Juro que não sei por quanto tempo corri como uma cega pela pista molhada do aeroporto. E, sendo bem sincera, não sabia se ainda teria fôlego para continuar fugindo do meu marido.
Eu precisava sumir e apagar as digitais dele da minha pele. Precisava esquecer as frases sussurradas no nosso quarto naquela tarde.
Mas eu ainda conseguia ouvir o som do vestido deslizando pelo meu quadril diante do espelho. Estava me arrumando para pegar aquele maldito jatinho particular para a Suíça quando a porta se abriu sem aviso e ele entrou no closet. Meu sangue fugiu. Tentei puxar o zíper para cobrir as costas, um gesto instintivo de defesa que Juan Hugo Montoya sempre chamava de “timidez encantadora”.
Ele não recuou. Veio de camisa aberta e o seu reflexo cresceu atrás de mim. As duas mãos grandes pousaram nos meus ombros e afastaram os cabelos do pescoço.
— Por favor, deixe-me vê-la.
Senti o calor do beijo úmido na curva sensível da orelha, logo abaixo do brinco de pérola. Depois, o peso das palmas cobrindo o meu ventre.
— Você vai ficar tão linda grávida — sussurrou, rouco. Uma mão subiu devagar e parou no vale entre meus seios. — Poderíamos tentar fazer um filho agora mesmo...
Meu coração disparou.
— Não temos tempo, Juan.
Dei um passo nervoso para mais perto do espelho, mexendo no cabelo de qualquer jeito.
— Um avião nos espera.
— Minha querida — ele se aproximou, com os braços me cercando e me prendendo contra o peito de novo —, o avião é meu, e ele vai para onde eu quiser, na hora que eu bem desejar.
A forma como Juan me encarava pelo reflexo e como suas mãos reivindicavam meu corpo ainda pulsava viva em minha memória. Enquanto eu fugia, era impossível não sentir repugnância dessas lembranças.
— A clínica está pronta em Berna, meu amor — ele disse, depositando outro beijo em meu pescoço. Outro selo. — A inseminação será um sucesso, Laura. Você enfim me dará o que eu quero. Meu herdeiro homem.
Herdeiro. Berna. Inseminação. Juan não me via como uma esposa, uma mulher com vontade própria. Eu era apenas um frasco de luxo para realizar os seus desejos. Pois que ele arranje outra! Esta estava voando agora, disposta a pagar o preço que fosse para recuperar a liberdade, mesmo que isso significasse nunca mais pisar na Espanha.
Corri tanto que não vi quando os capangas perderam meu rastro.
O nevoeiro começava a se dissipar naquela parte do aeroporto de Barajas. A garoa já tinha parado. Olhei por cima do ombro e constatei o silêncio atrás de mim. Nenhum segurança me perseguindo era quase um milagre. Ou uma emboscada. Não parei para descobrir.
Foi quando encontrei o hangar. Não outro, mas aquele hangar. Tinha que ser ele. Dentro, havia um jato branco de portas abertas e uma escada acoplada para algum passageiro bilionário entrar.
Eu nem desconfiava — nem nos meus sonhos — do empresário inglês que eu iria conhecer dentro de quinze minutos.
Por enquanto, o meu coração só pensava em fugir. Então desisti do hangar.
Assim que minhas botas tocaram o chão do lado de fora, os passos e as vozes voltaram. Eram eles. De novo. As silhuetas dos capangas ainda não tinham surgido na penumbra, mas o chiado do walkie-talkie não deixava dúvida. Juan me encontrou. Desgraçado!
— O que eu faço? O que eu faço?
Olhei para todos os lados. Não via saída. O jatinho atrás de mim foi minha única salvação. Disparei para a escada sem medir as consequências. Minhas pernas nunca subiram tão rápido vinte e dois degraus de salto alto. Cada um uma montanha sem topo. E eu, já sem fôlego, passei com tudo pela escotilha.
Lá dentro, ninguém ouviu minha invasão. Foi Deus quem ajudou para que eu me trancasse no banheiro sem ser vista. Logo que o trinco deslizou, meu corpo desabou sobre a tampa do vaso, e eu não pude fazer nada além de chorar, torcer e esperar.
Passado algum tempo, duas comissárias surgiram da copa conversando. Eu as vi pelo olho mágico, quando descobri o que era aquele botãozinho no meio da porta. As moças organizavam copos de cristal com a precisão de quem prepara um banquete real. Para vossa majestade, o dono do avião. Julguei. Outro bilionário espanhol.
— Quem será o pavão dessa vez?
Meu coração só torcia para que não fosse nenhum amigo do Juan, pois já seria um pouco demais. Azar demais. E casar com Juan Montoya deveria ser o limite para a falta de sorte de uma mulher. Mas o destino começava a contagem regressiva. Em questão de segundos, o verdadeiro amor da minha vida iria entrar naquele avião, se sentar à janela e beber um copo de uísque puro.
Alguém subia as escadas. As duas comissárias largaram os copos e tomaram posição na porta para receber o ilustre passageiro. Fiquei espiando, esperando, com o coração na boca.
À medida que os passos ecoavam mais perto, a sombra se alargava na fuselagem.
Duas silhuetas. Nenhuma de vestido. Dois homens desacompanhados, de terno, embarcaram. Um loiro e o outro com os cabelos mais castanhos e lisos que os meus. Ambos eram bonitos e altos, pareciam modelos internacionais.
— ¡Buenas noches! — disse o loiro, o primeiro a entrar. O mais simpático.
De vista, eu nunca os vira com Juan. Tive certeza. Eu me lembraria dos cabelos dourados que combinavam com o cavanhaque de galã de um deles. Ou do nariz arrogante do outro. Do seu casaco preto e sapatos tão polidos que refletiam as luminárias azuis do chão. Dos seus cabelos cobrindo a testa que nunca vira um dedo de sol. Foi para este homem mais alto e sério que as comissárias fizeram uma reverência maior, e ele meneou a cabeça, breve e formal.
— Então é você — sussurrei. — Você que é o chefe. O que se acha o dono do mundo, aposto. Mas quem é você?
Rico e bonito eu já estava vendo. Faltava um nome e definir o grau de perigo que ele representava.
Antes de se acomodar na poltrona da janela, o todo-poderoso tirou o casaco e o entregou à comissária ruiva, de cujas pernas os olhos do loiro não subiam. A moça saiu e ele se sentou de pernas cruzadas, desabotoando as mangas sem olhar. Também não olhava para o amigo. Este, por muito pouco, não quebrou o pescoço de tanto se esgueirar para observar a comissária até ela sumir atrás da cortina.
Dois cafajestes. Concluí cedo demais. Só que um era descarado, o outro esnobe.
— Os senhores aceitam uma bebida? — a comissária voltou.
— Obrigado, Carol. Estou satisfeito — disse o esnobe, com a voz rouca contida. Para minha surpresa, em inglês. — O que eu quero é saber a que horas vamos decolar. Pelo que vi, a névoa já se dissipou.
— Esqueça, Carol — respondeu o loiro descarado, dando um largo sorriso. — Ele está brincando. Eu vou querer um Barolo, e o Michael, um uísque puro. Duplo.
— Michael! Eles não são espanhóis — murmurei.
Tive a impressão de que aquela frase saiu mais alta do que um murmúrio, pois o rosto do tal Michael se voltou rápido por cima do paletó, na direção do banheiro. Imediatamente, cobri minha boca.
Droga, será que ele me ouviu?