Mundo de ficçãoIniciar sessãoValentina passou a noite inteira em claro. Cada vez que fechava os olhos, via o rosto de Luis Fernando a centímetros do seu, o olhar escurecido de desejo e raiva. A parede que separava os quartos parecia fina demais. Ela quase conseguia sentir a presença dele do outro lado, como uma força magnética que a puxava e a repelia ao mesmo tempo.
— Eu não posso sentir isso — sussurrou para si mesma, encarando o teto. — Ele é tudo que eu desprezo. Arrogante. Cruel. Rico demais para entender meu mundo. Mas o corpo traía a mente. O calor que havia subido pela sua pele na noite anterior ainda permanecia, latejando baixo na barriga. Ela se levantou cedo, tomou um banho frio longo e vestiu uma roupa mais simples: calça social preta e blusa de seda bege. Precisava parecer profissional. Inatingível. Quando saiu do quarto, Luis Fernando já estava na sala de estar, terminando o café da manhã. Ele vestia uma camisa social cinza clara com as mangas dobradas até os antebraços, revelando veias e músculos definidos. O cabelo estava ligeiramente bagunçado, como se ele também não tivesse dormido bem. — Bom dia — disse ele, sem olhar diretamente para ela. A voz estava rouca. — Bom dia, senhor Bracho. O silêncio foi constrangedor. Nenhum dos dois mencionou o que quase havia acontecido na noite anterior. Luis Fernando empurrou uma xícara de café na direção dela. — Beba. Temos um dia cheio. Evento beneficente à noite. Você vai me acompanhar. Valentina arregalou os olhos. — Eu? Mas eu não tenho roupa adequada para esse tipo de evento... — Já resolvi isso. Uma estilista virá em uma hora. Considere parte do trabalho. Ela quis protestar, mas o olhar dele não deixava espaço para discussão. O dia seguiu em ritmo acelerado. Reuniões pela manhã, almoço com parceiros comerciais e, à tarde, Luis Fernando a surpreendeu ao pedir sua opinião sobre uma nova campanha publicitária. Pela primeira vez, ele ouviu sem interromper. Quando ela terminou de falar, ele assentiu devagar. — Você tem boas ideias, Valentina. Pena que sua execução ainda seja amadora. O elogio misturado com crítica doeu mais do que uma ofensa pura. Era como se ele soubesse exatamente onde apertar para desestabilizá-la. Às cinco da tarde, a estilista chegou com três vestidos. Valentina experimentou todos no quarto. O escolhido por Luis Fernando foi um longo preto, elegante, com decote discreto nas costas e que marcava sutilmente sua silhueta. Quando ela saiu do quarto, ele estava de terno preto completo, devastadoramente bonito. Ele parou no meio da sala, olhando-a fixamente. Seus olhos percorreram o corpo dela devagar, desde os pés com saltos altos até o rosto. Algo brilhou naquele olhar verde — fome. — Serviu — disse ele, rouco. — Vamos. O evento era em um salão luxuoso nos jardins de um hotel histórico de Guadalajara. Luzes suaves, música ao vivo, pessoas ricas e influentes circulando com taças de champanhe. Valentina se sentia completamente deslocada, mas Luis Fernando mantinha a mão em suas costas de forma possessiva enquanto a guiava pelo salão. — Sorria e fique ao meu lado — murmurou ele perto do ouvido dela. O hálito quente causou arrepios. Camila de la Fuente apareceu como um fantasma. Vestida em vermelho vivo, deslumbrante e venenosa. Ela se aproximou com um sorriso falso, ignorando Valentina completamente. — Fernando, querido! Não esperava te ver aqui. Sozinho? — perguntou, lançando um olhar rápido e depreciativo para Valentina. — Não estou sozinho — respondeu ele, seco, puxando Valentina um pouco mais para perto. Camila riu, um som falso e cortante. — Uma assistente? Sério? Você caiu tão baixo assim? Valentina sentiu o sangue ferver. Antes que pudesse se controlar, respondeu: — Assistente ou não, pelo menos não preciso me humilhar para chamar atenção dele. O silêncio que se seguiu foi mortal. Luis Fernando apertou a mão na cintura dela, mas Valentina não soube se era para repreendê-la ou apoiá-la. Camila estreitou os olhos. — Você vai se arrepender disso, garotinha. Ela se afastou, furiosa. Luis Fernando puxou Valentina para um canto mais reservado do jardim, atrás de uma grande fonte iluminada. — O que foi aquilo? — questionou ele, virando-a de frente para si. — Eu não te trouxe para brigar com minha ex-noiva. — Ela me insultou primeiro! — rebateu Valentina, erguendo o queixo. — Ou você esperava que eu ficasse quieta enquanto ela me trata como lixo? Os olhos dele escureceram. A luz suave da fonte dançava no rosto dele, tornando-o ainda mais atraente e perigoso. Ele deu um passo à frente, encurralando-a contra uma coluna de pedra. — Você não sabe quando calar a boca, Valentina Morales. Isso vai te meter em encrenca. — Talvez eu goste de encrenca — respondeu ela, sem saber de onde vinha aquela coragem. Luis Fernando soltou uma risada baixa, quase selvagem. Ele colocou uma mão na coluna ao lado da cabeça dela, inclinando-se. Seus corpos quase se tocavam. O perfume dele misturado ao cheiro de jardim à noite era inebriante. — Você me testa todos os dias — murmurou ele, o olhar fixo nos lábios dela. — Desde o momento em que derramou aquele café ridículo em mim. Você invadiu minha empresa, minha rotina... e agora minha cabeça. Valentina sentia o coração prestes a explodir. A boca dele estava tão perto. Bastava inclinar um centímetro... — Eu te odeio — sussurrou ela. — Minta melhor — respondeu ele, rouco. O polegar dele roçou de leve o queixo dela. O toque foi elétrico. Por um instante, pareceu que ele finalmente ia beijá-la. Os olhos de Luis Fernando estavam quase pretos de desejo. A respiração dele acelerou. De repente, uma voz chamou do salão: — Senhor Bracho! Precisamos de você para o discurso! Luis Fernando fechou os olhos por um segundo, como se estivesse lutando contra si mesmo. Ele se afastou bruscamente, passando a mão pelo cabelo. — Volte para o hotel — ordenou, a voz fria novamente. — Eu termino aqui sozinho. Valentina ficou parada, tremendo, enquanto ele se afastava sem olhar para trás. No caminho de volta para o hotel, sozinha no carro, ela encostou a testa no vidro frio. Lágrimas de frustração e confusão escorreram pelo seu rosto. — Eu não posso... não posso sentir nada por ele — repetia para si mesma. Mas era tarde. A linha entre ódio e desejo já havia sido cruzada. Quando Luis Fernando voltou para a suíte, mais de uma hora depois, encontrou Valentina sentada no sofá da sala comum, ainda com o vestido preto. Ela não havia conseguido dormir. Ele parou na porta, afrouxando a gravata. Os olhares se encontraram. Nenhum dos dois falou. O ar estava carregado. Perigoso. Pronta para explodir. Luis Fernando deu um passo à frente. — Valentina...






