Capítulo 4 - Marcas do Passado

🌸 ENTRE ESTAÇÕES

– Às vezes, a gente acha que pode reconstruir o que perdeu... destruindo o que está de pé – disse ela, suave.

Ele a encarou.

– E às vezes a gente precisa de alguém que nos lembre que não vale a pena.

Os dois ficaram ali, se olhando, enquanto o tempo parecia desacelerar. As palavras entre eles eram poucas, mas os silêncios... diziam muito.

Lorenzo guardou o livro e se virou para ir embora.

– Até breve, Beatriz.

– Isso não quer dizer que vou vender – disse ela rapidamente.

Ele sorriu, de lado.

– Eu não falei disso. Ainda.

E saiu, deixando no ar uma confusão de sentimentos que ela não sabia como organizar.

O restante da tarde passou devagar. Beatriz tentava se concentrar no trabalho, mas a presença de Lorenzo parecia ter ficado impregnada no ambiente – como o perfume dele, discreto, porém marcante.

Ela relia pela terceira vez o mesmo trecho de um romance quando Clara apareceu novamente.

– Adivinha quem eu vi entrando num café a duas quadras daqui?

Beatriz nem precisava perguntar.

– Lorenzo?

– Bingo. Sozinho, de novo. E adivinha o que ele pediu?

– Um café?

– Chá de camomila. Camomila, Bia! Aquele homem tem cara de CEO de filme, mas toma chá de vó. Tem certeza de que você não quer dar uma chance?

– Clara... ele ainda quer destruir a livraria. Chá de camomila não muda isso.

– Mas você viu os olhos dele? Ele te olha como se te conhecesse de outras vidas.

Beatriz riu, apesar da teimosia.

– Isso só existe nos livros.

– E se você estiver vivendo um livro?

Beatriz ficou em silêncio por um momento. Lá fora, o sol finalmente tinha rompido as nuvens. Um feixe dourado entrou pela janela, iluminando a poeira no ar. Era como se o dia estivesse tentando virar a página.

Mais tarde, enquanto fechava a loja, Beatriz encontrou uma carta embaixo da porta. Sem envelope. Apenas uma folha de papel dobrada, escrita à mão.

_"A maioria das pessoas acredita que histórias começam do nada. Mas elas sempre estão esperando o momento certo para acontecer.

Não vim para destruir seu mundo. Vim porque ele me chamou."

– Lorenzo._

Beatriz segurou o papel com as mãos trêmulas. Aquilo era... impossível. Surpreendente. Poético.

E profundamente perigoso.

Ela encostou na porta fechada, os olhos fixos no bilhete. Sentiu o coração bater mais rápido do que gostaria.

E se Clara estivesse certa?

E se aquela não fosse só uma guerra entre o velho e o novo?

E se… fosse o começo de algo que nem os livros saberiam prever?

Na manhã seguinte, Beatriz acordou com o bilhete de Lorenzo ainda em sua mente. Ela o havia lido três vezes antes de dormir — e mais duas ao acordar. Havia algo naquela caligrafia firme e ao mesmo tempo delicada que a desarmava.

– “Não vim para destruir seu mundo. Vim porque ele me chamou.” – ela repetiu em voz baixa, sentada à mesa da cozinha, com uma xícara de café entre as mãos.

Mas o que ele queria dizer com isso?

A livraria estava calma naquele dia. Um silêncio confortável preenchia o ar. Beatriz tentava trabalhar, mas seu pensamento ia e voltava como uma página virada pelo vento.

Foi então que ouviu a porta se abrir.

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