. É inveja da sua irmã? — Eu não tenho inveja da Isabela — respondeu Helena, sentindo o rosto esquentar. — Não? — Ele soltou uma risada seca, atraindo a atenção de um pequeno grupo de convidados próximos. — Você é o oposto dela em tudo. Ela é o sol; você, a poeira. Ela é a mulher que qualquer homem mataria para ter. E você... você é aquela cujo nome a gente esquece cinco minutos depois de conhecer. O salão pareceu ficar subitamente silencioso. Helena sentiu as lágrimas pinicarem os olhos, mas se recusava a chorar na frente dele. Não ali. Não naquele dia. — Por que você está fazendo isso? — sussurrou ela. Ricardo inclinou-se na direção dela, a voz agora um veneno sussurrado. — Porque é divertido ver você tentar se integrar a um mundo ao qual não pertence. Você realmente achou que alguém como você poderia fazer parte deste círculo? Você é um erro genético na linhagem dos Duarte, Helena. — Ricardo, querido! — A voz melodiosa de Isabela interrompeu o momento. Ela se aproximou, deslizando como um cisne, e entrelaçou o braço ao de Ricardo. — O que você está dizendo para a minha irmãzinha? Ela parece que vai desmaiar. Ricardo lançou um último olhar para Helena. O desprezo era evidente em suas íris claras. — Apenas dando um choque de realidade, meu amor. Algumas pessoas precisam ser lembradas de seu lugar para não criarem esperanças inúteis. Isabela soltou uma risadinha, um som que costumava ser o conforto de Helena na infância, mas que agora soava como o bater de asas de um abutre. Não defendeu a irmã. Nunca defendia. — Ah, Helena é sensível demais. Vá buscar um pouco de água, querida. Você está pálida. Helena não esperou ouvir mais nada. Depositou a taça sobre uma mesa próxima com tanta força que o líquido espirrou sobre seus dedos. Em seguida, virou-se e caminhou — quase correu — em direção às portas francesas que levavam aos jardins internos. Precisava de ar. Precisava de silêncio. Precisava deixar de existir por alguns minutos. O ar da noite estava frio, contrastando com o calor sufocante do salão. Helena abraçou os próprios braços enquanto caminhava pelos caminhos de pedra da mansão, até que as luzes da festa se tornassem apenas um brilho distante. O jardim dos Duarte era vasto, repleto de labirintos de cercas vivas e estátuas de mármore que pareciam julgá-la por sua fuga. Ela chegou à parte mais antiga da propriedade, onde a manutenção era menos rigorosa e as árvores cresciam de forma mais selvagem. Ali, em um corredor de carvalhos centenários, Helena finalmente permitiu que a primeira lágrima caísse. O soluço que escapou de sua garganta foi doloroso. Não era apenas pelas palavras de Ricardo. Era pelo peso de vinte e dois anos sendo "a outra". A filha que não era bonita o suficiente, a estudante que não era brilhante o suficiente, a mulher que era apenas um borrão na fotografia perfeita da família. — Chega — sussurrou para o escuro. — Eu só quero sumir. Continuou caminhando, a visão embaçada pelas lágrimas. O terreno ali era irregular, com raízes que erguiam as pedras do caminho. Helena tropeçou quando o salto do sapato ficou preso em uma fresta. — Droga! — praguejou, tentando recuperar o equilíbrio. Mas o impulso a lançou para a frente. Ela esperou o impacto contra o chão duro. Esperou a dor de mais uma queda, desta vez física. Mas o impacto nunca veio. Em vez disso, colidiu contra algo sólido. Algo quente. Algo que cheirava a chuva, madeira e um perfume caro, amadeirado, que jamais sentira antes. Mãos grandes e firmes envolveram sua cintura, sustentando-a com uma força que era, ao mesmo tempo, possessiva e protetora. Helena ficou paralisada, o rosto pressionado contra o tecido fino de uma camisa social branca. Podia ouvir o batimento cardíaco dele — lento, ritmado, imperturbável. — Cuidado. A voz profunda ressoou na escuridão. Não era uma voz suave. Era baixa, vibrante, carregada de uma autoridade natural que fez os pelos dos braços de Helena se arrepiarem. Era a voz de um homem que não pedia permissão para nada. Ela ergueu a cabeça lentamente. Sob a luz pálida da lua que atravessava as folhas, finalmente o viu. Era alto. Muito mais alto do que ela. O maxilar quadrado estava coberto por uma barba curta e perfeitamente aparada. Os cabelos claros eram penteados para trás, embora alguns fios insistissem em cair sobre a testa. Mas eram os olhos que a prenderam. Azuis como o oceano e sombrios como um abismo, analisavam-na com uma intensidade capaz de atravessar sua pele e alcançar sua alma. — Me... me desculpe — gaguejou ela, tentando se afastar. As mãos dele não a soltaram imediatamente. Seus dedos apertaram-se levemente contra sua cintura, e o toque enviou uma onda de eletricidade por todo o corpo de Helena. Por um segundo eterno, ninguém mais existiu. Não havia Ricardo. Não havia Isabela. Não havia humilhação. Havia apenas aquele estranho e a pressão de suas mãos. — Você está tremendo — observou ele. Não era uma pergunta. Era uma constatação fria, embora houvesse uma nota de curiosidade em seu olhar. — Eu só... eu só precisava sair de lá — murmurou Helena, desviando os olhos. Sentia-se exposta sob aquele escrutínio. — Eu não vi você. — Poucas pessoas me veem quando eu não quero ser visto — respondeu ele, com um toque de ironia amarga. Finalmente, ele a soltou. Helena sentiu uma falta súbita e irracional daquele calor. Deu um passo para trás e ajeitou o vestido com mãos nervosas. — Você é um convidado? — perguntou, tentando recuperar a compostura. O homem esboçou um meio sorriso. Não era um gesto amigável. Era predatório. — Não gosto de festas. Especialmente de festas cheias de mentiras. Helena o encarou, surpresa. Era a primeira vez naquela noite que alguém dizia algo que soava verdadeiro. — Eu também não. Ele voltou a observá-la de cima a baixo. Diferentemente de Ricardo, o olhar daquele homem não a fazia sentir-se pequena ou feia. Fazia-a sentir-se desejada. Era um olhar pesado, carregado de uma tensão que ela jamais experimentara. — O que uma criatura como você está fazendo no meio daqueles tubarões lá dentro? — perguntou ele, avançando um passo. Helena sentiu as costas encontrarem o tronco de um carvalho. Estava encurralada entre a árvore e o homem misterioso. — Eu pertenço àquela família. Infelizmente. — Não. — A voz dele saiu baixa. — Você não pertence a eles. Seus olhos são honestos demais para aquele salão. Ele ergueu uma das mãos e seus dedos roçaram o rosto de Helena, apagando o rastro de uma lágrima que ela sequer percebera que ainda estava ali. O toque foi como fogo. Helena fechou os olhos e soltou um suspiro trêmulo. Sabia que deveria correr. Sabia que era perigoso permanecer ali, na escuridão, ao lado de um homem cujo nome desconhecia. Mas, pela primeira vez na vida, não queria ser a filha invisível nem a irmã esquecida. Queria apenas ser uma mulher. Queria ser vista. — Quem é você? — perguntou, quase sem voz. Ele inclinou-se até ela. Os lábios roçaram o lóbulo de sua orelha, fazendo-a estremecer. — Esta noite, sou apenas o homem que vai fazê-la esquecer por que estava chorando. Ele não esperou uma resposta. Tomou seus lábios em um beijo que foi tudo, menos gentil. Era um beijo faminto, urgente, carregado da promessa de uma destruição deliciosa. Helena se entregou. Passou os braços ao redor do pescoço dele, puxando-o para mais perto, desejando perder-se naquele estranho, naquela escuridão, naquela noite. Pela primeira vez em muito tempo, sentia que importava. E aquele foi o erro que mudaria sua vida para sempre.






