Mundo de ficçãoIniciar sessãoGustavo olhou para Clara, que estava paralisada, os olhos arregalados, a mão tremendo onde ele havia apertado. Por um segundo, pareceu que ele iria avançar novamente. Mas o círculo de curiosos crescia, celulares começavam a ser apontados. Ele cuspiu sangue no chão, lançou um último olhar venenoso para Julian e rosnou:
— Isso não termina aqui. Eu vou te destruir. E depois vou atrás dela. Ela é minha.
Virou-se e saiu andando rápido, empurrando quem estava no caminho, ainda segurando o rosto latejante. Julian respirou fundo, sentindo a adrenalina correr em suas veias. Só então virou-se completamente para Clara.
Ela estava tremendo. O braço onde Gustavo havia apertado já começava a mostrar marcas vermelhas que virariam hematomas roxos. Seus olhos, grandes e castanhos com toques de mel, estavam cheios de lágrimas não derramadas e algo mais: incredulidade absoluta.
Julian suavizou o olhar imediatamente. A ferocidade de segundos atrás deu lugar a gentileza. Ele estendeu a mão devagar, palma para cima.
— Ei… — a voz dele agora era baixa, quente, completamente diferente do tom que usara com Gustavo. — Você está segura. Ele foi embora.
Clara olhou para a mão estendida. Era grande, com veias marcadas e dedos longos. A mão de alguém que trabalhava o corpo com disciplina. Ela hesitou por longos segundos antes de colocar os dedos trêmulos sobre os dele.
O toque foi como eletricidade.
Julian sentiu também. Um calor súbito subiu pelo braço dele, algo primitivo e inesperado. Os olhos dela eram lindos. Assustados, sim. Mas havia profundidade ali. Inteligência e uma dor que o apertou por dentro de um jeito que ele não esperava.
— Meu nome é Julian — disse ele, mantendo a voz suave. — Julian Almeida.
— Clara… — a voz dela saiu rouca. — Clara Mendes.
Ele não soltou a mão dela imediatamente. Em vez disso, usou o polegar para acariciar de leve as costas da mão dela, um gesto instintivo de conforto.
— Clara… você está machucada? Ele te bateu em algum outro lugar?
Ela negou com a cabeça, mas os olhos traíram a mentira. Julian percebeu. Ele percebeu tudo: a forma como ela se encolhia, o jeito como olhava para os lados como se esperasse Gustavo voltar a qualquer momento, as marcas no braço.
— Você não precisa ter medo de mim — murmurou ele, dando um passo mais perto, mas ainda respeitando o espaço dela. — Eu não sou como ele.
Clara soltou uma risada fraca, sem humor.
— Ninguém nunca interfere… ninguém nunca… — a voz falhou. Ela engoliu em seco. — Por que você fez isso?
Julian pensou por um momento. O vento bagunçou ainda mais seu cabelo. Ele era absurdamente atraente de perto. Traços angulosos, barba por fazer de dois dias, boca bem desenhada que parecia feita para sorrir e para outras coisas que Clara nem permitia que sua mente imaginasse.
— Porque eu não consigo ficar parado vendo um homem tratar uma mulher como se ela fosse propriedade dele — respondeu com sinceridade. — Principalmente quando a mulher parece estar pedindo socorro sem conseguir falar.
Clara sentiu as lágrimas finalmente descerem. Ela as limpou com raiva, envergonhada.
— Eu… eu não sei o que fazer agora. Ele vai voltar. Ele sempre volta. E fica pior.
Julian olhou ao redor. As pessoas já começavam a dispersar. Ele não queria que ela ficasse exposta ali.
— Você mora perto? Quer que eu te acompanhe até algum lugar seguro? Uma delegacia, casa de alguma amiga, sei lá… Eu não vou te deixar sozinha agora.
Ela hesitou. Parte dela, a parte destruída por dois anos de abuso, gritava para correr, para não confiar em nenhum homem. Outra parte, uma parte que ela pensava ter morrido há muito tempo, olhou para Julian e sentiu algo perigoso.
Porque Julian era lindo de um jeito quase injusto. Alto, atlético, com braços que pareciam capazes de proteger e destruir ao mesmo tempo. A camiseta preta colava no peito definido, revelando ombros largos e bíceps marcados. O cheiro dele, suor limpo de quem tinha acabado de treinar, misturado com algo amadeirado, chegava até ela e fazia seu corpo traidor reagir de formas que a envergonhavam.
— Eu… não tenho para onde ir agora — confessou ela, a voz quase um sussurro. — Minha amiga mora longe e Gustavo conhece todos os meus contatos. Ele… ele controla tudo.
Julian apertou levemente a mão dela, ainda segurando-a.
— Então vem comigo. Tem um café ali na esquina que eu conheço. Você bebe alguma coisa, respira, e a gente pensa no que fazer. Sem pressão. Se você quiser que eu vá embora depois, eu vou, mas agora… você não precisa ficar sozinha com isso.
Clara olhou para ele e pela primeira vez em muito tempo, alguém não a olhava como uma posse. Julian a olhava como uma mulher. Uma mulher que estava sofrendo, sim. Mas também como alguém que despertava nele curiosidade, proteção… e uma atração que ele não estava conseguindo disfarçar muito bem.
Os olhos dele desceram por um breve segundo até a boca dela antes de voltar ao olhar. Foi rápido. Quase imperceptível. Mas Clara sentiu e seu corpo também sentiu.
Um calor baixo, traiçoeiro, se acendeu em sua barriga. Fazia tanto tempo que ela não sentia desejo que quase não reconheceu o que era.
— Tudo bem — sussurrou ela finalmente. — Só… um café.
Julian sorriu. Foi um sorrihso pequeno, cuidadoso, mas genuíno. O tipo de sorriso que transformava todo o rosto dele e fazia aparecer uma covinha na bochecha esquerda.
— Só um café — repetiu ele, como se selasse uma promessa. — E eu prometo que, enquanto eu estiver por perto, aquele desgraçado não vai encostar um dedo em você de novo.
Ele soltou a mão dela devagar, mas colocou a palma nas costas dela com leveza, guiando-a pela rua sem pressionar. O toque era protetor. Enquanto caminhavam, Clara sentia o coração bater descompassado. Medo do que Gustavo faria depois. Vergonha por ter sido vista assim. E algo novo, pulsante, vivo:
A sensação de que, pela primeira vez em anos, alguém havia realmente visto ela e que esse alguém, com seu corpo de atleta, voz grave e olhar que parecia capaz de incendiar o mundo, havia acabado de mudar o curso de sua vida de forma irreversível.







