Os segundos foram passando e se empilhando uns sobre os outros com uma lentidão quase cruel, e nada aconteceu. O engraçado é que eu tinha certeza de ter ouvido passos, um rangido no assoalho, a respiração de alguém parado do outro lado da porta.
Se o homem chamado Michael ouviu, por que um comissário não veio me tirar do banheiro?
Tomei coragem e olhei de novo pelo olho mágico. Descobri que fui apenas vítima da minha fértil imaginação em modo de sobrevivência. Exceto pela minha presença intrusa ali, o interior do avião permanecia em ordem.
Observei a comissária servindo outra taça de vinho ao homem loiro, enquanto Michael perguntava a ele os últimos detalhes de uma certa contratação.
— Hã, Michael... há um pequeno impasse.
— Impasse? Que tipo de impasse?
— Um com que você não precisa se preocupar.
— Paul!!
Paul. O nome do outro rico era Paul. Pensando bem, combinava com a cara de cafajeste do dono.
— A tradutora — Paul coçou a testa. — A nossa tradutora ficou doente.
O copo de uísque parou nos lábios de Michael.
— Essa piada não teve graça.
— Não, não é brincadeira. Gostaria que fosse. Mas nós estamos mesmo sem tradutora... por enquanto.
— Agora que você informa? Nós temos um problema real aqui, Paul. O Scaliburshine precisa de uma tradutora de espanhol.
Uma tradutora? Meus olhos brilharam. Eles precisam de uma tradutora de espanhol? Deus sabe que o plano nasceu instantâneo na minha cabeça.
Que ótimo disfarce! Exatamente o que eu precisava. Bastava afiar meu dom para atuação e garantir o papel. Se eu conseguisse me passar por tradutora de espanhol por algumas horas, depois estaria livre em outra cidade ou país. Onde quer que aquele jatinho pousasse.
Radiante de esperança, me olhei no espelho da pia e quase desanimei. Ali estava o reflexo de uma desgrenhada. A maquiagem borrada, cabelos bagunçados.
— Ninguém vai me contratar assim.
Comecei a limpar meu rosto com água e lenços de papel. Dei um jeito no cabelo e retoquei o batom de cereja. Após desamassar o vestido, me considerei qualificada para assumir o emprego de fachada.
Mas não foi possível segurar o nervosismo na hora de abrir a porta e abandonar o esconderijo. Foi difícil encarar a luz da cabine revelando a minha presença enquanto eu avançava pelo corredor. O eco dos meus saltos fez Paul e Michael olharem em sincronia na minha direção.
— ¡Buenas noches! — Parei diante deles e vi dois homens de olhos arregalados. Um par de olhos verdes e um céu limpo.
— Mas quem é você? — Michael indagou, o dono do olhar azul.
— Soy Laura. La traductora sustituta. Mucho gusto.
Paul piscou, confuso. — Eu não entendi uma só palavra.
— Eu disse que sou Laura, a tradutora de espanhol substituta.
— Espera — Michael pousou o copo de uísque na ponta da mesa —, está nos dizendo que a senhorita, que caiu assim do céu, é a nossa tradutora de espanhol?
Que inferno de homem cético. Por que ele tem que ser desses?
— Sim, senhor. Fui enviada para substituir a tradutora... que ficou doente.
— E onde é que a senhorita estava esse tempo todo? Sete minutos de atraso.
— A bordo. Acontece que os senhores ainda não tinham embarcado quando eu cheguei. Eu retocava a maquiagem no banheiro e não tive tempo de cumprimentá-los. Peço desculpas.
— Retocando a maquiagem? — Michael apontou para os meus pés. — Mas não tirou a lama dos sapatos.
Olhar para baixo e ver a lama seca nas minhas botas não me irritou tanto quanto o olhar insolente daquele milionário.
— Concordo que lama não é o melhor cartão de visita para causar uma boa primeira impressão. Eu espero que a minha fluência em cinco idiomas compense a questão da minha aparência.
— Cinco idiomas? — Paul assoviou. — Incrível!
Michael somente cruzou as pernas. — Você é mesmo uma poliglota?
— Sim. Inglês, italiano, português, francês e o meu de origem, o espanhol.
Cada idioma mencionado era como uma chave mágica abrindo infinitas portas. E lá estava eu, de pé, prestes a ser contratada. A lama nas minhas botas? Mas quem é que se lembrava dela?
— Michael, nós precisamos dessa mulher.
Sim, aqueles ingleses precisavam, e com urgência, das minhas habilidades linguísticas. E eu, de um avião para sair de Madri. Um contrato perfeito onde todo mundo ganha.
— Muito bem, senhorita. Sente-se. — Michael apontou para a poltrona vazia à frente. — O jato já vai decolar e nós ainda temos pontas soltas.
— Claro. — Sentei.
— Como disse que se chama?
— Laura. O meu nome é Laura.
— Laura de quê?
Minha alma foi e voltou ao corpo. Era a hora de usar meus documentos falsos pela primeira vez. Uma arte mais fácil nos filmes.
— A senhorita vai responder?
— Durán. O meu sobrenome é Durán. — Não era mais Duarte ou Montoya. — Eu me chamo Laura Durán. E é um prazer conhecê-lo, senhor.
Para além da minha expectativa, recebi um caloroso aperto de mão, daqueles que prendem o olho no olho e faz a gente desviar primeiro.
— Michael Grant.
— Michael Grant? O senhor é o Michael Grant que eu estou pensando?
— Como vou saber? Eu não leio mentes.
— O CEO da Scalibur.
— Vejo que conhece a minha empresa, mas não sabia que trabalharia comigo.
— Que incomum — argumentou Paul. — A agência não lhe informou?
— Não. — Droga, eu quase derrapei. — A agência me informou, sim, o nome do cliente.
— Então por que a surpresa?
— A verdade? — Meus olhos passaram do verde curioso de Paul para as sobrancelhas desconfiadas de Michael. — Eu pensei que o senhor fosse um pouco mais velho.
— O Michael? Mais velho? — Paul desatou a rir.
Michael rolou os olhos e me perguntou o motivo. Respondi que um império da grandeza da Scalibur, uma gigante dos cosméticos, costuma ser erguido por pessoas bem experientes.
— E o senhor é muito jovem ainda.
— Competência não se mede pela idade ou pela aparência, senhorita Durán. Aprenda comigo nesses dois dias em que trabalhará ao meu lado.
— Mas sabe, Laura, você não está de todo errada. Às vezes, esse Michael de 34 anos age sim como um rabugento de 90.
— A minha vida particular não está em discussão. Como jamais estará! Guarde os seus comentários para si mesmo, Paul.
Essa foi a sua maneira sutil de me avisar: "Não se meta na minha vida, estranha". Antes de mais gracinhas do amigo, Michael puxou um lenço de linho do bolso.
— Tome, senhorita. Pelo amor de Deus, limpe essas botas.
— Com o seu lenço? Não. Eu limpo com o papel do banheiro.
— Como quiser. — O lenço foi guardado de volta no paletó.
Com um suspiro, Michael olhou para o relógio prateado no pulso. Era meia-noite e vinte.
— Afinal, por que raios não decolamos?
O piloto respondeu pelo interfone que havia um incidente com outro jatinho na pista.
— Só faltava. Que tipo de incidente?
— Da parte de um empresário espanhol, senhor Grant. Juan Hugo Montoya está solicitando sua permissão para entrar agora mesmo neste avião.