Capítulo 6 - A Primeira Fresta

Beatriz ainda estava zonza. As palavras de Lorenzo, o olhar intenso, a proximidade… tudo parecia um sonho.

– Eu… não sei – respondeu, num sussurro. – Ele está diferente.

– Diferente como? Menos arrogante, mais pegável? – brincou Clara, erguendo as sobrancelhas.

– Não é isso… é como se ele estivesse… quebrado. Mas tentando se reconstruir. Tem uma tristeza nos olhos dele. Uma coisa que me puxa.

Clara ficou séria por um instante.

– Cuidado, Bia. Gente quebrada pode ser perigosa, mesmo sem querer.

Beatriz assentiu, mas no fundo já sabia que estava envolvida até o pescoço.

Mais tarde, já sozinha, ela resolveu arrumar o estoque dos livros antigos, nos fundos da loja. Estava mexendo em uma caixa esquecida, com etiquetas desbotadas, quando encontrou um envelope amarelado com a caligrafia da tia-avó.

> “Helena – Arquivo pessoal”

Beatriz congelou.

Helena era o nome da irmã que ela havia perdido anos atrás. A irmã que simplesmente desapareceu aos 19 anos, sem deixar rastros.

O envelope continha algumas anotações, fotos e uma carta nunca enviada.

> “Helena, sei que você está fugindo de algo maior do que podemos entender. Mas se algum dia decidir voltar, saiba que seu lugar aqui continua esperando. Não importa o que tenha feito. Você ainda é minha menina corajosa.”

Beatriz sentou-se no chão, com lágrimas nos olhos. Era a primeira vez em anos que sentia a irmã tão perto.

De repente, sentiu uma presença atrás dela.

– Está tudo bem?

Ela se virou rapidamente. Era Lorenzo. De novo. Silencioso como sempre.

– Como você entrou?! – ela perguntou, secando as lágrimas rapidamente.

– A porta estava encostada. Bati, mas você não ouviu.

Beatriz tentou guardar os papéis, mas ele já havia visto.

– Helena – ele disse, olhando o nome no envelope. – Esse nome…

– É da minha irmã – disse ela, tentando manter a voz firme. – Ela desapareceu há dez anos. Nunca mais tivemos notícia.

Lorenzo ficou em silêncio. Um silêncio pesado. E então disse, com a voz baixa:

– O nome dela era Helena Soares?

Beatriz arregalou os olhos.

– Sim… por quê?

Ele respirou fundo, desviando o olhar.

– Porque… ela foi minha noiva.

O mundo de Beatriz desabou.

Beatriz sentiu o chão sumir sob seus pés.

– Sua… noiva?

Lorenzo assentiu, os olhos baixos, a expressão dura de alguém que revive uma dor antiga.

– Conheci Helena há doze anos, numa conferência de literatura. Ela era radiante, espontânea, teimosa. Como você. Nos apaixonamos rápido. Talvez rápido demais.

Beatriz se encostou na parede, tentando entender.

– Por que nunca me contaram isso? Por que minha família nunca disse nada?

– Porque foi tudo... um segredo. Helena não queria que ninguém soubesse. Estava fugindo de algo, Beatriz. Ela nunca me disse o quê. E um dia, simplesmente… sumiu. Sem explicação. Sem despedida.

O coração de Beatriz batia como um tambor desgovernado.

– Você... procurou por ela?

– Por meses. Eu movi céu e terra. Contratei detetives, invadi arquivos, fiz tudo o que podia. Mas foi como se ela tivesse sido apagada do mundo.

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