MADRI, JUNHO DE 1999
"Pode sonhar o quanto quiser com um herdeiro, Juan, mas você jamais terá esse filho comigo!" Eu repetia na mente. A cada degrau que eu subia do jatinho particular e a mão suada dele empurrava minhas costas, minha decisão ecoava mais forte.
Desde o pôr do sol, os 27 mil dólares roubados do cofre do meu marido pesavam no fundo da minha bolsa. As alças da Chanel cravadas em meu ombro eram uma sentença. Não importava o que acontecesse, Laura Montoya tinha que desaparecer do mapa naquela noite.
─ Don Montoya, bem-vindo a bordo. ─ A comissária sorriu na porta. Juan a empurrou de lado.
─ Não fique no caminho, mocinha. Dê espaço para minha esposa.
Ela baixou a cabeça, dando um passo para trás. A mão do meu marido deslizou da minha lombar e me indicou a cadeira ao seu lado. Eu dei a volta e me sentei na poltrona de frente, perto da janela. Não era que eu gostaria de apreciar a paisagem durante o voo. Meus planos não incluíam decolar, aliás. Seria a rota mais fácil para correr quando chegasse a hora.
Lá fora, uma névoa espessa, cor de chumbo, cobriu o aeroporto de Barajas depois da tempestade repentina. Nenhum piloto recebeu autorização para decolar. Tivemos que esperar o nevoeiro se dissipar primeiro.
Algumas mulheres ficariam frustradas. Eu não. Cada minuto daquele atraso foi saboreado como uma fatia de vitória. Só assim eu não iria para a Suíça com o meu marido. O poderoso Juan Hugo Montoya, o homem que comprava tudo e todos com os seus milhões de dólares. Menos o coração da esposa e um filho.
Dois anos de casados. Ele mal sabia o motivo de eu nunca engravidar. Não era porque eu não podia ser mãe. Aos 29 anos e apenas uma alergia à camarão, eu poderia gerar quantos bebês eu quisesse — exceto os herdeiros da família Montoya. O segredo eram os comprimidos todas as manhãs.
Assim que o Mercedes dele cruzava o portão da mansão rumo à empresa, às sete em ponto, Margô, nossa antiga governanta e minha única aliada naquela casa, trazia a pílula debaixo do copo de suco de laranja na bandeja.
"Está um dia quente". Ela dizia sorrindo para o capanga de pé na porta do meu quarto. Em dias muito, muito quentes, Margô trazia uma bebida extra para o homem. Durante o inverno, o suco virava chá. O brutamontes nunca desconfiou dessas visitas pontuais, feitas religiosamente de segunda a sexta. Nos fins de semana, minha corajosa aliada camuflava o comprimido dentro do meu pão. Eu o engolia ali mesmo, à mesa das refeições, bem debaixo do nariz do meu marido lendo o jornal.
Mas agora estávamos indo para uma clínica especializada em fertilização na cidade de Berna — a melhor da Europa — e o Juan ia descobrir a minha trapaça.
— Você está tão tensa, Laura — a voz grave dele atravessou meus pensamentos. — Preocupada com o atraso do voo?
Nesse sentido, eu era a passageira mais contente em todo o aeroporto. Eu garanto.
— Está com frio? Te avisei que esse vestido tinha decote demais. Aqui, vista o meu casaco.
— Fique com ele. Obrigada.
— Então me abrace. Venha, irei aquecê-la.
Me aquecer? A Antártida era mil vezes mais calorosa.
— Será que pode parar de encarar essa janela?
Nada respondi.
— Laura Montoya! — O soco de Juan contra a própria coxa estalou no silêncio. — Olhe para mim quando eu estiver falando!
O movimento brusco do seu punho levantando me fez encolher.
— Ora, além de tensa vejo que também está nervosa. Eu tenho uma teoria.
O estampido da rolha saindo da garrafa foi o último som que eu ouvi antes de abrir os olhos. Juan serviu duas taças e estendeu uma por cima da mesa.
— Tome. Brinde comigo. Um tinto italiano cura qualquer mal-entendido.
Eu nem me mexi.
— Pegue logo essa maldita taça!
Eu não segurei; foi ele quem forçou o cristal fino contra minha palma.
— Viu? É só pegar. Agora aproveite, porque é a última. Quando estiver carregando meu herdeiro no ventre, não irá mais pôr uma gota de álcool na boca.
Enquanto ele bebia com o olhar fincado em mim e passava a mão no cavanhaque escuro que acentuava o amarelo das íris, eu imaginava dez maneiras de arremessar o meu vinho naquela cara.
─ Ah, já sei! ─ exclamou. ─ Eu vou procurar a melhor joalheria de Berna e te presentear com um belo colar de rubis. A menos, é claro, que ainda prefira ganhar tulipas que murcham.
Não, meu bem. Eu prefiro que vá para o raio que o parta com os seus bilhões que também apodrecem.
Dois anos no inferno. Naquela noite, enfim, tomei coragem. Atirei meu vinho nos olhos dele e saí correndo. Dez segundos. Era o tempo que eu tinha para fugir do seu avião.
MEIA HORA ANTES
O táxi do hotel avançava pela avenida de La Hispanidad, a caminho do aeroporto de Barajas. O chiado dos pneus no asfalto úmido se misturava ao vaivém do limpador no para-brisa. Até aquele momento, Michael Grant se manteve em silêncio, com o rosto voltado para a janela e o casaco preto descansando sobre os joelhos. Ao seu lado, Paul Hill analisava fotos de modelos.
— Meu Deus, eu conheço bem esse brilho — Michael nem precisou virar o rosto. Conhecia o amigo de trás para frente.
— Elisa Vázquez — Paul ergueu a foto. — Você se lembra da mexicana?
— De Paris?
— Paris? Eu juro que não sei por que ainda falo com você, Michael. Por que não vira logo padre?
O táxi fez uma curva. A fachada do aeroporto apareceu lá na frente. Michael observou as luzes encobertas pela bruma e franziu as sobrancelhas.
— De verdade — Paul insistiu —, há quanto tempo não transa?
Michael olhou para o relógio de prata no pulso.
— A névoa vai atrasar o voo — reclamou.
— E a Alice? Achei que tivessem...
— Alice? Estou preocupado com o tempo.
— Esqueça a névoa — Paul coçou o cavanhaque loiro. — Você precisa sair dessa viuvez eterna e arranjar alguém.
— Não seja ridículo. Está para nascer a mulher que vai tocar meu coração de novo. Eu já disse.
Michael se virou para a janela. No vidro, seu reflexo se misturava à paisagem que corria lá fora, como se ele estivesse preso entre dois mundos. Um que avançava, outro que o encarava de volta.
— Além disso, eu não tenho tempo para romances.
— Não tem tempo.. — Paul falava consigo mesmo como se Michael não estivesse ali do lado. — É sempre a mesma desculpa. Tomara que uma mulher bem complicada cruze o caminho dele.
O táxi parou no aeroporto. Michael puxou o casaco e desembarcou.
— Só que eu não acredito em pragas! — ele exclamou. Para enfatizar, bateu a porta. — Babaca!
A quinhentos metros desses dois amigos do táxi, eu empurrava as comissárias da minha frente.
— Segurem ela! Não deixem que minha ESPOSA ESCAPE!
Desci correndo as escadas do avião, quase saltando de um degrau a outro. O metal retinia debaixo das minhas botas, enquanto a bolsa batia na cintura. Eu respirava em golfadas curtas sem olhar para trás. No último degrau, o pé derrapou. Mas disparei como uma flecha dentro do nevoeiro, tentando enxergar além do branco.
Não demorou muito para os capangas aparecerem. Um deles chegou perto demais de me alcançar. Os dedos ainda triscaram nas pontas do meu cabelo.
— Senhora Montoya, pare. Por favor, volte.
— Jamais! Prefiro morrer!
Eu nunca fui uma atleta, mas crescer numa fazenda tem lá suas vantagens. A gente aprende a correr de cobras, como aquelas criadas pelo meu marido.