Destinos impostos

Valentina

O nome dele era Fernando Rinaldi.

Valentina repetia mentalmente enquanto organizava os prontuários no fim do plantão. O raio-x confirmava a entorse moderada no tornozelo esquerdo. Havia edema. Inflamação. A dor era real.

Nada ali era falso.

E ainda assim… algo não encaixava.

Não era a lesão.

Era ele.

O modo como sustentava o olhar tempo demais. Como media cada palavra antes de responder. Como parecia observar mais do que um paciente comum observaria.

Ela se lembrava da pergunta: “E quando algo acontece fora do hospital? Também mantém essa calma?”

Aquilo não era conversa casual.

Era sondagem.

Valentina apoiou as mãos na mesa do consultório, tentando racionalizar. Talvez fosse apenas impressão. O cansaço acumulado podia estar amplificando paranoias. Afinal, ela tinha motivos para estar sensível.

Mas a sensação persistia.

Não era medo direto.

Era a sensação de estar sendo medida.

Ela sempre foi boa em ler pessoas. Na ortopedia, isso era essencial. Pacientes mentem sobre dor. Minimiza-se o trauma. Exagera-se sintomas. O olhar revela o que o corpo tenta esconder.

Fernando não estava mentindo sobre o tornozelo.

Mas estava escondendo algo.

Durante o restante do plantão, tudo transcorreu normalmente. Casos clínicos simples. Um trauma leve. Uma fratura estabilizada. Nada que exigisse mais do que técnica e atenção.

Valentina manteve sua postura habitual: firme, didática com os residentes, gentil com os pacientes.

Por fora, a profissional exemplar.

Por dentro, a mente retornava àquela esquina.

E agora, ao consultório.

Quando a madrugada finalmente chegou, ela respirou aliviada. Bateu o ponto às três em ponto. Caminhou até a garagem.

O carro estava pronto. A oficina havia resolvido o problema elétrico.

Ela entrou, fechou a porta e ficou alguns segundos apenas respirando.

O volante sob suas mãos parecia uma âncora.

Desta vez, não precisaria caminhar pelas ruas silenciosas.

Ligou o motor.

Funcionou perfeitamente.

Dirigiu pelas avenidas vazias de Turin, passando pelos prédios históricos que pareciam dormir sob a luz amarelada dos postes. A cidade parecia tranquila demais para abrigar tanto perigo.

Ao estacionar em frente ao prédio onde morava, sentiu uma pontada de alívio.

Seu cantinho de paz.

Subiu, trancou a porta, apoiou a testa na madeira por um breve segundo.

Estava segura.

Ou ao menos queria acreditar que estava.

Antes de dormir, decidiu algo silenciosamente:

Na próxima vez que visse Fernando — se visse — estaria mais atenta.

Muito mais.

Alonso

Pontual.

Isso por si só já causou surpresa.

Alonso entrou na mansão às 20h57. Terno escuro, postura impecável. Caminhou até o escritório do pai sem desviar o olhar.

O senhor Estevão Silvert estava sentado atrás da mesa de madeira maciça, iluminado por uma luminária discreta. Aos setenta anos, mantinha a postura firme e o olhar afiado.

— Fico satisfeito com sua pontualidade — disse ele.

Alonso sentou-se sem ser convidado.

— Disse que precisava de mim.

Estevão entrelaçou os dedos sobre a mesa.

— Preciso que você entenda algo. Não tenho mais o mesmo fôlego. A Silvert’s exige energia. Decisões rápidas. Pressão constante.

A empresa de segurança privada era referência em Turin. Contratos governamentais. Segurança empresarial. Monitoramento de alto padrão.

Uma fachada respeitável.

— Você ainda está saudável — Alonso retrucou. — Sempre esteve no controle.

— E quero continuar assim — o pai interrompeu. — Mas como mentor, não como executor.

O silêncio se instalou.

Alonso percebeu o que vinha a seguir antes mesmo que fosse dito.

— Planejei ter um filho para isso. Para quando chegasse a hora, ele assumisse.

Alonso manteve o rosto neutro.

— Está cedo para se aposentar.

— Não é uma discussão — Estevão respondeu, firme. — É uma transição.

Alonso tentou argumentar. Apontou contratos recentes. Crescimento da empresa. Alegou que o pai ainda era essencial.

Mas a decisão estava tomada.

Desta vez, não havia margem.

Assumir a Silvert’s significava exposição. Responsabilidade pública. Visibilidade constante.

Significava abandonar as sombras.

Abandonar o outro lado.

Seu trabalho como assassino de aluguel não poderia coexistir com o cargo de diretor executivo de uma empresa de segurança.

Seria incoerente.

Perigoso.

— Você começará a participar das decisões estratégicas imediatamente — declarou Estevão.

Alonso assentiu lentamente.

Se aquele era o destino traçado, ele saberia se adaptar.

Mas o golpe final ainda estava por vir.

— Há mais uma coisa — disse o pai.

Alonso ergueu os olhos.

— Você deve se casar.

O silêncio foi mais pesado que qualquer ameaça.

— Não — respondeu Alonso, quase automático.

— Sim — rebateu Estevão. — Um homem na sua posição precisa de estabilidade. Imagem sólida. Família.

— Isso é arcaico.

— Isso é estratégico.

Os dois se encararam.

— Ou você encontra uma esposa por vontade própria… — continuou o pai — ou eu encontrarei alguém adequada. Você tem um mês.

Não havia espaço para negociação.

A reunião terminou sem despedidas formais.

Alonso subiu para o quarto com a mente em ebulição.

Casamento.

Sucessão.

Aposentadoria forçada das sombras.

Entrou no banheiro e deixou a água quente cair sobre os ombros. Tentava organizar os pensamentos.

Abandonar o lado obscuro significava encerrar pendências.

Encerrar ciclos.

Encerrar trabalhos.

E havia um inacabado.

Valentina Moretti.

Ele encostou a testa no azulejo frio.

Talvez o destino estivesse sendo irônico.

Precisava de uma esposa.

Precisava encerrar sua vida como assassino.

Precisava resolver a única testemunha viva de um erro recente.

Uma ideia começou a tomar forma.

Lenta.

Perigosa.

Interessante.

Se precisava deixar as sombras…

Talvez pudesse levar uma delas para a luz.

Alonso desligou o chuveiro.

Vestiu-se.

Deitou-se na cama, encarando o teto escuro.

Seu último trabalho não seria apenas eliminar uma testemunha.

Seria algo muito mais elaborado.

Muito mais permanente.

E Valentina ainda não fazia ideia de que o destino dela estava prestes a mudar completamente.

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