Mundo de ficçãoIniciar sessãoValentina acordou com o coração ainda acelerado. O quarto luxuoso parecia sufocante, mesmo com o ar-condicionado ligado. Ela havia passado a noite revirando na cama king size, revivendo cada segundo daquele jantar no terraço. O olhar de Luis Fernando. A voz rouca. A forma como o ar entre eles parecia prestes a explodir.
— Isso é loucura — murmurou ela para o espelho enquanto prendia os cabelos castanhos ondulados em um coque profissional. — Ele é um monstro arrogante. Nada mais. Vestiu uma blusa branca simples e uma saia lápis preta que havia levado — a única roupa mais formal que possuía. Olhou-se uma última vez e respirou fundo. Precisava ser forte. Por sua mãe. Por seu irmão. Por si mesma. Quando saiu do quarto adjacente, Luis Fernando já estava na sala de estar da suíte presidencial, impecável em um terno azul-marinho. O cabelo negro ainda úmido do banho. Ele ergueu os olhos do jornal e a analisou de cima a baixo, demorando-se um segundo a mais nas curvas que a saia marcava. — Bom dia, senhorita Morales. Dormiu bem? — perguntou, com um tom que sugeria que ele sabia que não. — Muito bem, senhor — mentiu ela, mantendo a voz neutra. — Ótimo. Temos duas reuniões importantes hoje. Quero que você anote tudo e prepare um resumo completo até o final da tarde. E não cometa erros. Os investidores de Guadalajara são implacáveis. O dia começou intenso. A primeira reunião foi em um restaurante sofisticado no centro da cidade. Valentina sentou-se discretamente ao lado de Luis Fernando, tablet na mão, registrando cada detalhe. Ele era brilhante. Dominava a conversa com autoridade natural, números precisos, estratégia afiada. Os investidores o respeitavam, quase temiam. Em determinado momento, um dos homens mais velhos dirigiu-se diretamente a ela: — E você, jovem? Qual sua opinião sobre a campanha de marketing que propusemos? Valentina congelou por meio segundo. Luis Fernando a olhou de lado, esperando. Ela engoliu em seco e respondeu com voz firme, apesar do nervosismo: — Acho que a proposta é sólida, mas falta emoção. O público mexicano responde melhor quando a marca conta uma história pessoal, não apenas números. Poderíamos humanizar a campanha com depoimentos reais de famílias. O silêncio durou alguns segundos. Luis Fernando ergueu uma sobrancelha, surpreso. O investidor sorriu. — Interessante. Bracho, sua assistente tem ideias boas. Luis Fernando não comentou na frente dos outros, mas Valentina sentiu o peso do olhar dele pelo resto da reunião. Quando voltaram para o carro, ele finalmente falou: — Humanizar a campanha... — repetiu ele, quase debochando. — Desde quando estagiárias de Marketing viram especialistas em estratégia? — Foi só uma opinião, senhor — respondeu ela, olhando pela janela. — Uma opinião perigosa. Você fala como se entendesse do meu negócio. A tensão no carro era palpável. O motorista fingia não ouvir. Valentina sentiu a raiva borbulhar. — Talvez o senhor devesse ouvir mais as opiniões das pessoas que estão na base. Nem tudo se resolve com arrogância e dinheiro. Luis Fernando virou-se para ela bruscamente. Seus olhos verdes queimavam. — Cuidado com a boca, Valentina. Você está pisando em terreno perigoso. O resto do trajeto foi em silêncio absoluto. À tarde, durante a segunda reunião em um escritório moderno, Valentina cometeu um erro pequeno: entregou o relatório errado para um dos participantes. Foi só uma pasta trocada, mas Luis Fernando a fuzilou com o olhar na frente de todos. Quando saíram, ele a puxou pelo braço para um canto isolado do corredor. Seus dedos apertavam com força, mas não chegavam a machucar. — O que foi isso? — rosnou ele baixo, perto demais do rosto dela. — Eu te trouxe para ajudar, não para me envergonhar. — Foi um erro! — defendeu-se ela, tentando se soltar. — Eu estou exausta, senhor. Trabalhando como uma louca desde que cheguei. Os dois estavam próximos demais. O peito dele subia e descia. Valentina sentia o perfume dele invadindo suas narinas, o calor do corpo dele. O olhar de Luis Fernando desceu para os lábios dela. Por um segundo, o tempo parou. Ele a soltou como se tivesse se queimado. — Volte para o hotel. Termine o resumo. Eu tenho um jantar de negócios sozinho. Valentina obedeceu, mas a raiva e algo mais quente ferviam dentro dela. No hotel, ela trabalhou furiosamente no resumo, melhorando cada detalhe, adicionando até sugestões que ele não havia pedido. Quando terminou, já era noite. Luis Fernando voltou por volta das dez. Ela ouviu a porta da suíte abrir e foi entregar o relatório. Ele estava sem o paletó, com a camisa parcialmente aberta, um copo de uísque na mão. Parecia cansado, mas ainda perigoso. — Aqui está, senhor. Revisei duas vezes. Ele pegou o documento e folheou rapidamente. Para surpresa dela, assentiu. — Aceitável. Melhor do que eu esperava. Valentina deveria ter se calado. Mas não aguentou. — Aceitável? Depois de tudo que passei hoje, é só aceitável? Luis Fernando colocou o copo na mesa e se aproximou. Devagar. Como um predador. — O que você quer de mim, Valentina? Um elogio? Um tapinha nas costas? — A voz dele estava baixa, rouca. — Você me intriga. Me irrita. E me faz querer... Ele parou a poucos centímetros dela. O ar entre eles crepitava. Valentina sentia o coração martelando no peito. Os olhos dele estavam fixos nos dela, descendo ocasionalmente para a boca. — Me faz querer o quê? — sussurrou ela, sem conseguir se controlar. Luis Fernando ergueu a mão e, por um instante, pareceu que tocaria seu rosto. Mas parou no meio do caminho e fechou o punho. — Me faz querer te colocar no seu lugar — completou ele, a voz carregada de algo sombrio. Valentina deu um passo para trás, colidindo com a parede. Ele avançou, colocando uma mão ao lado da cabeça dela, prendendo-a. Não a tocava, mas a presença dele era sufocante. — Você me odeia, não é? — perguntou ele, quase sorrindo. — Com todas as minhas forças — respondeu ela, ofegante. — Ótimo. Porque eu também odeio o que você desperta em mim. O silêncio foi quebrado apenas pela respiração acelerada dos dois. Os rostos estavam tão próximos que Valentina sentia o calor do hálito dele. Por um segundo, pareceu que ele ia beijá-la. Os olhos dele escureceram de desejo. Então, de repente, Luis Fernando se afastou, virando de costas. — Saia. Agora. Valentina saiu quase correndo para o quarto adjacente, trancando a porta. Encostou-se na madeira, deslizando até o chão. Suas pernas tremiam. O corpo inteiro queimava. Ela o odiava. Mas, pela primeira vez, admitiu para si mesma que também o desejava. E esse desejo era tão perigoso quanto o homem que o provocava. Do outro lado da parede, Luis Fernando serviu-se de outro uísque, bebendo de uma só vez. Olhou para a porta que separava os quartos e apertou o copo com força. — Maldita seja, Valentina Morales — murmurou para si mesmo. — Você vai me destruir.






