Fugi do Altar com o Padeiro, mas o Bilionário Me Caçou
Fugi do Altar com o Padeiro, mas o Bilionário Me Caçou
Por: Celso De Almeida
O Voo

Tem um tipo de silêncio que só existe depois que você toma uma decisão que vai destruir tudo. Foi esse silêncio que me envolveu quando sentei no banco de concreto, do lado de fora do prédio vazio da empresa do meu pai.

O vestido de noiva pesava como um caixão de seda. As pérolas. cada uma um empréstimo, cada renda uma garantia que o Clark aceitou em vez de juros. brilhavam fracas sob a luz do poste. O véu voava ao vento, uma bandeira branca de rendição.

Eu devia estar na igreja. Devia estar sorrindo. Devia estar dizendo "sim" para o homem mais rico da cidade.

Em vez disso, eu tava fugindo.

Lembrei da primeira vez que Clark me humilhou. Foi num jantar de negócios, seis meses atrás. Ele me apresentou como "a noiva que vai salvar a empresa do pai dela". Riu. Todo mundo riu. Eu fiquei ali, segurando a taça de vinho, sentindo cada palavra como um tapa.

— Ela é linda, não é? — Clark disse, passando o braço no meu ombro. — E tão... obediente.

Naquela noite, chorei no banheiro do restaurante. A maquiagem escorreu, as lágrimas queimaram, e eu jurei que nunca mais deixaria ninguém me tratar como mercadoria.

Hoje, eu não ia chorar.

O telefone vibrou na minha mão. A foto do meu pai. Atendi, mas não levei ao ouvido. Deixei no colo, como quem deixa uma bomba esperando.

— Onde você está? — a voz explodiu, distorcida.

— Fora da nossa empresa — respondi, e a calma na minha própria voz me assustou.

— Duas. Horas. Iza. — Cada palavra era um tapa. — A gente tá na igreja. Todos estão aqui. Os Clark estão com cara de enterro. Você tá transformando o maior dia da nossa vida num pesadelo.

Respirei fundo. O ar frio cortou como lâmina.

— Eu acho que não quero me casar.

Silêncio. Quando a voz do meu pai voltou, era um sopro de gelo.

— Escolha? Você fala em escolha? Cada pérola desse vestido é um empréstimo. Cada renda é uma garantia que o Clark aceitou em vez de juros. Você não tem escolha, Iza. Você é a escolha que a gente fez pra sobreviver.

— Eu posso trabalhar! Posso assumir a empresa, reestruturar—

— Outras formas? — A risada dele foi amarga, curta. — Os credores não aceitam "outras formas". Eles aceitam a assinatura do Clark Atlas. Esse casamento não é capricho. É a assinatura num contrato de salvação. Agora para de brincar de donzela em perigo e aja como a herdeira que você foi criada pra ser. Venha. Pra. Igreja.

Senti as lágrimas queimarem, mas lutei contra elas. A maquiagem era minha armadura.

— Casamento não é isso, pai. Não é um leilão.

— Do outro lado do altar tá a solução pra todas as nossas dívidas. Isso é amor. Amor por essa família, por esse nome. O amor romântico é um luxo que a gente tá falido pra bancar. Onde você tá, de verdade?

— Já disse. Tô fora.

— Tá sozinha?

O coração deu um salto. O rugido distante de uma moto começou a ecoar na avenida, crescendo como uma promessa. Bruce. Finalmente.

— Não. — A palavra saiu como um tiro. — Tô esperando o Bruce. Tô nesse vestido que parece um caixão de seda. Eu amo ele, pai. E vou embora com ele. Pra bem longe daqui.

— Não se atreva! Não se atreva a arruinar tudo por causa de um sonho bobo com um padeiro! Iza! Iza, você ouviu—?

Desliguei. O som foi substituído pelo ronco potente da moto.

Bruce parou na minha frente. Quando ele tirou o capacete, os olhos dele encontraram os meus — e havia ali a mesma certeza que queimava no meu peito.

— Você veio — sussurrei.

— Disse que viria. — Ele estendeu a mão. — Vamos, Iza. Antes que eles descubram.

Corri pra ele. As lágrimas, enfim, transbordaram. Caíram grossas e negras, carregadas da máscara à prova d'água, manchando o peito imaculado do vestido. Cada lágrima era um traço de carvão no pergaminho da minha condenação.

Mas também era liberdade.

Bruce me puxou pra um abraço apertado. Senti o corpo dele contra o meu, o cheiro de pão e farinha — o oposto de tudo que me esperava na igreja. Depois, com cuidado, me ajudou a subir na garupa da moto, ajustando as pregas do vestido como pôde.

— Segura firme em mim — ele disse.

Agarrei a cintura dele, enterrei o rosto em suas costas. A moto arrancou, rugindo contra o asfalto.

O véu voou, levado pelo vento como uma bandeira branca de rendição.

— Pra onde a gente vai? — gritei por cima do barulho.

— Pra lugar nenhum que eles possam encontrar! Meu pai tem uma casa abandonada na praia. Ninguém sabe dela!

Apertei os braços em volta dele. Pela primeira vez em meses, sorri.

A estrada costeira se abria diante da gente, escura e promissora. As luzes da cidade ficavam para trás, diminuindo até virar um borrão dourado no retrovisor.

Eu consegui.

Eu estou livre.

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