O apartamento ao lado

Valentina

O aviso estava preso no mural do hall desde a tarde anterior:

“Apartamento 402 disponível para locação.”

Valentina tinha visto o anúncio quando saiu para o plantão às 16h30, como fazia todos os dias. Seu turno começava às 17h e se estendia até as 3h da madrugada — horário em que a cidade ficava silenciosa demais para o gosto dela.

Naquela manhã, ao retornar pouco depois das três e meia, exausta, notou algo diferente.

Uma mala discreta próxima ao elevador. Duas caixas apoiadas junto à parede. O porteiro, Vicente, organizava alguns papéis.

— Novo morador? — perguntou ela, segurando a bolsa contra o ombro.

Vicente ergueu os olhos.

— Sim, doutora. O 402 foi alugado ontem à noite.

— Posso saber quem é?

Houve uma breve hesitação.

— O nome não pode ser divulgado. Pessoa influente. Pediu total discrição. Vai usar o apartamento como refúgio, para descansar.

Valentina franziu levemente a testa.

Pessoa influente.

Discrição.

Era curioso alguém buscar anonimato justamente ali.

— Entendi — respondeu, embora a curiosidade tivesse sido acesa.

Ela entrou no elevador e subiu. Quando o corredor do quarto andar surgiu diante dela, notou que a porta do 402 estava fechada, nova fechadura brilhando sob a luz fria.

Parou diante da própria porta.

Era estranho como a simples presença de alguém ao lado podia alterar a sensação de segurança.

Mas talvez fosse apenas o cansaço falando mais alto.

Entrou, trancou a porta e finalmente respirou.

Seu apartamento era seu refúgio. Pequeno, acolhedor, organizado. Plantas na varanda. Livros sobre ortopedia e romances espalhados pela estante.

Seu ponto de paz.

Ou pelo menos era o que desejava que fosse.

Alonso

O contrato foi assinado ainda naquela noite, antes das 22h.

Pagamento antecipado. Exigência de confidencialidade. Nenhuma pergunta desnecessária.

Alonso entrou no 402 antes mesmo de Valentina encerrar o plantão. O apartamento oferecia exatamente o que ele precisava: parede compartilhada com a sala dela, visão parcial da varanda e acesso fácil às escadas.

Instalou equipamentos discretos.

Nada invasivo demais.

Ainda.

Quando o relógio marcou 3h22, ele já estava pronto.

Acompanhou pelas câmeras externas o momento em que o carro dela entrou na rua.

Pontual.

Ela estacionou, saiu do veículo e conversou brevemente com o porteiro. Subiu pelo elevador.

Alonso abriu a câmera do corredor.

Observou quando ela passou pela porta do 402 sem imaginar que ele estava ali, a poucos metros, analisando cada gesto.

Ela hesitou diante da própria porta.

Instinto.

Ela sentia algo.

Mas não sabia o quê.

Valentina

Na tarde seguinte, acordou por volta das 13h. Tomou um café leve, organizou alguns papéis do hospital e tentou ignorar a inquietação crescente.

Às 16h15, já estava pronta para sair para mais um plantão.

Antes de fechar a porta, lançou um olhar para o 402.

Silêncio absoluto.

Nenhum som de televisão. Nenhuma movimentação.

Estranho para alguém recém-chegado.

Desceu e encontrou Vicente novamente.

— Ele já se mudou de vez?

— Sim, doutora. Chegou tarde da noite. Muito educado. Saiu cedo hoje.

Ela assentiu.

Saiu para o hospital.

Mas enquanto caminhava até o carro, teve novamente a sensação.

Como se estivesse sendo observada.

Olhou ao redor.

Nada.

Talvez fosse apenas o peso da madrugada anterior ainda presente.

Alonso

Ele a observou sair às 16h28.

Precisão quase cirúrgica.

Enquanto ela dirigia rumo ao hospital, ele organizava mentalmente os próximos passos.

Agora tinha acesso à rotina completa.

Sabia o horário exato em que ela deixava o apartamento.

Sabia quando retornava, exausta, às 3h da manhã.

Sabia quanto tempo permanecia acordada após chegar.

Sabia que dormia pouco.

Sabia que estava sozinha.

Alonso apoiou-se na varanda do 402, sentindo o vento leve tocar o rosto.

O hospital não era mais o único ponto de observação.

Agora ele estava ao lado do refúgio dela.

Do espaço onde ela acreditava estar protegida.

Valentina associava o perigo àquela esquina escura.

Não imaginava que o verdadeiro risco agora dividia a mesma parede.

Valentina

O plantão transcorreu dentro da normalidade possível.

Ela manteve a postura profissional, liderou atendimentos, orientou residentes. O turno seguiu até as 3h da madrugada, como sempre.

Mas, ao sair do hospital, a sensação voltou.

O silêncio da cidade parecia diferente.

Quando estacionou diante do prédio, sentiu um arrepio leve.

Subiu.

No corredor do quarto andar, o 402 permanecia silencioso.

Ela entrou em casa, trancou a porta e encostou-se nela por alguns segundos.

Não estava acontecendo nada.

Nada concreto.

E ainda assim…

Algo estava errado.

Alonso

Ele ouviu o clique da porta dela às 3h37.

Sabia o horário exato.

Fechou parcialmente as cortinas do 402.

Agora o jogo deixara as ruas.

Estava dentro do prédio.

Dentro da rotina dela.

Dentro do espaço que ela considerava seguro.

Valentina Moretti ainda acreditava que estava lidando com memórias.

Mal sabia que o perseguidor agora estava instalado ao lado de seu lar.

E que, a partir daquela noite, cada retorno às 3h da madrugada não seria apenas o fim de um plantão…

Seria o início de um pesadelo silencioso.

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