Mundo de ficçãoIniciar sessão🌸 ENTRE ESTAÇÕES
Lorenzo. Ele entrou sem dizer nada, como se já fizesse parte do ambiente. Estava sem gravata dessa vez, com as mangas da camisa dobradas e um ar mais… humano. – Bom dia – disse ele, ao se aproximar do balcão. – Bom dia – respondeu ela, hesitante. – Eu li seu bilhete. – E? – Ainda não entendi o que você quer de mim. Lorenzo apoiou as mãos no balcão, olhando para ela com intensidade. – Eu não sei o que quero de mim mesmo. Mas desde que entrei aqui, sinto algo que não sentia há muito tempo: paz. Beatriz desviou o olhar, desconcertada. – Paz não é o que costumo causar – disse ela, tentando quebrar o clima. Ele sorriu. – Você causa agitação. Mas o tipo certo. A que acorda quem estava adormecido. Ela encarou os olhos dele por um segundo a mais do que devia. Um calor estranho percorreu seu corpo. Um arrepio leve. – Quer um café? – perguntou, tentando mudar de assunto. – Só se for o que você fizer. Beatriz foi até o cantinho da cozinha improvisada da livraria. Enquanto preparava o café, sentia o olhar de Lorenzo seguindo cada movimento seu. – Por que você insiste em vir aqui, mesmo sabendo que eu nunca vou vender? – Porque você é a primeira pessoa em muito tempo que não se dobra diante de mim. Ela voltou com duas xícaras e entregou uma a ele. – Talvez eu só esteja tentando proteger o que amo. – E quem protege você? Beatriz congelou por um instante. Aquela pergunta... ninguém a fazia há muito tempo. Ela tomou um gole do café, tentando disfarçar. – Eu me basto. Lorenzo se aproximou levemente. O suficiente para ela sentir o perfume dele, fresco e amadeirado. Não havia nenhuma ameaça, nenhum movimento agressivo. Apenas presença. – Nem sempre precisamos ser nossa única proteção – murmurou ele. Os olhos de Beatriz se ergueram devagar, encontrando os dele. Por um momento, tudo parou. O tempo. O barulho da rua. A respiração. Ele se aproximou mais um pouco. Só mais um pouco. Os rostos estavam a centímetros. Mas então… – Com licença! – disse Clara, entrando de repente na livraria. – Trouxe os livros que você me pediu, Bia! Beatriz afastou-se rápido. Lorenzo também. – Hora perfeita, como sempre – disse ele, com um sorrisinho irônico. Clara olhou de um para o outro e sorriu discretamente. – Atrapalhei alguma coisa? Beatriz limpou a garganta. – Não. Nada. Estávamos só… conversando. Lorenzo pegou o casaco. – Acho que volto depois. E, antes de sair, olhou para Beatriz como se dissesse tudo o que não podia naquele momento. Beatriz levou a mão ao peito. O coração batia descompassado. Ela ainda não sabia, mas a primeira fresta acabava de se abrir. E por ela… entraria um sentimento impossível de conter. Clara não parava de olhar de Beatriz para a porta por onde Lorenzo acabara de sair. – Tá. Agora você vai me explicar o que foi aquilo – disse, deixando os livros sobre o balcão.






