3. Profanada

​O vidro frio da janela panorâmica era a única âncora de Eloise enquanto o mundo girava vertiginosamente. Pressionada contra a superfície gelada, ela via o reflexo distorcido de seu próprio terror sobreposto à escuridão impenetrável da floresta lá fora.

​Atrás dela, Aubrey era uma muralha de calor e músculos tensos. Ele não lhe deu tempo para processar a vergonha do vestido rasgado aos seus pés.

​— Você me bateu — ele sussurrou contra a pele sensível atrás da orelha dela. A voz não demonstrava raiva, mas uma promessa sombria. — Ninguém nunca me tocou sem permissão. Você vai aprender que cada ação tem uma consequência. E a sua consequência sou eu.

​As mãos dele, grandes e ásperas, desceram pelas costelas dela, ignorando os soluços que sacudiam o peito de Eloise. Ele invadiu o que restava de sua intimidade, os dedos deslizando para dentro do cós da calcinha de renda.

​Eloise engasgou, tentando fechar as pernas, mas a coxa dele se intrometeu entre as dela, forçando-a a permanecer aberta, vulnerável.

​— Não... por favor, Aubrey... — ela implorou, a voz quebrada. A humilhação de estar seminua enquanto ele ainda estava completamente vestido, protegido por camadas de alfaiataria cara, era esmagadora.

​— Shiii — ele a silenciou, mordendo o ombro dela com força suficiente para deixar uma marca. — Não desperdice seu fôlego pedindo piedade. Use-o para gritar.

​Ele não foi gentil. Com um puxão seco, ele arrancou a última peça de roupa dela. O som do tecido rasgando foi abafado pelo gemido de protesto dela. Agora, ela estava completamente exposta contra o vidro.

​Eloise sentiu o toque dele mudar. Não era apenas agressivo; era técnico, perverso. A mão de Aubrey desceu para o centro de sua feminilidade. Ela esperava dor imediata, mas ele começou a tocá-la com uma precisão humilhante. Ele sabia exatamente onde pressionar, onde acariciar.

​O corpo de Eloise, traidor e inexperiente, reagiu contra a vontade dela. Uma onda de calor líquido percorreu seu ventre, uma resposta fisiológica ao estímulo que ela não conseguia controlar.

​— Sente isso? — Aubrey zombou, sentindo a umidade dela contra seus dedos. Ele pressionou o corpo mais forte contra as costas dela, fazendo-a sentir a rigidez dele através da calça. — Sua boca diz não, mas seu corpo sabe a quem pertence. Você é uma hipócrita, Eloise. Tão corruptível quanto a sua mãe.

​— Eu te odeio! — ela gritou, as lágrimas escorrendo quentes pelo rosto, misturando-se à vergonha de sentir um prazer indesejado faiscar sob os dedos dele.

​— O ódio é bom — ele rosnou, a respiração ficando mais pesada. — O ódio é apaixonado. Eu prefiro que você me odeie a que seja indiferente.

​Ouviu-se o som metálico do cinto dele sendo aberto, seguido pelo zíper. O som da inevitabilidade.

​Aubrey segurou os quadris dela com firmeza, os dedos cravando na pele macia, deixando marcas que ficariam roxas no dia seguinte. Ele a puxou para trás, alinhando seus corpos.

​Não houve preparação, nem palavras doces.

​Quando ele entrou nela, foi com um único impulso, brutal e possessivo.

​Eloise gritou. Uma dor aguda e dilacerante rasgou seu interior, uma barreira sendo rompida sem cerimônia. Ela tentou se afastar, arranhando o vidro, mas ele a segurou no lugar, impiedoso.

​— Dói? — ele perguntou, a voz rouca, sem parar o movimento. Ele começou a se mover dentro dela, estocadas longas e profundas que a preenchiam completamente, roubando-lhe o ar. — Essa dor é a prova de que você é minha. A única marca que importa.

​Eloise mordeu o próprio lábio até sentir gosto de sangue, tentando não gemer, tentando não dar a ele a satisfação de ouvir sua voz. Mas a mistura confusa de dor, a fricção intensa e a dominância avassaladora dele estavam fragmentando sua mente.

​Aubrey não permitiu que ela se dissociasse. Ele agarrou o cabelo dela, puxando a cabeça dela para trás, forçando-a a olhar para o reflexo dos dois no vidro.

​— Olhe — ele ordenou, ofegante, o ritmo de seus quadris aumentando, batendo contra as nádegas dela com um som obsceno de pele contra pele. — Olhe para você. Sendo tomada pelo monstro.

​No vidro, ela viu a imagem de sua própria ruína. O rosto retorcido em agonia e êxtase, o corpo pálido subjugado pela figura escura e poderosa dele atrás dela.

​A traição final veio segundos depois. A tensão acumulada no corpo dela, estimulada pela fricção implacável e pelo medo, explodiu. Eloise soltou um grito estrangulado quando seu corpo convulsionou ao redor dele, um orgasmo que não trouxe alívio, apenas uma vergonha profunda e devastadora.

​Aubrey sentiu. Ele rosnou, triunfante, e aumentou a velocidade, perdendo a compostura calculada por um breve momento. Com três estocadas finais e violentas, ele se derramou dentro dela, marcando-a da forma mais primitiva possível.

​Ele parou, a respiração irregular batendo contra o pescoço dela. O peso dele ainda a pressionava contra o vidro.

​Por um longo minuto, o único som no quarto era a respiração de ambos e o zumbido do ar condicionado.

​Então, Aubrey se afastou.

​A ausência do calor dele foi um choque térmico. Eloise, sem forças nas pernas, escorregou pelo vidro até cair no carpete, puxando os trapos do vestido rasgado para tentar cobrir sua nudez, tremendo incontrolavelmente.

​Aubrey ajeitou a roupa com uma calma perturbadora, como se tivesse acabado de fechar um negócio, e não violado sua esposa. Ele caminhou até a mesa de cabeceira, serviu um copo de água e bebeu, observando-a encolhida no chão.

​— Bem-vinda à família, Sra. Van Der Mors — ele disse, a voz voltando àquele tom frio e aristocrático.

​Ele caminhou até a porta. Antes de sair, ele olhou para ela uma última vez.

​— O café da manhã é servido às oito. Não se atrase.

​A porta se fechou. A tranca girou novamente. E Eloise ficou sozinha no escuro, marcada, dolorida e irrevogavelmente mudada.

***

A consciência voltou lentamente, não como um despertar suave, mas como um afogamento ao contrário. A primeira coisa que Eloise sentiu foi o frio.

​Estava deitada sobre o tapete grosso, na mesma posição em que caíra na noite anterior. O ar-condicionado continuava a zumbir, indiferente à pele arrepiada e exposta. Ao tentar se mover, um gemido involuntário escapou de seus lábios secos. Cada músculo do seu corpo protestava; havia uma dor surda na lombar e um ardor agudo entre as pernas, uma lembrança física e palpitante da violação.

​Abriu os olhos. A luz da manhã entrava pela parede de vidro, cinzenta e difusa, iluminando os destroços da sua inocência: os farrapos de seda branca e renda espalhados pelo chão como a carcaça de um animal abatido.

​Eloise forçou-se a sentar. A cabeça latejava. Olhou para os próprios pulsos; estavam marcados, uma pulseira de hematomas arroxeados onde os dedos de Aubrey a tinham prendido. Tocou o pescoço, sentindo a pele sensível onde ele a mordera.

​— Eu estou aqui — sussurrou para o quarto vazio, a voz rouca. — Eu ainda estou aqui.

​Precisava se limpar. A sensação do toque dele, do cheiro dele, ainda parecia impregnada em seus poros, como uma película de óleo sujo que a asfixiava.

​Arrastou-se até levantar, as pernas tremendo sob o seu peso, e caminhou em direção à porta lateral que presumiu ser o banheiro.

​O espaço era um templo de mármore branco e aço inoxidável, tão frio e impessoal quanto o resto da casa. Não havia sais de banho coloridos ou toalhas felpudas à vista; apenas superfícies duras e espelhos que ampliavam a solidão.

​Eloise evitou seu reflexo enquanto entrava no chuveiro. Girou o registro para a temperatura mais alta que podia suportar. Quando a água fervendo atingiu suas costas, ela não se afastou. Deixou que o calor queimasse a pele, desejando que a água pudesse penetrar até a alma e esterilizar o que Aubrey tinha tocado.

​Esfregou a pele com uma esponja áspera até ficar em carne viva, misturando o vapor com as lágrimas que finalmente permitiu que caíssem. Chorou pela vida que perdera, pelo rapaz que amava e que fora obrigado a fugir, e pela mãe que, ela começava a perceber com um horror crescente, a entregara àquele destino sem hesitar.

​Minutos — ou talvez horas — depois, desligou a água. Envolveu-se num roupão branco e pesado que estava pendurado num gancho cromado. O tecido era macio, mas pesava em seus ombros como uma mortalha.

​Saiu do banheiro e parou. O quarto estava exatamente como antes, exceto por um detalhe: a porta do closet estava entreaberta.

​Movida por uma curiosidade trêmula, aproximou-se. O closet era do tamanho do seu antigo quarto. De um lado, ternos escuros e camisas engomadas de Aubrey estavam alinhados com precisão militar. Do outro, uma coleção de roupas femininas.

​Eloise percorreu as peças com os dedos. Vestidos de cashmere, blusas de seda, saias lápis. Tudo em tons neutros — bege, cinza, preto, branco. Nada de estampas, nada de cores vivas. Eram roupas de uma boneca, escolhidas a dedo pelo dono. Ele não tinha apenas comprado o corpo dela; ele planejara vesti-la, moldá-la à sua estética austera.

​Não encontrou sua mala. Suas roupas velhas, seus livros, as pequenas lembranças que trouxera de casa... tudo desaparecera.

​O pânico, que estivera adormecido sob o choque, despertou com garras afiadas.

​Correu para as janelas panorâmicas. A vista era de tirar o fôlego e aterrorizante: uma floresta densa de pinheiros estendia-se até onde a vista alcançava, sem sinais de outras casas, estradas ou civilização. Estavam isolados.

​Eloise procurou a trava da janela. Não havia. O vidro era uma placa única, selada hermeticamente. Era um aquário de luxo. Ela podia ver o mundo, mas não podia tocá-lo, nem podia ser ouvida por ele.

​Virou-se e correu para a porta do quarto. Agarrou a maçaneta dourada e girou.

​Trancada.

​— Não... — murmurou, forçando a maçaneta novamente, sacudindo a porta com o ombro dolorido. — Por favor, não!

​Aproximou-se das mesas de cabeceira, abrindo gavetas freneticamente. Nada. Nem um celular, nem um papel, nem uma caneta. Apenas uma Bíblia de capa preta na primeira gaveta, uma ironia cruel naquele lugar sem Deus.

​Estava completamente incomunicável. Sem celular, sem internet, sem saída.

​O silêncio da casa parecia rir dela. Eloise encostou as costas na porta trancada e escorregou até o chão, abraçando os joelhos. A realidade abateu-se sobre ela com o peso de uma sentença perpétua.

​Ela não era uma hóspede. Não era uma esposa.

​Era uma prisioneira numa torre de vidro, e o monstro tinha a única chave.

​O som de passos pesados no corredor fez seu sangue gelar. Pararam bem do outro lado da porta.

​— Oito horas, Eloise — a voz de Aubrey soou através da madeira, abafada mas inconfundível. Ouviu-se o clique metálico da chave girando na fechadura. — Espero que esteja apresentável.

​A porta se abriu.

No momento em que a porta de madeira maciça começou a se afastar do batente, revelando uma fresta do corredor iluminado, o instinto de sobrevivência de Eloise assumiu o controle. Não houve pensamento racional, nem plano, apenas a necessidade animal e urgente de sair.

​Ela não olhou para o rosto de Aubrey. Ela olhou para o espaço vazio ao lado dele.

​Com um grito estrangulado preso na garganta, Eloise disparou. Seus pés descalços afundaram no carpete, impulsionando-a para frente com toda a força que lhe restava. Ela era rápida, movida pelo pânico cego.

​Mas Aubrey era mais rápido. E ele estava esperando.

​Eloise nem sequer chegou ao corredor. Assim que seu corpo cruzou o limiar da porta, chocou-se contra uma barreira sólida e imóvel. Não foi como bater em uma pessoa; foi como colidir contra um muro de concreto revestido de linho fino.

​O impacto tirou o ar de seus pulmões. Ela ricocheteou, mas antes que pudesse cair ou tentar desviar, mãos grandes e fortes fecharam-se em torno de seus braços, logo abaixo dos ombros.

​— Aonde você pensa que vai? — A voz de Aubrey veio de cima, calma, sem nem um traço de surpresa.

​Eloise reagiu com selvageria.

​— Me solta! — ela gritou, a voz rasgando a garganta seca.

​Ela se debateu, chutando as canelas dele, arranhando as mangas da camisa branca impecável que ele usava. O roupão branco que a cobria se abriu na luta, expondo seu corpo machucado, mas a vergonha não a parou dessa vez. Ela torceu o corpo, tentando morder, tentando ferir, tentando qualquer coisa para se libertar daquelas garras.

​Aubrey nem sequer oscilou. Ele suportou os chutes e os arranhões com uma indiferença irritante. Então, com um suspiro de tédio, ele apertou o aperto. Seus dedos afundaram na carne macia dos braços dela, pressionando nervos, causando uma dor aguda e paralisante que a fez arquear as costas e gritar.

​— Já chega — ele ordenou. O tom não era alto, mas tinha a finalidade de um martelo.

​Com um movimento fluido, ele a girou e a empurrou de volta para dentro do quarto. Eloise tropeçou, perdendo o equilíbrio, e caiu de joelhos no carpete espesso, as palmas das mãos ardendo com o impacto.

​Ela tentou se levantar imediatamente, virando-se para a porta, mas Aubrey já estava fechando-a novamente. Ele não a trancou desta vez. Ele simplesmente encostou as costas na madeira escura, cruzando os braços sobre o peito largo, bloqueando a única saída com sua presença maciça.

​Ele a observou de cima, os olhos de gelo percorrendo a figura dela caída, o roupão desfeito, o peito subindo e descendo em espasmos de pânico.

​— Você é rápida — ele comentou, como se estivesse avaliando o desempenho de um cavalo de corrida. — Mas não é inteligente.

​— Me deixa sair... — Eloise soluçou, o ímpeto da adrenalina desaparecendo e deixando para trás apenas o gosto amargo do fracasso. — Eu não quero ficar aqui. Eu não pertenço a você!

​Aubrey desencostou da porta e caminhou lentamente até ela. O som de seus sapatos de couro italiano no chão era abafado, predatório. Ele parou diante dela, agachando-se para ficar no nível dos seus olhos.

​O cheiro dele — aquele maldito cheiro de sândalo e poder — a envolveu novamente, fazendo seu estômago revirar.

​— Vamos corrigir uma coisa, Eloise — ele disse suavemente, estendendo a mão para afastar uma mecha de cabelo suado que grudava na testa dela. Ela tentou recuar, mas ele segurou sua nuca, mantendo-a no lugar. — Você não pertence a mim?

​Ele riu, um som baixo e escuro.

​— Olhe ao redor. As roupas no armário são minhas. A comida que você vai comer é minha. A água com que você se lavou é minha. Até o ar que você está respirando dentro destas paredes é filtrado pelos meus sistemas.

​Ele aproximou o rosto do dela, os narizes quase se tocando.

​— E ontem à noite... o seu corpo respondeu ao meu. Você sangrou para mim. Você gritou o meu nome. Não existe um único átomo em você que não me pertença agora.

​— Você me estuprou — ela cuspiu a palavra, trêmula, mas desafiadora.

​Os olhos de Aubrey estreitaram-se, uma fração de milímetro. A temperatura no quarto pareceu cair dez graus.

​— Eu tomei o que comprei. — A correção foi cirúrgica, desprovida de humanidade. — E se você tentar correr novamente, Eloise, eu não vou apenas trazê-la de volta. Eu vou amarrá-la naquela cama e deixá-la lá até que você aprenda a apreciar a liberdade que eu lhe dou dentro deste quarto. É isso que você quer? Ser alimentada na boca enquanto está presa pelos pulsos e tornozelos?

​O horror da imagem fez Eloise paralisar. Ela viu nos olhos dele que não era uma ameaça vazia. Era uma promessa logística.

​— Não — ela sussurrou, derrotada.

​— Foi o que eu pensei. — Aubrey soltou a nuca dela e se levantou, limpando uma poeira imaginária da calça. — Agora, levante-se. Cubra-se. Você parece uma histérica.

​Ele caminhou até o closet e voltou segurando um vestido simples de linho creme e roupas íntimas de algodão. Jogou as peças no colo dela.

​— Vista-se. O café da manhã está esfriando, e eu odeio comer sozinho. Você tem dois minutos.

​Aubrey virou-se de costas, caminhando até a janela, dando a ela a ilusão de privacidade enquanto observava a floresta lá fora. Mas Eloise sabia, enquanto vestia as roupas com mãos trêmulas e doloridas, que a privacidade era uma mentira. Ele estava em toda parte.

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