Mundo de ficçãoIniciar sessãoAs primeiras luzes do amanhecer estavam entrando pela janela. O corpo de Amélia sentiu o primeiro despertar do dia. Gemeu, a sensação a trazendo de volta à realidade.
O calor da cama era reconfortante, um pequeno corpinho aconchegada em seus braços, os cabelos espalhados pelo travesseiro. Havia um perfume suave e infantil. Minha menina. Doce Lizzy. A filha teve um pesadelo na noite passada e correu para os braços da mãe. Lizzy Harrison, sua filha de quatro anos, estava dormindo tranquilamente, um anjo de cabelos castanhos como os da mãe, mas com vibrantes olhos azuis, como os do pai. Aquele cretino. Amélia Harrison, com 28 anos, tinha os cabelos escuros e os olhos castanhos vibrantes, agora estavam pesados de sono, mas a mente, começou a funcionar. O pânico a atingiu, que horas são? A campainha começou a tocar. Droga! O toque anunciou a chegada de Audrey, a babá de Lizzy. Uma jovem inteligente e muito amável. Morava ao lado de Amélia, sempre ficava com Lizzy quando era preciso e também tinha as chaves do apartamento para emergências, em troca Amélia era generosa com valores que ajudavam na rotina de estudante universitária. Quando a vizinha chegou, Amélia estava terminando de se vestir apressada. - Eu deixei tudo arrumado, estou atrasada para a sessão. Lizzy ainda está dormindo. - Vai tranquila... vamos ficar bem, não se preocupe! Ah, Doutora Monroe! Droga! Como pode esquecer? Tinha que correr. Ela vinha fazendo sessões de terapia para lidar com a ansiedade e também o trauma. Sem pensar duas vezes, Amélia jogou o sapato nos pés e saiu. Não havia tempo. A mente de Amélia estava uma confusão de pânico e adrenalina. Ela saiu de casa, a luz da manhã a atingiu, ainda era cedo, mas a vida da cidade já começava a se mover ao seu redor. Um táxi estava parado na calçada. Amélia entrou, ofegante. Péssimo dia para estar sem carro. - Por favor, para o centro, ela disse ao motorista, a voz firme, mas a mão tremendo ao fechar a porta. - Eu tenho um horário com a terapeuta e já estou trinta minutos atrasada. Após a corrida mais rápida de sua vida, Amélia adentrou o consultório da Doutora Monroe. Sentia o pulmão arder, o ar entrando rasgado enquanto ela atravessava a porta da recepção. O relógio na parede parecia zombar dela. Ela adentrou o consultório da Doutora Monroe sem bater, o corpo ainda vibrando pela corrida. - Eu... consegui... estou, estou aqui! Amélia nunca correu tanto na sua vida, mesmo ofegante ela continuou até entrar na sala. Mas, pela primeira vez em três anos, o atraso não era fruto de uma crise de pânico ou da incapacidade de sair da cama. Ela realmente perdeu o horário. A Doutora Monroe não disse nada de imediato. Ela apenas pousou a caneta sobre o bloco de notas e ergueu uma sobrancelha, ajustando os óculos. Seu olhar clínico percorreu a paciente. Ela não conseguiu. Certeza. — Sente-se, Amélia, disse a doutora, com um meio sorriso quase imperceptível. - Conte... Amélia desabou na poltrona, a voz baixa. — Ontem à noite... Doutora, ontem à noite... foi... foi... terrível! - Bem era uma possibilidade, nós conversamos. - Eu não consegui entrar... - Entendo, vamos falar dos seus sentimentos, então... A Doutora Monroe inclinou-se para a frente, interessada. - Eu fiz como planejamos, me vesti diferente, maquiagem, salto alto... fui até o lounge. - Ótimo, já tivemos um avanço, não? - Não... eu... estava animada, mas a amiga que ia comigo não foi... - Amélia, você não pode delegar as suas responsabilidades! - E-eu sei... mas na porta, havia muitas pessoas e... um rapaz me abordou... ele colocou o braço na minha cintura, eu... As lágrimas vieram incontroláveis. A doutora deixou Amélia extravasar as suas emoções, respeitando o tempo dela. Depois de anos de bloqueio e medo herdados do relacionamento abusivo com o pai de Lizzy, Amélia precisava se libertar do escudo que criou para se proteger, para voltar a sentir, então vinha tentando. — Conte-me tudo, pediu Monroe. Amélia fechou os olhos, a lembrança do bar e das luzes baixas inundando sua mente. — Ele era... Senti... nojo. Não queria que ele me tocasse. Me senti sufocada. — E você sentiu medo? — a terapeuta perguntou com cautela. — S-sim. Achei que podia lidar com o bloqueio, mas senti ele subir como um muro de concreto. Amélia abriu os olhos, que brilhavam com uma mistura de fracasso e lamento. — Eu nunca vou poder amar e ser amada Doutora? Sou uma aberração? A Doutora Monroe disse com a voz serena. - Acalme-se, você só não encontrou o homem certo para derrubar esse muro. Vamos continuar tentando achar o melhor caminho para superar isso. Foi apenas uma noite ruim. Amélia respirou fundo, desta vez com calma. O coração já não martelava de frustração, mas de esperança. - Será? - Sim. A melhor vingança contra o ex é ser feliz com outro. Só precisamos encontrar esse outro. — Não sei se consigo me envolver em um relacionamento. Mas... gostaria de sentir prazer... de sair e me divertir como todo mundo... - Você quer tentar de novo? Ótimo! É um avanço... assimile primeiro, depois talvez, um ambiente diferente? - A senhora acha? - É claro. Você é livre e pode encontrar alguém a hora que quiser e onde sentir segurança. Não existem regras para esse tipo de coisa. Talvez um lugar mais iluminado. - Talvez... eu deva então. Depois da sessão com a terapeuta, a mulher que se refletia no espelho estava retomando sua armadura habitual. Usando uma calça de alfaiataria cinza, uma blusa de seda marfim e um blazer perfeitamente cortado. Cabelos presos em um coque impecável, retocou a maquiagem leve e profissional. Amélia Harrison estava de volta. Como Merchant de arte da Aura Art Gallery, a galeria mais prestigiada da região, era responsável por curar não apenas quadros, mas experiências para a elite da cidade. Precisava se preparar, teria uma reunião importante amanhã. Enquanto o táxi seguia em direção a galeria, o celular vibrou. O nome na tela trouxe um sorriso genuíno ao seu rosto, Connor Hawksmoor.






