Capítulo 2 — A Intrusa

Juro que eu não sei por quanto tempo eu corri como uma doida pela pista do aeroporto. Menos ainda como a segurança privada não interveio. E, sinceramente, não sabia se ainda teria fôlego para continuar fugindo do meu marido. Pelo menos, depois de algum tempo, as vozes e os passos dos seus capangas desapareceram.

O nevoeiro começava a se dissipar naquela parte do aeroporto. A garoa já tinha parado. Olhei por cima do ombro e constatei o vazio atrás de mim. Era quase um milagre. Ou uma emboscada. Eu não parei para descobrir.

Eu corri tanto sem rumo, que esbarrei na parede de um hangar. Dentro, um jato branco de portas abertas e escada acoplada para algum passageiro bilionário entrar. Eu nem desconfiava que, a partir dali, não tinha mais volta para mim. Que aquele avião que parecia uma miragem no deserto selaria o meu destino para sempre. Nem nos meus sonhos eu poderia imaginar que, dentro de 15 minutos, eu ia conhecer o pai da minha filha.

Por enquanto o meu coração só pensava em fugir. Então minha imaginação fantasiou que aquele jatinho era a solução. Eu me imaginei escondida no banheiro dele. Trancada lá dentro até o avião decolar e pousar em outra cidade. Cheguei a dar alguns passos em direção à escada. Depois recuei.

Cuidado com o truque, Laura. Melhor continuar por outro caminho.

Pensando bem, eu achei mais seguro sair. Só que mal pisei para fora do hangar, os passos e as vozes voltaram. Eram eles. De novo. As silhuetas ainda não tinham surgido na penumbra, mas o chiado do walkie-talkie não deixava margem para dúvida. Juan me encontrou. Desgraçado!

— O que eu faço agora?

Olhei para todos os lados, não via nada.

— Pensa, Laura. Pensa.

Nessa agonia, eu voltei para dentro do hangar como uma folha arrastada pelo vento. Minhas pernas nunca subiram tão rápido uma escada em toda a vida. Onze degraus. Cada um deles uma montanha sem topo. E eu, já sem fôlego, passei com tudo pela porta.

Lá dentro, dois pilotos conversavam no cockpit. Nenhum deles ouviu meu atropelo na escada ou minhas pisadas intrusas no vão do corredor. Talvez, pensaram que fosse o restante da tripulação. Na minha cabeça, Deus ajudou para que eu me trancasse no banheiro sem ser vista. Logo que o trinco deslizou, o meu corpo despencou sobre a tampa do vaso, e não pude fazer nada nos próximos segundos que não o mais profundo silêncio para torcer e esperar.

Dois medos me consumiam: o de que o meu marido abrisse a porta e me sacasse dali em cima dos ombros. E que aquele avião pertencesse a um conhecido dele. Havia uma enorme possibilidade de acontecer as duas coisas.

Passado algum tempo, vozes de duas mulheres preencheram a cabine. Scarpins para lá e para cá. Eram as comissárias conversando. Eu as vi pelo olho mágico, quando eu descobri o que era aquele botãozinho no canto da porta.

As moças organizavam copos de cristal com a precisão de quem prepara um banquete real. Para vossa majestade, o dono do avião. Outro bilionário espanhol. Pensei. Um velho poderoso, acompanhado de sua esposa que morre sem uma bolsa Chanel.

— Ótimo! Quem será o pavão?

Meu coração só torcia para que não fosse nenhum amigo do Juan, pois já seria um pouco demais. Azar demais. E existe, sim, um limite para a falta de sorte de uma mulher. Eu ainda não sabia, mas em poucos segundos, o homem que mudaria a minha vida ia entrar naquele avião, se sentar à janela e beber um copo de uísque puro.

Os três comissários — um rapaz, que veio da copa, e as duas moças que já estavam ali — tomaram posição na porta para receber o ilustre passageiro. E eu fiquei espiando, esperando, com meu coração batendo nos ouvidos.

À medida que os passos ecoavam mais perto, a sombra alargava na fuselagem. Duas silhuetas. Nenhuma de vestido. Olhei com atenção, enquanto a equipe sorria para os dois homens jovens desacompanhados, de ternos, que acabaram de embarcar. Um loiro e o outro com os cabelos mais castanhos que o meu. Os dois eram bonitos e altos. Pareciam dois modelos internacionais.

— Buenas noches! — disse o loiro, o primeiro que entrou.

Assim de vista, eu nunca os vi. Tive certeza. Pelo menos, eu me lembraria dos cabelos dourados que combinavam com o cavanhaque de galã de um deles. Ou do nariz afilado do outro. Do seu casaco preto e sapatos tão polidos que refletiam as luminárias do chão. Dos seus cabelos lisos cobrindo a testa que nunca viu um dedo do sol. Foi para este homem que os comissários fizeram maior reverência, e ele retribuiu com um aceno de cabeça breve e formal.

Então é você! Você que é o chefe. O que se acha o dono do mundo.

Antes de se acomodar na poltrona da janela, o todo-poderoso tirou o casaco e o entregou à comissária ruiva, de quem os olhos do amigo não subiam da saia. A moça saiu e ele se sentou de pernas cruzadas, desabotoando as mangas sem olhar. Também não olhava para o amigo. Este, por pouco, não quebrou o pescoço de tanto se esgueirar, até o par de pernas da comissária sumir atrás da cortina.

— Com licença. — Uma comissária loira se aproximou, empurrando o carrinho das garrafas. — Os senhores aceitam uma bebida?

— Obrigada, Carol. Estou satisfeito — disse o chefe bilionário, com a voz rouca sedutora de um locutor de rádio. Para minha surpresa, em inglês. — O que eu quero é saber a que horas vamos decolar. Pelo que vi, a névoa já se dissipou.

— Esqueça, Carol — respondeu o loiro, dando um leve sorriso. — Ele está brincando. Eu vou querer um Barolo, e o Michael um uísque puro. Duplo.

— Michael! — murmurei. — Eles não são espanhóis.

Tive a impressão de que aquela frase saiu mais alta do que um murmúrio, pois o rosto do tal do Michael se voltou com tudo para trás, na direção do meu banheiro. E eu imediatamente cobri minha boca.

Meu Deus, ele ouviu!

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App