Capítulo 3 — Prazer, Laura Durán

Roí a unha do mindinho olhando a porta, esperando o flagra. Se ele ouviu, por que não veio?

Porque Michael não ouviu. Fui apenas vítima da minha imaginação em modo de sobrevivência.

Exceto a minha presença intrusa, o interior do avião permanecia quieto. Enquanto a comissária servia mais uma dose de vinho, Michael perguntou ao outro sobre os últimos detalhes de uma certa contratação.

— Hã, Michael... há um pequeno impasse.

— Impasse? Que tipo de impasse?

— Um com que você não precisa se preocupar.

— Paul!!

Paul. O nome do outro rico era Paul. Pensando bem, até que combinava com a cara de cafajeste do dono.

— A tradutora — Paul começou. — A nossa tradutora vai ser substituída.

O copo de uísque parou nos lábios de Michael.

— É uma piada? Diz que é.

— Não, não é brincadeira. Gostaria que fosse. Mas nós estamos mesmo sem tradutora... por enquanto.

— Agora que você diz?

— A Kate só me ligou na saída do hotel.

— Ligue de volta e peça que encontre outra tradutora, imediatamente!

— Michael, sabe que horas são em Londres? A Kate tem filhos, sabia?

— Eu não me importo quem, um dos dois vai resolver essa confusão.

— Pronto. Vai começar o drama. Relaxa. Confie em mim.

— Sempre que me pede para confiar em você, a minha alergia aumenta em 300%. Nós temos um problema real aqui, Paul. Eu preciso de uma tradutora de espanhol. Pra já!

Uma tradutora? Meus olhos faiscaram. Eles precisam de uma tradutora de espanhol? Deus sabe que o plano nasceu instantâneo na minha cabeça.

Um belo disfarce. Exatamente o que eu precisava. Bastava afiar meu dom para atuação e garantir o papel. Se eu conseguisse a proeza por algumas horas, depois delas eu estaria fora do alcance do meu marido. Minha chance real de ser livre.

Radiante de esperança, eu me olhei no espelho da pia e quase desanimei. Ali estava o reflexo de uma desgrenhada. A maquiagem borrada, os cabelos bagunçados.

— Jesus! Quem me contrataria assim?

Comecei a limpar minha cara com água e lenços de papel. Fiz da mão uma escova de cabelo, depois passei o único batom da bolsa. Um de cereja. Após alguns minutos tirando e botando, desamassando aqui e ali, eu me considerei qualificada para assumir meu emprego de fachada.

Mas não foi possível segurar o nervosismo na hora de abrir a porta e abandonar meu esconderijo. Foi difícil encarar a luz da cabine revelando a minha presença enquanto avançava pelo corredor. O eco dos meus saltos fez os dois homens olharem em sincronia na mesma direção.

— ¡Buenas noches!

Parei diante deles e vi dois ricos de olhos arregalados.

— Mas quem é você? — Michael indagou.

— Soy Laura. A traductora substituta. Mucho gusto.

O loiro piscou, confuso, e os dois trocaram um curto olhar, sem nenhum deles apertar minha mão. Michael voltou o rosto e me encarou. De perto, como posso dizer? O homem era, pelo menos, duas vezes mais charmoso, envolto em um perfume de oudh que eu já senti. Mas em quem? Quando?

— Está me dizendo que a senhorita que caiu, assim, do céu, é a minha tradutora de espanhol?

Que inferno de homem cético. Por que ele tem que ser desses? Sorri.

— Sim, senhor. Fui enviada para substituir a tradutora de espanhol.

— Michael, não fui informado de nenhuma substituta.

— Mas eu sou. Estou aqui para servi-los.

— E onde é que a senhorita estava esse tempo todo?

— A bordo. Acontece que os senhores ainda não tinham embarcado quando eu cheguei. Eu retocava a maquiagem no banheiro e não tive tempo de cumprimentá-los. Peço desculpa.

— Retocando a maquiagem? — Michael apontou para os meus pés. — Mas não tirou a lama dos sapatos.

Olhar para baixo e ver a lama seca nas minhas botas não doeu tanto quanto o olhar insolente daquele riquinho metido a besta.

— Mas que constrangedor — respondi. — Eu concordo que lama não é o melhor cartão de visita para causar uma boa primeira impressão. Assim, eu espero, de verdade, que a minha fluência em cinco idiomas compense a questão da minha aparência.

— Cinco idiomas? — Michael descruzou as pernas. Puxou o terno. — Você fala mesmo cinco idiomas?

— Sim. Inglês, italiano, português, francês e o meu de origem, o espanhol.

Cada idioma mencionado era como uma chave mágica abrindo infinitas portas. E lá estava eu, de pé, prestes a ser contratada. A lama nas minhas botas? Mas quem é que se lembrava dela?

— Michael, nós precisamos dessa mulher.

Sim, aqueles ingleses precisavam, e com urgência, das minhas habilidades linguísticas. E eu, de um avião. Nunca existiu um contrato tão justo.

— Muito bem, senhorita. Sente-se. — Michael apontou para a poltrona vazia da frente. — O jato já vai decolar, e nós ainda temos pontas soltas.

— Claro. — Sentei.

— Como é que disse que se chama?

— Laura. O meu nome é Laura.

— Laura de que?

A minha alma foi e voltou para o corpo. Era chegada a hora de usar meus documentos falsos pela primeira vez, uma coisa mais simples na televisão.

— A senhorita vai responder?

— Durán. O meu sobrenome é Durán. — Não era mais Duarte ou Montoya. — Eu me chamo Laura Durán. E é um prazer conhecê-lo, senhor.

Para além da minha expectativa, eu recebi um caloroso aperto de palmas, desses que prende o olho no olho e nos obriga a desviar primeiro.

— Michael Grant. Mas a agência deve ter informado.

— Michael Grant? O senhor é o Michael Grant, CEO da Scalibur?

— Vejo que conhece a minha empresa, mas não sabia que trabalharia comigo.

— Que incomum — argumentou Paul. — Curioso.

— Não. A agência me informou, sim, o nome do cliente.

— Então por que a surpresa?

— A verdade?

— Sempre! — Michael cruzou as pernas de novo.

— Eu pensei que o senhor fosse um pouquinho mais velho.

— O Michael? Mais velho? — Paul desatou a rir.

Michael rolou os olhos e me perguntou o motivo. Respondi que um império da grandeza da Scalibur, uma gigante dos comésticos, é erguido e sustentado por pessoas bem experientes.

— E o senhor é muito jovem ainda.

— Competência não se mede pela idade e pela aparência de uma pessoa, senhorita Durán. Aprenda comigo nesses dois dias em que trabalhará ao meu lado.

— Mas sabe, Laura, você não está de todo errada. Às vezes, esse Michael de 34 anos age, sim, como um rabugento de 90.

— A minha vida particular não está em discussão. Como jamais estará! Guarde os seus comentários para si mesmo, Paul.

Essa foi a sua maneira sutil de me avisar “não se meta na minha vida, estranha”. E, antes de mais gracinhas do amigo, o senhor Grant enfiou a mão no bolso e puxou um lenço dobrado.

— Tome, senhorita. Pelo amor de Deus, limpe as suas botas.

— Com o seu lenço? Não. Eu limpo com o papel do banheiro.

— Como quiser. — O lenço foi guardado de volta no bolso.

Junto de um suspiro, Michael olhou para o relógio redondo no pulso.

— Afinal, por que raios estamos demorando tanto para decolar?

O piloto respondeu pelo interfone que a torre pediu para aguardar mais alguns minutos.

— Há um incidente com outro jatinho na pista, senhor.

— Que tipo de incidente?

— Da parte de um empresário espanhol — informou o comandante. — Juan Hugo Montoya está solicitando permissão para entrar neste avião, senhor Grant.

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