Mundo de ficçãoIniciar sessão
Isla Desesperada
O vento noturno enrolava as pontas do véu de Isla enquanto ela se encolhia no banco de concreto, do lado de fora do prédio vazio da empresa familiar. O branco do vestido, que deveria cintilar sob as luzes da igreja, parecia uma mancha fantasmagórica na penumbra. O telefone vibrou mais uma vez, um inseto de metal e vidro em sua mão trêmula. Ela olhou para a tela. A mesma foto: o rosto severo do pai. Apertei para atender, mas não levou ao ouvido. Deixou-o no colo, no vácuo de seda e tule. A voz dele irrompeu, distorcida e metálica, preenchendo o silêncio ao redor. "Onde você está?" O som parecia vir de um abismo. Isla fitou a rua deserta, à espera dos faróis que a levariam para longe. "Eu estou fora da nossa empresa," sussurrou ela para o aparelho, como se confessasse um crime. "Duas. Horas. Isla." Cada palavra era um estalo seco. "Nós estamos na igreja. Todos estão aqui. Os Atlas estão com o semblante de pedra. Você está transformando o maior dia da nossa vida em um pesadelo." Ela respirou fundo, o ar frio cortando como uma lâmina. "Eu acho... eu acho que não quero me casar." O silêncio do outro lado da linha foi mais aterrorizante que qualquer grito. Quando a voz retornou, era um sopro carregado de gelo. "Escolha? Você fala em escolha? Seu vestido custou mais do que a declaração de falência que o contador nos entregou semana passada. Cada pérola é um empréstimo. Cada renda é uma garantia que o Ezra aceitou em vez de juros. Você não tem escolha, Isla. Você é a escolha que nós fizemos para sobreviver." "Eu posso trabalhar! Posso assumir a empresa, reestruturar, há outras formas" "Outras formas?" A risada foi breve e amarga. "Os credores não aceitam 'outras formas'. Os bancos não aceitam 'vou tentar'. Eles aceitam a assinatura do Ezra Atlas no aval. Esse casamento não é um capricho. É a assinatura em um contrato de salvação. Agora, pare de brincar de donzela em perigo e haja como a herdeira que você foi criada para ser. Venha. Para. A igreja." Isla sentiu as lágrimas queimarem, mas lutou contra elas. A maquiagem era sua armadura, por ora. "Casamento não é isso, pai. Não é um leilão. É suposto ser sobre... amor." "Do outro lado do altar está a solução para todas as nossas dívidas. Isso é amor. Amor por esta família, por este nome, por tudo que os Morgan construíram. O amor romântico é um luxo que estamos falidos para bancar. Onde você está, de verdade?" "Eu já disse. Estou fora." "Está sozinha?" O coração de Isla deu um salto. O rugido distante de uma moto começou a ecoar na avenida, crescendo como uma promessa. "Não," ela murmurou, um fio de desafio na voz. "Estou esperando o Kai. Estou neste vestido que parece um caixão de seda. Eu o amo, pai. E vou embora com ele. Para bem longe daqui." A voz do pai explodiu, não mais contida, uma torrente de raiva e desespero. "Não se atreva! Não se atreva a arruinar tudo por causa de um sonho bobo com um padeiro! Isla! Isla, você ouviu—?" Ela desligou a chamada. O som foi substituído pelo ronco potente da moto que se aproximava, um cavalo de aço salvador. Kai parou bruscamente à sua frente, o capacete escondendo seu rosto, mas não a urgência em seus gestos. Isla correu para ele, e as lágrimas, enfim, transbordaram. Caíram grossas e negras, carregadas da máscara à prova d'água, manchando o peito imaculado do vestido de noiva. Cada lágrima era um traço de carvão no pergaminho de sua condenação. Sem palavras, Kai a puxou para um abraço apertado, sentindo o corpo dela tremer contra o seu. Depois, com cuidado e determinação, a ajudou a subir na garupa da moto, ajustando as pregas volumosas do vestido como pôde. "Segura firme em mim," ele disse, sua voz abafada pelo capacete, mas firme. Ela se agarrou a sua cintura, enterrando o rosto em suas costas. A moto arrancou, rugindo contra o asfalto, levando-a para longe da igreja, da falência, do destino armado. As lágrimas não paravam. Escorriam em rios silenciosos enquanto a cidade se transformava em um borrão de luzes. O vento arrancava seu véu, levando-o para trás como uma bandeira branca de rendição a um novo destino. Dentro da igreja de São Máximo, o murmúrio dos convidados havia se transformado em um zumbido preocupante. Duas horas de atraso eram um escândalo. O senhor Morgan, com o colarinho da camisa parecendo enforcá-lo, encaminhou-se até Ezra Atlas, que permanecia impávido diante do altar, as mãos calmas atrás das costas. Com a cabeça baixa, o pai de Isla sussurrou, com os lábios trêmulos: "Ela... fugiu, senhor Atlas. Desapareceu." Ezra não se virou. Seus olhos permaneceram fixos na grande porta de carvalho da igreja. Então, lentamente, um sorriso estreito tocou seus lábios. Ele se voltou para a assembleia, e sua voz, calma e poderosa, cortou o murmúrio como uma faca. "Parem de cochichar." O silêncio caiu instantaneamente, pesado e carregado. "Hoje é o meu casamento," ele prosseguiu, a voz ecoando sob a abóbada. "Se comportem." O senhor Morgan balbuciou, perplexo. "Como assim? O casamento não pode... a Isla fugiu!" "Eu ouvi perfeitamente, Morgan," Ezra disse, ajustando o gemônio de uma das mangas de seu fraque impecável. "E não é um problema. Simplesmente vou buscar minha esposa e trazê-la de volta." "Mas... nós não sabemos onde ela está!" "Eu sei." A afirmação, dita com tanta naturalidade, congelou o ar. O senhor Morgan abriu a boca, mas nenhum som saiu. "Como o senhor...?" "Isso é irrelevante," Ezra interrompeu, começando a caminhar com passos largos e decididos pelo corredor central. Os convidados se afastavam, abrindo-lhe passagem, hipnotizados pela sua calma aterradora. Ao chegar à grande porta, ele a empurrou e, no limiar, virou-se pela última vez. A luz do final da tarde o iluminou por trás, criando uma silhueta imponente. "Senhoras e senhores," anunciou, sua voz projetando-se com autoridade absoluta. "Aguardem apenas mais quinze minutos. A noiva está a caminho." A porta fechou-se atrás dele. Lá fora, cinco carros pretos e brilhantes, motores já roncando, aguardavam em fila. Ezra entrou no primeiro. Antes de dar a ordem de partida, ele pegou seu celular. Na tela, um mapa pulsava suavemente. Um pequeno ponto vermelho piscava, movendo-se pela estrada costeira. Um rastreador. Minúsculo. Costurado no forro do corpete do vestido, naquele primeiro "encontro" onde ele a presenteou com o suposto estilista. "Segui-la," ele ordenou ao motorista. "E mantenham a distância. Deixem que ela pense que está livre." --- Na estrada costeira, longe da cidade, a moto de Kai deu um solavanco. O motor tossiu, perdeu força por um instante. "O que foi isso?" Isla perguntou, o coração apertado. "Deve ser a gasolina... ou o cabo da vela," ele respondeu, tentando manter a calma, acelerando suavemente. Mas então, o farol dianteiro cintilou uma vez, duas, e se apagou completamente, mergulhando-os em uma escuridão absoluta. Só restou o som do mar à distância e o ronco irregular do motor que lutava para não morrer. Eles estavam cegos, parando no meio da estrada deserta. No carro líder, Ezra observou o ponto vermelho no mapa parar de se mover. O sorriso se alargou. No canto da tela, uma pequena legenda indicava a distância. 2.0 km. Ele tocou o Intercomunicador. "Pronto. Ela parou. Aproximem-se. Agora."






