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Capítulo 3 — Prazer, Laura Durán

— Mas quem é você? — Michael me perguntou, largando o copo de uísque de lado, sobre a ponta do carrinho de bebidas.

Seus olhos, que agora de perto revelavam um azul mais intenso do que um céu de verão, não perderam o contato com os meus. Aquela foi a primeira vez que ouvi sua voz rouca, levemente aveludada. Um som que desliza agradável pelos ouvidos, ainda que intimidador.

— Sou Laura. Muito prazer.

Estendi minha mão para cumprimentá-lo. Mas aquela palma aberta e meio trêmula suspensa no ar foi deliberadamente ignorada.

— Quer dizer que a senhorita é a nossa tradutora de espanhol? Não se parece em nada com uma intérprete profissional.

Que inferno de homem cético. Por que ele tem que ser desses? Eu me perguntei se as pessoas se parecem com as suas profissões. Uma jardineira tem cara de jardineira?

— Sim, senhor. — Recolhi o braço devagar, e meus dedos se fecharam ao redor das alças da minha Chanel, onde 27 mil dólares repousavam em segredo.

Eu me lembrei das aulas de teatro na infância. Dos dias em que eu rodopiava segurando uma tulipa vermelha na sala da fazenda, ao som do piano da vovó Gemma. Eu dizia que queria ser atriz. Ela ria. Agora eu estava diante da oportunidade perfeita para testar o meu talento, embora eu fosse uma pintora e não uma estrela de cinema.

— Sou tradutora, por mais que não pareça. — Mentira. — Atuo na área há mais de cinco anos e domino o meu trabalho. — Outra mentira grande. — Será um prazer atendê-lo, senhor. — A mais deslavada de todas.

— Onze minutos de atraso. — Ele bateu o indicador no visor do relógio. — Onze. Onde é que a senhorita estava?

— A caminho. Começou a chover de repente e o trânsito da avenida La Hispanidad ficou caótico. Muita névoa. Além disso, precisei passar no banheiro do aeroporto para retocar a maquiagem.

— Estava retocando a maquiagem? — Michael baixou os olhos. — Mas não tirou a lama dos sapatos.

Olhar para baixo e encarar a crosta seca nas minhas botas me irritou menos do que a insolência daquele britânico. Que sujeitinho desagradável, hostil. O único conforto era a certeza de que nunca mais precisaria vê-lo.

— Concordo que lama não seja o melhor cartão de visita para uma boa primeira impressão — retruquei. — Mas espero que a fluência em cinco idiomas compense a questão da minha aparência.

— Cinco idiomas? — Paul se admirou.

Michael apenas arqueou de leve a sobrancelha.

— A senhorita é mesmo poliglota? — ele perguntou.

— Inglês, italiano, português, francês e o meu de origem, o espanhol.

Cada idioma mencionado era como uma chave mágica abrindo infinitas portas. Eu havia encontrado a maçaneta daquele empresário. Decotes ou saias justas não tinham o poder de reter sua atenção. Seu interesse era ativado exclusivamente pela competência. E lá estava eu, de pé, prestes a ser contratada. A sujeira nas minhas botas? Mas quem é que se lembrava agora?

— Michael, nós precisamos dessa mulher. Acertaram em cheio na escolha da intérprete desta vez.

Eu não fazia ideia do que eles falavam, mas concordava com cada sílaba. Sim, aqueles ingleses precisavam, e com urgência, das minhas habilidades linguísticas. E eu, de um avião para sair de Madri.

— Muito bem, senhorita. Sente-se. — Michael indicou a poltrona vazia à frente. — O jato vai decolar em minutos e nós ainda temos pendências a resolver.

— Claro. — Sentei, mantendo a bolsa sobre o colo.

— Como disse que se chama?

— Laura. O meu nome é Laura.

— Laura de quê? Qual o seu sobrenome?

Eu poderia ter inventado outra identidade naquele momento, considerando que não voltaríamos a nos ver. Assim que o seu avião pousasse, seja lá em qual cidade, Laura Montoya ia enfim desaparecer. Contudo, o passaporte falso que a Margô escondera dentro da parede do seu quarto era a rota mais segura para o meu plano.

— Durán. O meu sobrenome é Durán.

Não mais Duarte ou Montoya. Era Durán. Pelo menos, nos documentos que Alonso conseguiu para mim.

— Eu me chamo Laura Durán. E, novamente, é um prazer conhecê-lo, senhor.

Para além da minha expectativa daquela vez, recebi um aperto de mão firme, daqueles que prendem o olho no olho e forçam o mais tímido a desviar o olhar primeiro.

— Michael Grant.

— Michael Grant? — Arregalei os olhos. — O senhor é o Michael Grant que eu estou pensando?

— Como vou saber? Não leio mentes.

— O CEO da Scalibur. A marca de cosméticos com lojas aqui na Espanha.

— Vejo que conhece a minha empresa. Só não sabia que trabalharia comigo.

— Que incomum — comentou Paul. — A agência não lhe informou?

— A agência? Ah, sim... informou, claro.

— Então por que a surpresa?

A verdade? Eu não esperava embarcar no jato particular de um executivo assediado por fotógrafos. Caminhar ao lado dele era como enviar um cartão-postal ao meu marido a cada nova cidade que eu pisasse. Mais do que nunca, eu precisava me afastar daqueles britânicos.

— Eu apenas imaginava que o senhor fosse um pouco mais velho.

— O Michael? Mais velho? — Paul demorou dois segundos para soltar uma risada.

Enquanto ele ria, Michael questionou minha resposta. Argumentei que um império do porte da Scalibur, uma gigante dos cosméticos, costuma ser comandado por CEOs mais experientes.

— E o senhor é muito jovem ainda.

— Competência não se mede por idade ou aparência, senhorita Durán. Aprenda isso nos próximos dois dias em que trabalhará ao meu lado.

Dois dias? Eu tinha agora uma nova informação. E minha curiosidade cresceu sobre o destino final daquela viagem.

— O Michael velho... Meu Deus, isso foi ótimo — disse um Paul de rosto corado e olhos molhados. — Nunca ri tanto. Mas sabe, Laura, você não está de todo errada. Às vezes, esse Michael de 34 anos age mesmo como um rabugento de 90.

— A minha vida particular não está em discussão. Como jamais estará. Guarde os seus comentários para si mesmo, Paul.

Essa foi a sua maneira de estabelecer um limite, um aviso elegante para eu manter distância da sua intimidade. "Mantenha distância da minha vida pessoal, sua estranha de botas sujas". Encerrando as provocações do amigo, Michael Grant puxou um lenço de linho do bolso e o ofereceu entre a ponta de dois dedos.

— Tome, senhorita. Pelo amor de Deus, limpe essas botas.

— Com o seu lenço? De modo algum. Posso usar o papel-toalha do banheiro.

— Como quiser. — O lenço foi guardado de volta no paletó.

Com um suspiro, Michael consultou o relógio. Meia-noite e vinte. Nenhum minuto a menos. Ele abriu os braços.

— Afinal, por que ainda não decolamos?

O piloto informou pelo interfone que havia um incidente com outra aeronave na pista.

— Só faltava isso — resmungou irritado — Que tipo de incidente? Ainda por causa da névoa?

— Negativo, senhor — respondeu o piloto. — Não temos mais névoa.

— Então qual é o problema?

— Uma solicitação está em andamento.

— Que solicitação?

— Da parte de um empresário espanhol, senhor Grant. Juan Hugo Montoya solicita sua permissão para entrar agora mesmo neste avião.

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