4: Viagem Forçada

Valentina saiu do prédio da Grupo Bracho com os ombros pesados e a mente em turbulência. O ar da noite no Paseo de la Reforma estava fresco, mas não conseguia aliviar o calor que ainda queimava em seu peito. Três dias em Guadalajara. Com ele. Sozinha.

Ela pegou o ônibus lotado de volta para Coyoacán, apertada entre corpos cansados, e tentou organizar os pensamentos. Como explicaria para a mãe que passaria três dias fora? Como deixaria Carlos Daniel responsável por tudo?

Quando chegou em casa, o apartamento pequeno cheirava a remédio e arroz recém-cozido. Elena Morales estava sentada no sofá, coberta por um xale velho, assistindo a uma novela com o volume baixo.

— Filha, você chegou tarde hoje... — disse a mãe, com a voz fraca, mas cheia de carinho.

Valentina se ajoelhou ao lado dela e segurou suas mãos.

— Mãe, eu preciso viajar amanhã cedo. Trabalho. Três dias em Guadalajara. Mas eu vou deixar dinheiro para as compras e os remédios. O Carlos prometeu ajudar.

Elena franziu a testa, preocupada.

— Esse chefe novo... ele está te tratando bem? Você parece exausta.

Valentina forçou um sorriso.

— Está tudo bem, mãe. É uma oportunidade. Vou ganhar mais e poder pagar as próximas sessões de quimioterapia.

Carlos Daniel apareceu na porta do quarto, com o celular na mão.

— Se esse tal de Bracho te incomodar, me avisa que eu vou lá dar um jeito nele.

Valentina riu apesar de tudo. Seu irmão era magro, ainda crescendo, mas tinha o espírito protetor de um leão.

— Eu dou conta, Charlie. Prometo.

Ela mal dormiu aquela noite. Entre arrumar uma pequena mala com as poucas roupas decentes que tinha e repassar mentalmente todas as tarefas que Luis Fernando poderia lhe jogar, o sono veio em fragmentos cheios de olhos verdes e vozes cortantes.

Às cinco e quarenta da manhã, um carro preto luxuoso parou em frente ao seu prédio. O motorista — um homem sério de meia-idade — pegou sua mala simples e a colocou no porta-malas. Valentina entrou no banco de trás, sentindo o couro macio contrastar violentamente com sua realidade.

Quando o carro parou no aeroporto particular, Luis Fernando já estava lá. Vestia um terno cinza escuro que parecia ter sido feito sob medida para seu corpo. Sem gravata, os primeiros botões da camisa abertos, revelando um pedaço da pele bronzeada. Ele parecia ainda mais intimidante sob a luz da manhã.

— Bom dia, senhorita Morales — disse ele, sem sorrir. — Pontual. Pelo menos nisso você acerta.

— Bom dia, senhor Bracho.

Ele não respondeu. Apenas fez um gesto para que ela o seguisse até o jato particular. Valentina nunca tinha entrado em um avião tão luxuoso. Couro bege, madeira polida, poltronas espaçosas. Parecia um sonho... ou um pesadelo, dependendo do ponto de vista.

Durante a decolagem, Luis Fernando mergulhou em seu laptop. Valentina tentou fazer o mesmo com os documentos que ele lhe entregara, mas sua atenção escapava o tempo todo. Ela o observava disfarçadamente: o maxilar tenso, a forma como ele franzia a testa ao ler, o movimento dos dedos longos no teclado.

Em determinado momento, ele ergueu os olhos e a pegou no flagra.

— Algum problema, senhorita Morales?

— Nenhum, senhor. Só... revisando os relatórios.

Luis Fernando fechou o laptop e se recostou na poltrona, cruzando os braços. O olhar dele era direto, quase invasivo.

— Diga-me uma coisa. Por que uma garota como você aceita trabalhar para alguém que claramente despreza?

Valentina piscou, surpresa com a pergunta direta.

— Porque eu preciso do emprego. Minha mãe está doente. Muito doente. E meu irmão ainda estuda. Não tenho o luxo de escolher chefes simpáticos.

Algo mudou no rosto dele por uma fração de segundo. Quase como... reconhecimento. Mas desapareceu tão rápido quanto veio.

— Então você é do tipo que se sacrifica. Que comove os outros com histórias tristes. — A voz dele era baixa, quase suave, mas as palavras cortavam. — Cuidado, Valentina. No meu mundo, fraqueza é devorada.

Ela sentiu a raiva subir.

— Eu não sou fraca, senhor Bracho. Sou sobrevivente. E o senhor pode me humilhar o quanto quiser, mas não vai me quebrar.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Luis Fernando a encarou por longos segundos, como se a visse pela primeira vez de verdade. Seus olhos desceram lentamente pelo rosto dela, parando nos lábios entreabertos, depois voltaram para os olhos. O ar dentro da cabine pareceu rarefeito.

— Veremos — murmurou ele, antes de voltar para o laptop.

O resto do voo transcorreu em tensão silenciosa. Quando pousaram em Guadalajara, um carro os esperava para levá-los ao hotel cinco estrelas no centro da cidade. Luis Fernando reservara a suíte presidencial e, para surpresa dela, uma quarto adjacente para Valentina.

— Fique perto — ordenou ele enquanto subiam no elevador privativo. — Posso precisar de você a qualquer momento.

O quarto dela era luxuoso demais para suas expectativas. Cama king size, banheiro de mármore, vista para a cidade. Mas Valentina não teve tempo de apreciar. Luis Fernando a chamou dez minutos depois para uma reunião com investidores locais.

O dia foi exaustivo. Reuniões seguidas, almoço de negócios onde ela precisava anotar tudo, telefonemas, e-mails. Luis Fernando era implacável no trabalho: exigente, brilhante e sem paciência para erros. Mas Valentina notou algo: quando falava com os investidores, ele era respeitado, quase temido. Sua inteligência era afiada como uma lâmina.

À noite, após o último compromisso, ele a chamou para o terraço privativo da suíte presidencial. A vista da cidade iluminada era deslumbrante. Uma mesa estava posta com jantar para dois.

— Sente-se — ordenou ele.

Valentina hesitou.

— Senhor, eu posso comer no meu quarto...

— Sente-se — repetiu ele, mais firme.

Ela obedeceu. O jantar foi estranho. Luis Fernando comia em silêncio, mas de vez em quando fazia perguntas. Sobre a faculdade dela. Sobre seus planos. Sobre o que ela realmente queria da vida. Cada resposta parecia ser analisada por ele como se fosse um balanço financeiro.

Em determinado momento, ele serviu vinho para ela.

— Eu não bebo muito... — murmurou Valentina.

— Hoje você bebe.

Ela tomou um gole pequeno. O vinho era caro, encorpado, delicioso. O calor se espalhou pelo seu corpo.

— Por que me trouxe, senhor Bracho? Qualquer outra assistente faria isso melhor.

Luis Fernando girou a taça na mão, observando o líquido vermelho.

— Porque você me intriga, Valentina Morales. Você derrama café em mim, me desafia, e ainda assim continua aqui. A maioria das pessoas já teria corrido.

Ele se inclinou para frente. A luz suave do terraço iluminava seu rosto, tornando-o ainda mais bonito e perigoso.

— Mas cuidado. Eu destruo tudo que me intriga.

Valentina sentiu o coração disparar. A proximidade dele, o cheiro dele, a intensidade daquele olhar... era demais.

Ela se levantou abruptamente.

— Se não precisa de mais nada, vou me recolher.

Luis Fernando também se levantou. Por um segundo, os dois ficaram frente a frente, quase se tocando. O ar crepitava.

— Durma bem, senhorita Morales — disse ele, a voz rouca. — Amanhã o dia será ainda mais longo.

Valentina fugiu para o quarto adjacente e trancou a porta. Encostou-se na madeira, respirando com dificuldade.

Ela o odiava.

Mas, pela primeira vez, teve medo de si mesma. Porque, por um breve instante, no meio de toda aquela raiva, ela sentiu algo perigoso.

Desejo.

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