Narrado por Don Marcello
A fúria tem som.
No meu caso, é o estalo do cristal se quebrando na lareira quando o copo voa da minha mão.
O dia tinha começado calmo. Sol sobre Milão, vinho no copo, a paz de quem sabe que tem o poder de um império aos pés. Até que um dos meus homens entrou correndo no escritório, pálido como um defunto.
Guarda: — Don Marcello... chegou uma notícia da Rússia.
Ergui o olhar. Quando ele gagueja, eu já sei que vem merda.
Marcello: — Fala logo, rapaz, antes que eu te enterre no jardim.
Guarda: — Catarina Smirnova... ela... ela se casou.
O silêncio caiu pesado.
Por alguns segundos, o mundo pareceu girar devagar, como se até o tempo estivesse com medo de mim. Caminhei até a mesa, puxei o jornal com o selo russo e abri. A manchete vinha com uma fotografia pequena, mas clara o bastante: Catarina, a minha noiva, vestida de branco, sorrindo ao lado de Mikhail Volkov — o braço direito de Dmitri.
O sangue me subiu à cabeça.
Marcello: — Casada? — minha voz saiu rouca, qu