Capítulo 4

Ele estava sem camisa e em uma clareira gramada um pouco afastada do caminho principal, ele treinava esgrima sozinho. Segurava um florete na mão direita, o corpo movendo-se com precisão letal e graça atlética. Cada investida fazia os músculos das costas se contraírem, revelando um relevo impressionante. Os ombros largos brilhavam de suor. O abdômen era marcado em gomos definidos, estreitando-se até um V profundo que desaparecia abaixo da cintura da calça de moletom cinza, que estava perigosamente baixa.

Clara parou atrás de uma árvore, incapaz de desviar o olhar, o corpo dele era uma obra de arte em movimento. Cada lunge, cada parada, cada giro fazia os músculos dos braços e peitorais flexionarem. O suor escorria pelo centro do peito, descia pelo abdômen e era absorvido pela barra da calça. Ele respirava controlado, mas pesado. O som grave da respiração chegava até ela.

Algo adormecido há anos despertou no corpo de Clara. Um calor lento, pulsante, que se concentrou entre suas pernas. Ela apertou as coxas uma contra a outra, envergonhada. Não conseguia parar de imaginar como seria passar as mãos por aquele peito, sentir o calor da pele, o contraste entre a força daqueles músculos e a gentileza que ele demonstrara no dia anterior.

Julian parou de repente, como se sentisse que estava sendo observado. Virou o rosto na direção dela. Quando a reconheceu, um sorriso lento e safado abriu-se em seu rosto. Ele baixou o florete e caminhou até ela, ainda sem camisa, o peito subindo e descendo.

— Olha só… a garota dos olhos tristes voltou.

A voz dele estava rouca do esforço físico. Clara sentiu a garganta seca.

— Eu… não sabia se vinha. Mas precisava de ar.

Julian parou a dois metros dela. Perto o suficiente para que ela sentisse o cheiro dele: suor limpo, madeira, e algo masculino que fazia sua cabeça rodar. Os olhos dele percorreram o corpo dela rapidamente, demorando um segundo a mais na blusa de manga longa, antes de voltar ao rosto.

— Você está usando manga comprida num dia quente desses. Ele te machucou mais depois que eu saí?

Clara desviou o olhar. Julian suspirou, passou a mão pelo cabelo úmido e apontou para um banco próximo.

— Senta aí. Eu só vou pegar uma camiseta na mochila.

— Não precisa — escapou da boca dela antes que pudesse segurar.

O silêncio que se seguiu foi denso, mas não foi incomodo. Julian ergueu uma sobrancelha, o sorriso voltando, agora mais perigoso.

— Ah, é? Prefere me ver assim?

Clara corou violentamente. Julian riu baixinho, um som grave e delicioso que reverberou no peito dela.

— Relaxa. Estou te zoando. Um pouco. — Ele pegou a camiseta, mas não vestiu imediatamente. Sentou-se no banco ao lado dela, perto o suficiente para que os joelhos quase se tocassem. — Mas sério… você veio até aqui. Isso significa que confia um pouco em mim ou que a situação em casa está piorando.

Clara contou, em voz baixa, o que havia acontecido na noite anterior. As ameaças. As acusações. O hematoma no rosto dele. Julian ouvia em silêncio, o maxilar trincado de raiva. Quando ela terminou, ele passou a mão no próprio rosto.

— Mulher com olhar triste é meu ponto fraco, Clara. Sempre foi. Mas você… você está me fazendo querer quebrar minhas próprias regras.

— Que regras?

Ele virou o corpo para ela, o peito ainda nu brilhando ao sol. Clara tentou não olhar. Falhou miseravelmente. Os mamilos dele estavam escuros e contraídos pelo ar frio, o suor traçava caminhos que ela queria seguir com a língua.

— Eu não me envolvo — disse ele, sincero. — Sou o cara que faz piada, que transa sem compromisso, que vai embora antes do café da manhã. Mas quando te vi ontem… quando vi o medo nos seus olhos… algo mudou. Eu não consigo parar de pensar em você. E isso é novo pra mim.

Clara sentiu o ar faltar. O desejo que havia nascido no café agora estava ali, vivo, latejando entre eles. Ela olhou para a boca dele. Julian percebeu.

— Você também sente, não sente? — murmurou ele, a voz mais baixa. — Essa coisa no ar quando a gente se olha.

— Eu sou casada, Julian.

— Você é prisioneira. É diferente.

Ele não se aproximou para beijá-la. Apenas esticou a mão e, com o polegar, afastou uma mecha de cabelo que havia caído no rosto dela. O toque foi leve, mas Clara sentiu como se tivesse levado um choque de 220 volts direto no clitóris. Sua respiração acelerou.

Por quase uma hora eles conversaram. Julian contou histórias engraçadas de suas apresentações como palhaço. Fez imitações. Conseguiu arrancar risadas verdadeiras dela. Mas entre as risadas, os olhares demoravam. Os silêncios eram cheios de coisas não ditas. Ele vestiu a camiseta eventualmente, mas o tecido colou no corpo suado, marcando cada músculo. Quando o sol começou a descer, Julian a acompanhou até a saída do parque.

— Amanhã eu treino no mesmo horário — disse ele, parando perto demais. — Se quiser vir… eu vou estar aqui. Sem camisa, se você preferir.

Clara riu, enrubecendo outra vez. Julian sorriu, aquela covinha aparecendo na bochecha.

Antes de se despedir, ele segurou a mão dela por um segundo a mais do que o necessário.

— Cuida de si mesma, Clara e se ele te ameaçar de novo… me liga. Eu vou buscar você. Não importa a hora.

Ela voltou para casa com o corpo em chamas e a mente em guerra e Gustavo estava a esperando. O hematoma no rosto dele parecia ainda mais feio. Ele a interrogou sobre onde ela havia estado. Clara mentiu dizendo que tinha ido ao supermercado. Ele não acreditou completamente, mas por enquanto não tinha provas.

Naquela noite, deitada ao lado do homem que ela mais temia no mundo, Clara fechou os olhos e lembrou do corpo suado de Julian se movendo com o florete. Lembrou do V profundo que desaparecia na calça. Lembrou do cheiro dele. Da voz grave dizendo que mulher com olhar triste era o ponto fraco dele.

Pela primeira vez em anos, quando tocou a si mesma silenciosamente no escuro, não foi pensando em Gustavo. Foi pensando em Julian e quando o orgasmo veio, pequeno e abafado contra o travesseiro, o nome que quase escapou de seus lábios foi o dele.

Julian estava deitado na cama do seu apartamento no Vila Madalena, sem conseguir dormir. A imagem de Clara olhando para seu corpo no parque não saía de sua cabeça. Ele estava duro só de lembrar.

— Porra… — murmurou, passando a mão pelo rosto.

Ele sabia que estava se metendo em algo grande. Sabia que Gustavo não era um ex qualquer. Sabia que Clara carregava cicatrizes profundas, mas mesmo assim, quando fechou os olhos, só conseguia ver aqueles olhos castanhos com toques de mel olhando para ele como se ele fosse a primeira coisa boa que aparecera a vida dela em muito tempo e isso, para Julian Almeida, o homem que nunca se envolvia, era mais perigoso que qualquer duelo de esgrima que já havia disputado.

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