Capítulo 5 - A Página Que Vira Sozinha

🌸 ENTRE ESTAÇÕES

Lorenzo.

Ele entrou sem dizer nada, como se já fizesse parte do ambiente. Estava sem gravata dessa vez, com as mangas da camisa dobradas e um ar mais… humano.

– Bom dia – disse ele, ao se aproximar do balcão.

– Bom dia – respondeu ela, hesitante. – Eu li seu bilhete.

– E?

– Ainda não entendi o que você quer de mim.

Lorenzo apoiou as mãos no balcão, olhando para ela com intensidade.

– Eu não sei o que quero de mim mesmo. Mas desde que entrei aqui, sinto algo que não sentia há muito tempo: paz.

Beatriz desviou o olhar, desconcertada.

– Paz não é o que costumo causar – disse ela, tentando quebrar o clima.

Ele sorriu.

– Você causa agitação. Mas o tipo certo. A que acorda quem estava adormecido.

Ela encarou os olhos dele por um segundo a mais do que devia. Um calor estranho percorreu seu corpo. Um arrepio leve.

– Quer um café? – perguntou, tentando mudar de assunto.

– Só se for o que você fizer.

Beatriz foi até o cantinho da cozinha improvisada da livraria. Enquanto preparava o café, sentia o olhar de Lorenzo seguindo cada movimento seu.

– Por que você insiste em vir aqui, mesmo sabendo que eu nunca vou vender?

– Porque você é a primeira pessoa em muito tempo que não se dobra diante de mim.

Ela voltou com duas xícaras e entregou uma a ele.

– Talvez eu só esteja tentando proteger o que amo.

– E quem protege você?

Beatriz congelou por um instante. Aquela pergunta... ninguém a fazia há muito tempo.

Ela tomou um gole do café, tentando disfarçar.

– Eu me basto.

Lorenzo se aproximou levemente. O suficiente para ela sentir o perfume dele, fresco e amadeirado. Não havia nenhuma ameaça, nenhum movimento agressivo. Apenas presença.

– Nem sempre precisamos ser nossa única proteção – murmurou ele.

Os olhos de Beatriz se ergueram devagar, encontrando os dele. Por um momento, tudo parou. O tempo. O barulho da rua. A respiração.

Ele se aproximou mais um pouco. Só mais um pouco. Os rostos estavam a centímetros.

Mas então…

– Com licença! – disse Clara, entrando de repente na livraria. – Trouxe os livros que você me pediu, Bia!

Beatriz afastou-se rápido. Lorenzo também.

– Hora perfeita, como sempre – disse ele, com um sorrisinho irônico.

Clara olhou de um para o outro e sorriu discretamente.

– Atrapalhei alguma coisa?

Beatriz limpou a garganta.

– Não. Nada. Estávamos só… conversando.

Lorenzo pegou o casaco.

– Acho que volto depois.

E, antes de sair, olhou para Beatriz como se dissesse tudo o que não podia naquele momento.

Beatriz levou a mão ao peito. O coração batia descompassado.

Ela ainda não sabia, mas a primeira fresta acabava de se abrir.

E por ela… entraria um sentimento impossível de conter.

Clara não parava de olhar de Beatriz para a porta por onde Lorenzo acabara de sair.

– Tá. Agora você vai me explicar o que foi aquilo – disse, deixando os livros sobre o balcão.

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