O teste de resistência

A curiosidade sempre foi mais perigosa do que a pressa.

Alonso sabia disso.

Eliminar Valentina seria simples. Um movimento calculado, um acidente bem arquitetado, e tudo terminaria antes mesmo que ela entendesse o que estava acontecendo. Mas havia algo nela que exigia mais do que uma solução rápida. Ele precisava medir sua resistência. Entender seu caráter fora da tensão da madrugada.

E, para isso, precisava observá-la de perto.

— Preciso de um favor — disse Alonso, encostado na bancada do bar discreto onde encontrou Fernando naquela tarde.

Fernando ergueu uma sobrancelha, girando o copo entre os dedos.

— Se envolve hospital, já sei que tem relação com a testemunha.

Alonso não respondeu com palavras. Apenas sustentou o olhar.

Fernando sorriu de lado.

— Quer que eu me machuque?

— Nada permanente — Alonso retrucou. — Apenas convincente.

Fernando também atuava no mesmo ramo. Frio, eficiente, pragmático. Se Alonso era metódico, Fernando era improviso calculado. Funcionavam bem juntos.

— O que exatamente você quer saber? — perguntou Fernando.

— Como ela reage sob pressão quando não sabe que está sendo observada.

Horas depois, a noite já envolvia Turin novamente.

No Memorial Peace, o fluxo da emergência era intenso. O som de macas sendo empurradas, conversas apressadas, monitores apitando.

Fernando entrou mancando, apoiado em um segurança do hospital.

— Cai da escada — explicou ao balcão, fazendo careta convincente. — A perna virou feio.

A recepcionista registrou os dados rapidamente. Nome falso, histórico simples. Nada que levantasse suspeitas.

Alonso assistia tudo pelas câmeras.

Quando o nome foi chamado, Fernando foi conduzido até o consultório de Valentina.

Ela estava concentrada em um prontuário quando ele entrou. Levantou os olhos imediatamente.

— Boa noite. Sou a doutora Valentina. O que aconteceu?

A voz dela era firme, profissional. Não havia hesitação.

Fernando sentou-se com cuidado exagerado.

— Escada molhada. Achei que dava conta… mas acho que torci feio.

Valentina já estava anotando.

— Dor localizada onde?

— Tornozelo esquerdo. E um pouco na perna.

Ela se aproximou para examinar.

Alonso inclinou-se para frente diante da tela.

Valentina tocou a região lesionada com delicadeza, mas sem excesso de cautela.

— Consegue mover os dedos?

Fernando obedeceu, fingindo desconforto.

— Dói aqui? — ela pressionou um ponto específico.

Ele soltou um gemido convincente.

— Um pouco demais.

Ela manteve a expressão concentrada.

— Pode ser uma entorse significativa. Vamos solicitar um raio-x para descartar fratura.

Enquanto preenchia o pedido, ela ergueu os olhos brevemente.

— Está sentindo tontura? Perdeu a consciência na queda?

— Não. Só a dignidade — respondeu ele com um meio sorriso.

Valentina quase sorriu de volta.

Quase.

Foi rápido demais para qualquer um notar.

Menos para Alonso.

Ela ainda era capaz de leveza.

Após o exame de imagem confirmar que não havia fratura, Valentina iniciou a imobilização parcial.

— Vou colocar uma tala provisória. Repouso absoluto por alguns dias. Gelo a cada quatro horas. Se a dor aumentar, retorne imediatamente.

Fernando a observava enquanto ela trabalhava.

— A senhora parece muito calma para quem passa noites aqui.

Ela ergueu o olhar.

— Calma é necessária. Pânico não ajuda ninguém.

A resposta veio automática.

Mas havia algo por trás dela.

Fernando decidiu testar.

— E quando algo acontece fora do hospital? Também mantém essa calma?

Por um segundo, as mãos dela pausaram.

Foi mínimo. Quase imperceptível.

— Eu faço o que é preciso — respondeu, retomando o procedimento.

Alonso percebeu.

Ela pensava na esquina.

Fernando inclinou a cabeça.

— A cidade anda perigosa, não acha?

Valentina terminou de ajustar a tala antes de responder.

— Sempre foi. Só depende do ângulo que se olha.

Ela se afastou, anotando as recomendações finais.

Profissional. Controlada.

Mas a tensão estava ali.

Fernando levantou-se com cuidado.

— Obrigado, doutora. Espero não precisar vê-la tão cedo.

— Eu também — ela respondeu, educada.

Ele saiu do consultório.

Alonso desligou momentaneamente a câmera interna e aguardou Fernando sair do prédio antes de atender a ligação que vibrava insistente em seu celular.

Pai.

Atendeu.

— Preciso que você esteja em casa às 21h. Sem falta e sem atrasos.

A voz era dura. Objetiva.

— Estarei — respondeu Alonso.

A ligação foi encerrada sem despedidas.

Ele voltou os olhos para a tela.

Valentina estava sozinha no consultório agora.

Ela fechou a porta.

Encostou-se por um instante na mesa, respirando fundo.

Levou a mão ao rosto.

Não chorava.

Não desmoronava.

Mas estava exausta.

E assustada.

Alonso cruzou os braços.

Ela não denunciou.

Não mencionou nada ao falso paciente.

Não buscou ajuda.

Estava tentando lidar sozinha.

Isso a tornava mais forte.

E mais interessante.

Fernando enviou uma mensagem minutos depois:

“Ela é boa. Inteligente. Está tensa, mas não quebrada.”

Alonso respondeu apenas:

“Eu sei.”

Olhou para o relógio.

20h12.

Fechou o sistema de câmeras.

Se levantou com calma.

O pai nunca fazia exigências sem motivo.

E a ordem naquela voz indicava que algo estava prestes a mudar.

Antes de sair, lançou um último olhar para a última imagem congelada na tela: Valentina caminhando pelo corredor, concentrada, ignorando o peso invisível que carregava.

Ela ainda acreditava que o perigo estava naquela esquina.

Mal sabia que ele agora conhecia sua voz.

Seu tom.

Seu controle.

E que estava mais próximo do que nunca.

Às vezes, para conquistar ou destruir alguém, é preciso primeiro entender como ela se mantém de pé.

E Valentina, apesar do medo, permanecia firme.

Isso tornava o jogo muito mais interessante.

E Alonso sempre gostou de jogos difíceis.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App