Mundo ficciónIniciar sesiónEles caminharam em silêncio por uns quarenta metros. A mão de Julian pairava próxima às costas de Clara, sem tocar nela. Era como se o corpo dele criasse um escudo invisível contra o mundo. Clara mantinha os olhos fixos no chão, ainda processando o que havia acontecido.
O café que Julian mencionara ficava na esquina da Augusta com a Oscar Freire, um lugar pequeno chamado “Cantinho do Grão”, com mesas de madeira na calçada protegidas por toldos verdes. O aroma de café torrado e pão de queijo invadiu as narinas de Clara assim que se aproximaram. Julian puxou uma cadeira para ela com naturalidade, um gesto simples que a desestabilizou. Gustavo nunca fazia isso. Gustavo ordenava onde ela devia sentar.
— Pode escolher o que quiser — disse Julian, sentando-se de frente para ela. — Eu pago e antes que você diga qualquer coisa, não é favor. É o mínimo depois do que aconteceu.
Clara assentiu, pedindo um cappuccino pequeno e um croissant. Julian optou por um espresso duplo e um pedaço de bolo de cenoura. Enquanto esperavam, ele a observava. Não de forma invasiva, mas atenta. Seus olhos castanhos com nuances de verde pareciam catalogar cada detalhe: as marcas vermelhas que ainda latejavam no braço dela, a forma como ela cruzava os dedos sobre o colo e o leve tremor nos ombros.
— Você está tremendo — comentou ele baixinho quando as bebidas chegaram.
Clara envolveu a xícara quente com as duas mãos, buscando conforto no calor.
— É sempre assim depois… Depois que ele explode. O corpo demora a entender que o perigo passou. Só que… o perigo nunca passa de verdade.
Julian bebeu um gole do espresso, o maxilar travando por um segundo. Ele tinha um rosto extremamente atraente de perto. Traços masculinos bem definidos, barba por fazer que sombreava o queixo, e uma boca que parecia feita para sorrir de forma debochada. No momento, porém, não havia sorriso. Havia preocupação genuína.
— Ele faz isso com frequência? — perguntou, mantendo a voz baixa para que apenas ela ouvisse.
Clara hesitou. Parte dela queria mentir, proteger a imagem que ainda tentava manter. A outra parte, aquela que havia sido vista por ele na rua sentiu um alívio estranho em falar a verdade.
— Quase todos os dias. Às vezes é só palavras. Outras… ele aperta. Empurra. Nunca me bateu com o punho ainda, mas eu sei que é questão de tempo. Ele diz que é culpa minha. Que eu provoco.
Julian ficou em silêncio por quase um minuto inteiro. Seus dedos tamborilavam levemente na mesa. Clara notou as veias marcadas no antebraço dele, os músculos definidos que a camiseta preta não conseguia esconder. Ele claramente passava muitas horas treinando.
— Qual é o nome completo dele? — perguntou finalmente.
— Gustavo Silva. Por quê?
— Só para eu saber com quem estou lidando caso ele apareça de novo. — Julian inclinou o corpo para frente, os cotovelos sobre a mesa. — Olha, Clara… eu não sou psicólogo, nem policial, nem herói de filme. Sou só um cara que treina esgrima, dá aula de atletismo e se fantasia de palhaço em festa de criança pra pagar as contas. Mas eu sei reconhecer quando alguém está sendo destruído aos poucos. E você… você está sendo destruída.
As palavras dele bateram fundo. Clara sentiu os olhos marejarem outra vez. Ela olhou para o croissant intocado.
— Eu já fui diferente, sabia? — confessou, a voz quase um sussurro. — Eu ria. Dançava. Tinha planos de abrir uma pequena livraria. Hoje eu mal consigo olhar no espelho sem sentir nojo de mim mesma por não ter coragem de ir embora.
Julian esticou o braço por cima da mesa e, com extrema delicadeza, tocou as costas da mão dela. O contato foi breve e quente. Clara sentiu um arrepio subir pelo braço e se instalar em algum lugar baixo em sua barriga. Fazia tanto tempo que um toque não lhe causava outra coisa senão medo.
— Você não tem nojo de si mesma — disse ele com a voz grave e sinceridade. — Você tem medo. São coisas diferentes. E medo a gente pode trabalhar. Medo a gente pode vencer.
Clara ergueu os olhos e encontrou os dele. O ar pareceu ficar mais denso. Havia algo no jeito como Julian a olhava, uma mistura de proteção feroz e uma atração que ele não se esforçava muito para esconder. Os olhos dele desceram por um segundo até os lábios dela, depois voltaram. Foi rápido, mas o suficiente para Clara sentir o coração acelerar.
Eles ficaram quase duas horas no café. Julian contou um pouco sobre si. Disse que tinha trinta anos, que competia em esgrima a nível nacional e que, nos fins de semana, virava “JuJu, o Palhaço Atleta” em festas infantis. Fez uma imitação rápida de uma das suas piadas infantis ali mesmo na mesa, usando guardanapos como adereços. Clara riu. Um riso pequeno, enferrujado, mas verdadeiro. O som surpreendeu até a ela mesma. Quando o sol começou a baixar, Julian insistiu em chamar um Uber para ela.
— Eu não vou te deixar voltar sozinha. Nem que eu tenha que te acompanhar até a porta. Mas acho que você precisa de espaço agora.
Clara aceitou o carro, mas pediu que ele a deixasse a duas quadras de casa. Gustavo não podia ver. Ainda não. Antes de ela entrar no veículo, Julian segurou a porta aberta e falou baixo:
— Amanhã tem um parque perto daqui. Ibirapuera. Eu treino lá quase todas as tardes, depois das quatro. Se você sentir que precisa de ar, de alguém para conversar… ou só para ficar em silêncio… eu vou estar lá, sem pressão, só um cara suado treinando esgrima.
Clara assentiu, sem prometer nada. Quando o carro arrancou, ela olhou pelo retrovisor. Julian estava parado na calçada, mãos nos bolsos, observando-a ir embora com uma expressão que misturava preocupação e algo mais quente.
A noite em casa foi um inferno.
Gustavo a esperava com os olhos injetados. O hematoma no maxilar já começava a ganhar tons roxos. Ele não bateu nela ainda, mas as palavras foram como navalhadas. Acusou-a de ter “dado em cima” do estranho. Disse que tinha visto os dois no café. Ameaçou que, se ela voltasse a falar com “aquele filho da puta”, ele iria descobrir onde Julian morava e “resolver o problema de vez”.
Clara dormiu pouco. E quando dormiu, sonhou com mãos grandes e gentis em sua pele. Mãos que não pertenciam a Gustavo.
No dia seguinte, às três e meia da tarde, ela não aguentou mais, Gustavo havia saído para o trabalho, mas as câmeras que ele instalara na sala e na cozinha pareciam vigiá-la o tempo todo. Clara vestiu uma blusa de manga longa para esconder as marcas no braço, pegou a bolsa e saiu dizendo que ia ao supermercado. Em vez disso, pegou o metrô até o Parque Ibirapuera.
O parque estava bonito, o sol filtrava entre as árvores, crianças corriam e os casais caminhavam de mãos dadas. Clara sentiu inveja daquela normalidade. Ela escolheu um caminho mais afastado, perto do lago, onde o barulho da cidade diminuía. Foi então que ela o viu.
Julian.







