Capítulo 5 Melhor trabalhar

Amélia, assim que desceu do táxi, atendeu o celular, com a voz falsamente irritada.

— Se for para me dar uma bronca por não ter atendido ontem à noite, já aviso que estou ocupada, ela brincou.

— Ontem à noite eu estava ocupado demais arrumando malas para me preocupar com seu sumiço, Méli, a voz de Connor era profunda e trazia o conforto de uma amizade de décadas.

— Estou ligando para me despedir. O táxi para o aeródromo chega em dez minutos.

Amélia sentiu um leve aperto no peito. Connor era o fotógrafo mais talentoso que ela conhecia e o único homem em quem confiava plenamente desde que o mundo desabou quatro anos atrás.

— Já? Para onde é dessa vez?

— Uma aldeia isolada no interior da Amazônia. Vou documentar um ritual que acontece uma vez a cada década. O sinal lá é inexistente, Méli. Vou ficar totalmente fora do mapa pelas próximas semanas.

— Sem sinal? — ela suspirou.

— Vou sentir falta das suas piadas ruins no W******p.

— Eu sei que vai. Mas escute, eu prometo que assim que eu terminar as fotos, volto direto para casa. Volto para as minhas meninas. Cuide da Lizzy por mim. E dê um beijo na Isabel e na Emma. Diga para a Isabel estou levando um kit para a Emma pintar as paredes da sala.

- Cony! Isso não acabou bem na minha casa... ela não tem idade ainda...

- Estou levando um novo para Lizzy também!

Amélia riu com um gemido impotente, imaginando a cena. Connor não era apenas o melhor amigo, ele era o porto seguro daquela família improvisada que haviam construído. Antes eram apenas três, ela, Connor e Isabel Rollsbrook, agora Hawksmoor. Ela se casou com Patrick Hawksmoor, era uma grande amiga, e a pequena Emma, sua afilhada de dois meses, eram o complemento perfeito para a vida de Amélia e Lizzy.

— Pode deixar, Cony. Estaremos te esperando com um jantar especial. Tome cuidado, por favor.

— Sempre tomo. Até logo, Méli.

Ao desligar, Amélia entrou na Aura Art Gallery. Um prédio de arquitetura moderna e imponente que se destacava na paisagem urbana. A fachada, um painel de vidro e aço, refletia a luz do sol de maneira a criar um jogo de sombras e reflexos, dando ao local sofisticação e mistério. O interior era igualmente impressionante, com tetos altos, paredes brancas imaculadas e obras de arte estrategicamente iluminadas, criando um ambiente minimalista e inspirador.

Ao cruzar a entrada, o som dos seus saltos no chão de mármore ecoou. O ambiente era silencioso, cheirando a tinta fresca e luxo discreto.

— Bom dia, Srta. Harrison, cumprimentou a recepcionista.

— Traidora!

- Vamos lá Meli!

- Você me ligou no meio da sua transa Amber!

- É foi... Desculpa, foi... errado! Mas para me redimir eu prometo que vou compensar. Vou ser a sua serva obediente. O cliente chegou ontem de Mônaco! E confirmou a reunião. Prometo que vou levar ele até sala VIP e te avisar imediatamente para a curadoria da nova exposição.

Amélia ajeitou o blazer e estreitou os olhos, então com um suspiro ela aceitou a oferta.

— Obrigada. Peça que tragam um café expresso, ah e os catálogos da série "Sombras e Luz".

Enquanto caminhava até os escritórios, ouviu um som que não estava acostumada a ouvir naquele ambiente. Eram vozes alteradas. Não eram gritos, mas um sussurro ríspido e carregado de tensão que vinha do corredor dos escritórios, atrás das telas monumentais de arte contemporânea.

Amélia caminhou com passos leves, o som de seus saltos abafado pelo tapete da antessala. Ao dobrar o corredor, deparou-se com a cena.

O Senhor Montenegro, o proprietário da galeria e um homem que Amélia sempre admirou pela elegância e gentileza, estava com o rosto fechado. À sua frente, estava Dante, seu filho, que atualmente estava auxiliando na gestão da galeria.

— ...você não tem escolha, meu pai. Os contratos foram assinados, Dante dizia, a voz baixa e cortante.

Ao perceberem a presença de Amélia, o silêncio caiu como uma guilhotina. O Senhor Montenegro recompôs-se imediatamente, mas seus olhos estavam úmidos e cansados.

— Ah, Amélia... bom dia... disse o velho senhor, a voz levemente embargada.

Dante, por outro lado, abriu um sorriso lento, cujos olhos escuros percorreram Amélia com uma intensidade desconfortável.

— Bom dia, Srta. Harrison. É um prazer revê-la, ele disse, com uma polidez que não alcançava o olhar.

Visivelmente constrangido e sem forças para continuar o embate, o Senhor Montenegro ajeitou o paletó.

— Eu... eu já vou indo. Eu preciso...

Sem esperar resposta, o patriarca retirou-se com passos rápidos, deixando um vácuo de mal-estar no corredor.

Dante observou o pai sair e então voltou-se para Amélia, gesticulando para a porta do escritório principal.

— Entre, Amélia. Preciso ter uma palavra com a nossa melhor merchant.

Dentro da sala, o ambiente parecia ter esfriado. Amélia sentou-se na cadeira de couro à frente da mesa de carvalho, mantendo a postura impecável e profissional. No entanto, em vez de ocupar a cadeira de autoridade do outro lado, Dante caminhou até ela e sentou-se na borda da mesa, bem à sua frente, invadindo seu espaço pessoal.

— Como você está, Amélia?

- Bem.

Ele perguntou, a voz agora num tom insinuante, quase um ronronar.

— E, me diga sinceramente... você gosta do seu trabalho aqui na Aura?

Amélia sentiu um arrepio gélido na nuca. Era um sinal de alerta.

— Gosto muito, Sr. Montenegro. A arte é minha vida e sou muito grata a oportunidade que seu pai me deu.

- Ótimo! Você pode ir agora. Sei que tem muito trabalho...

- Certo... Tenha um bom dia, Sr. Montenegro.

Amélia saiu rapidamente,a proximidade com Dante a fazia lembrar do ex. Asqueroso. Melhor trabalhar.

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