Mundo de ficçãoIniciar sessãoO farol dianteiro da moto cintilou. Uma vez. Duas. E se apagou completamente.
A moto perdeu força, o motor tossiu, e nós dois fomos jogados na escuridão absoluta da estrada costeira. Só o som do mar à distância. Só o ronco irregular do motor lutando pra não morrer. — Merda — Bruce praguejou, descendo. — Deixa eu ver o que aconteceu. Desci também, o vestido arrastando no asfalto. O vento era frio e salgado. Meus dedos tremiam. — Quanto tempo pra consertar? — Não sei. Pode ser rápido, pode ser— Um farol cortou a escuridão atrás da gente. Virei-me. Um carro preto. Parado a uns cem metros. Faróis apagados. — Bruce — sussurrei. Ele ergueu a cabeça. O carro não se movia. Só esperava. — Quem é? — ele perguntou, a voz tensa. — Não sei. Mas não é da polícia. — Comecei a recuar. — Bruce, a gente tem que sair daqui. Agora. O motor da moto tossiu, mas não pegou. O carro preto ligou os faróis. Dois outros carros surgiram atrás dele. Uma fila de luzes ofuscantes. Como olhos de predadores na escuridão. — Corre! — Bruce gritou, pegando minha mão. Corremos pro acostamento. O vestido rasgou nos arbustos. As pérolas se espalharam pelo chão como lágrimas de vidro. O som de portas se abrindo. Passos. Muitos passos. Tropeciei, caí de joelhos. O vestido rasgou com um estalo seco. Senti o ar frio na pele. Quando levantei a cabeça, vi. Clark. Saindo do primeiro carro. Ajustando o paletó como se estivesse chegando a uma reunião de negócios. Ele caminhou lentamente, os sapatos brilhando sob os faróis. Quando parou diante de mim, seus olhos percorreram o vestido rasgado, a maquiagem borrada, os olhos arregalados de terror. — Iza. — A voz era macia. Quase doce. — Você está um caos. Tentei me levantar. Ele estendeu a mão. — Não — cuspi, recuando como um animal acuado. — Não chega perto de mim. O sorriso dele não vacilou. — Você acha que pode fugir de mim com um padeiro? — Ele riu, baixinho. — Eu costurei um rastreador no seu vestido na primeira vez que te vi, Iza. Na primeira vez. O chão sumiu debaixo de mim. — Você... o quê? — Planejei cada detalhe. — Ele deu um passo à frente. — A primeira vez que te vi naquele jantar, quando você chorou no banheiro e eu esperei do lado de fora? Eu vi tudo. Vi você se recompor no espelho, vi você prometer que nunca mais ia chorar. Foi ali que soube que você era a mulher certa. Senti o sangue gelar. — Você... você ficou me vigiando? — Estava apaixonado. — O sorriso dele se alargou. — E um homem apaixonado faz de tudo pra não perder o que quer. Costurei o rastreador na hora, no provador, enquanto o estilista fingia que não via. Você nunca teve escolha, Iza. Só a ilusão dela. Bruce avançou, o punho erguido. — Fica longe dela—! O segurança mais próximo o derrubou com um golpe nas costelas. Bruce caiu de joelhos, ofegante. O som do impacto ecoou na estrada deserta. — Bruce! — gritei. Clark se virou, observando o padeiro no chão como quem observa um inseto. — Levar ele pra delegacia — ordenou, sem emoção. — Invasão de propriedade, sequestro, tentativa de homicídio contra o noivo. — O quê? — engasguei. — Ele não fez nada disso! — Vai fazer — Clark disse, voltando-se pra mim. — Pelo menos, é isso que os jornais vão dizer. A menos que... Ele se inclinou, sussurrando no meu ouvido. Senti o hálito quente, o perfume caro, o cheiro de poder. — ...você volte comigo pra igreja. Agora. Senti o sangue ferver. Não era medo. Era raiva. Raiva pura, branca, cegante. Me ergui. O vestido rasgado. A maquiagem escorrendo. Os olhos brilhando como brasas. — Você acha que pode me comprar com ameaças? — A voz não tremeu. — Você acha que eu vou me ajoelhar porque você bateu no homem que eu amo? Clark franziu a testa. Pela primeira vez, algo no olhar dele vacilou. — Iza— — Ouve bem, Clark Atlas. — Dei um passo à frente, tão perto que senti o perfume caro dele. — Pode me arrastar de volta pra aquela igreja. Pode me forçar a dizer "sim". Pode me trancar numa gaiola de ouro pelo resto da minha vida. — Mas não vai ter o meu coração. Não vai ter a minha alma. Não vai ter nada além de um corpo vazio e uma noiva que vai te odiar até o último suspiro. O silêncio foi absoluto. Até os seguranças pararam de respirar. Então, sorri. Um sorriso lento, perigoso. — E quando você menos esperar, Clark... eu vou destruir tudo que você construiu. Pedaço por pedaço. Até não sobrar nada. Clark me encarou por um longo momento. Depois, lentamente, um sorriso retornou ao rosto dele. — Essa é a minha noiva. — Ele estendeu a mão. — Vamos. O altar nos espera. Olhei pra mão estendida. Olhei pra Bruce, caído no chão. Os olhos dele estavam cheios de lágrimas. O sangue escorria do canto da boca. Não peguei a mão de Clark. Em vez disso, virei-me pra Bruce. — Espera por mim — sussurrei, tão baixo que só ele podia ouvir. — Eu vou voltar. Eu juro. — Iza... — ele tentou se levantar. O segurança o segurou. — Não faz isso. — Apertei a mão dele, rápida, furtiva. Senti a textura áspera da pele, o calor, a vida. — Confia em mim. Eu tenho um plano. Ele me olhou nos olhos. E por um momento, vi a mesma coisa que vi na primeira vez que nos encontramos — na padaria, quando ele me ofereceu um pão e disse "você parece que precisa de algo quente". Ele sempre via o que ninguém via. — Eu confio — ele sussurrou. Virei-me pra Clark. — Vamos. — A voz era gelo. — Mas saiba que a cada passo em direção àquele altar, é mais um passo em direção à sua ruína. Clark riu. Um som agradável, confiante. — Você é adorável quando tá brava. Ele abriu a porta do carro. Entrei. O carro arrancou. Deixou Bruce no chão, a moto quebrada, a estrada deserta. As luzes dos outros carros me cegaram pelo retrovisor. Dentro do carro, não olhei pra trás. Mas minhas mãos, escondidas nas pregas do vestido rasgado, estavam apertando algo. Um celular. O celular de Clark. Que eu tinha roubado quando ele se inclinou pra sussurrar no meu ouvido. Na tela, uma mensagem não enviada: "Sra. Clark. Seu marido está prestes a cometer o maior erro da vida dele. E eu tenho todas as provas." O celular vibrou. Uma resposta. "Quem é você?" Minha mão tremeu. Outra vibração. "Ele não sabe que eu existo, mas eu sei tudo sobre ele. Me liga. Urgente. — L." Olhei pro número. Não reconhecia. Mas algo me dizia que aquela "L" era a chave para tudo. Sorri pro reflexo no vidro. A guerra tinha começado.






