Mundo de ficçãoIniciar sessão🌸 ENTRE ESTAÇÕES
– Às vezes, a gente acha que pode reconstruir o que perdeu... destruindo o que está de pé – disse ela, suave. Ele a encarou. – E às vezes a gente precisa de alguém que nos lembre que não vale a pena. Os dois ficaram ali, se olhando, enquanto o tempo parecia desacelerar. As palavras entre eles eram poucas, mas os silêncios... diziam muito. Lorenzo guardou o livro e se virou para ir embora. – Até breve, Beatriz. – Isso não quer dizer que vou vender – disse ela rapidamente. Ele sorriu, de lado. – Eu não falei disso. Ainda. E saiu, deixando no ar uma confusão de sentimentos que ela não sabia como organizar. O restante da tarde passou devagar. Beatriz tentava se concentrar no trabalho, mas a presença de Lorenzo parecia ter ficado impregnada no ambiente – como o perfume dele, discreto, porém marcante. Ela relia pela terceira vez o mesmo trecho de um romance quando Clara apareceu novamente. – Adivinha quem eu vi entrando num café a duas quadras daqui? Beatriz nem precisava perguntar. – Lorenzo? – Bingo. Sozinho, de novo. E adivinha o que ele pediu? – Um café? – Chá de camomila. Camomila, Bia! Aquele homem tem cara de CEO de filme, mas toma chá de vó. Tem certeza de que você não quer dar uma chance? – Clara... ele ainda quer destruir a livraria. Chá de camomila não muda isso. – Mas você viu os olhos dele? Ele te olha como se te conhecesse de outras vidas. Beatriz riu, apesar da teimosia. – Isso só existe nos livros. – E se você estiver vivendo um livro? Beatriz ficou em silêncio por um momento. Lá fora, o sol finalmente tinha rompido as nuvens. Um feixe dourado entrou pela janela, iluminando a poeira no ar. Era como se o dia estivesse tentando virar a página. Mais tarde, enquanto fechava a loja, Beatriz encontrou uma carta embaixo da porta. Sem envelope. Apenas uma folha de papel dobrada, escrita à mão. _"A maioria das pessoas acredita que histórias começam do nada. Mas elas sempre estão esperando o momento certo para acontecer. Não vim para destruir seu mundo. Vim porque ele me chamou." – Lorenzo._ Beatriz segurou o papel com as mãos trêmulas. Aquilo era... impossível. Surpreendente. Poético. E profundamente perigoso. Ela encostou na porta fechada, os olhos fixos no bilhete. Sentiu o coração bater mais rápido do que gostaria. E se Clara estivesse certa? E se aquela não fosse só uma guerra entre o velho e o novo? E se… fosse o começo de algo que nem os livros saberiam prever? Na manhã seguinte, Beatriz acordou com o bilhete de Lorenzo ainda em sua mente. Ela o havia lido três vezes antes de dormir — e mais duas ao acordar. Havia algo naquela caligrafia firme e ao mesmo tempo delicada que a desarmava. – “Não vim para destruir seu mundo. Vim porque ele me chamou.” – ela repetiu em voz baixa, sentada à mesa da cozinha, com uma xícara de café entre as mãos. Mas o que ele queria dizer com isso? A livraria estava calma naquele dia. Um silêncio confortável preenchia o ar. Beatriz tentava trabalhar, mas seu pensamento ia e voltava como uma página virada pelo vento. Foi então que ouviu a porta se abrir.






