MADRI, JUNHO DE 1999
Sou uma mulher casada. Mas não me chame de senhora Montoya. Meu nome é Laura. Até pouco tempo, eu era uma pintora idealista que fantasiava com o romance perfeito. A moça que teve apenas um namorado. Esta era eu. Deixei de ser ao me tornar a esposa-troféu de Juan Hugo Montoya, o banqueiro mais jovem e rico da Espanha.
Quando Michael Grant atravessou o meu caminho, eu já tinha decidido que ia desaparecer do mapa naquela noite. Não importava o risco. Laura Montoya precisava sumir sem deixar rastros. Ela e os 27 mil dólares furtados do cofre do marido.
Nosso encontro aconteceu no início da madrugada mais decisiva e tensa da minha vida, dentro dos limites do aeroporto internacional de Barajas. Da primeira vez que o vi, Michael estava sentado de pernas cruzadas na poltrona do seu próprio jato, me encarando com um copo de uísque puro pela metade na mão. Parecia um iceberg de paletó e gravata. Jovem, atraente e impenetrável.
Quanto a mim, o que ele poderia decifrar? De pintora para esposa de um bilionário, eu estava me tornando uma mentirosa profissional. E foi assim que esta história começou: pelo final. Eu, tentando escapar do meu casamento.
MEIA HORA ANTES
O táxi do hotel avançava pela avenida de La Hispanidad em direção ao aeroporto de Barajas. O chiado dos pneus no asfalto úmido se misturava ao vaivém do limpador no para-brisa. Até aquele momento, Michael Grant se manteve em silêncio, com o rosto voltado para a janela e o casaco preto sobre os joelhos. Ao seu lado, Paul Hill analisava fotos de modelos.
— Eu conheço bem esse sorriso — Michael nem precisou virar o rosto. Conhecia o amigo de trás para frente.
— Elisa Vásquez — Paul ergueu a foto. Uma moça loira de cabelos cacheados e maiô azul pairou na frente de Michael. — Você se lembra dessa deusa?
— De Paris?
— Paris? — A mandíbula dele travou. — Eu não sei por que ainda falo com você.
O táxi fez uma curva. A fachada do aeroporto apareceu lá na frente. Michael observou a luz borrada pela névoa e contraiu o cenho.
— Não gosto do que estou vendo — murmurou.
O Rolex de aço no pulso marcava 23h40. O voo estava previsto para 00h20. Tinha que chover justo hoje? Michael Grant se perguntou.
— Esqueça a névoa — Paul coçou o cavanhaque loiro. Estava olhando agora o batom vermelho de Letícia Gomez. — Falando sério, há quanto tempo não beija na boca?
Michael rolou os olhos e se voltou para a janela. No vidro, seu reflexo dividia espaço com os postes de iluminação da avenida.
— Está para nascer a mulher que vai tocar meu coração de novo — afirmou. — Além disso, sou ocupado. Não tenho tempo para romances.
— Não tem tempo. Sempre a mesma desculpa. — Paul falava consigo mesmo como se o amigo não estivesse ali do lado. — Um dia desses aparece uma mulher para derreter essa pose.
O táxi finalmente estacionou no meio-fio do aeroporto. Michael pegou o casaco e desembarcou.
— A sua praga nunca vai pegar! — ele exclamou. Para enfatizar, bateu a porta. — Babaca.
Enquanto Michael Grant atravessava o saguão, puxando a mala de bordo com pressa e preocupado com o tempo, a quinhentos metros dali, meu marido afastava as comissárias do caminho.
— Don Montoya, bem-vindo a bordo. — A comissária sorriu na entrada do jato. Juan a empurrou de lado.
— Não fique no caminho, mocinha. A senhora Montoya está passando. A mãe do meu herdeiro.
“Pode sonhar o quanto quiser com um herdeiro, Juan, mas você jamais terá esse filho comigo!” Eu repetia na mente. A cada passo que minhas botas davam no interior da cabine, essa decisão ecoava mais forte.
A mão dele deslizou da minha lombar, indicando o assento ao seu lado. Eu dei a volta e me sentei na poltrona oposta, junto à janela. Não era que eu gostaria de apreciar a paisagem durante o voo. Meus planos não incluíam decolar, aliás.
Lá fora, uma névoa espessa cinzenta cobria o aeroporto. Nenhum piloto recebeu autorização para decolar por enquanto. Tivemos que esperar o nevoeiro se dissipar primeiro. Algumas mulheres ficariam frustradas. Eu não. Cada minuto de atraso foi saboreado como uma fatia de vitória. Só assim eu não iria para a Suíça com o homem que comprava tudo com os seus milhões. Menos o ventre da esposa e um filho.
Dois anos de casados. Ele mal sabia o motivo de eu nunca engravidar. Não era porque eu não pudesse ser mãe. Aos 29 anos, eu poderia gerar quantos bebês eu quisesse — exceto os herdeiros da família Montoya. O segredo eram os comprimidos todas as manhãs.
Às sete em ponto, assim que o Mercedes de Juan cruzava o portão da mansão rumo aos Bancos Montoya, Margô, nossa antiga governanta e minha única aliada, trazia a pílula na bandeja, embaixo do suco de laranja.
"Bom dia". Ela cumprimentava sorrindo o capanga prostrado na porta do meu quarto. Às vezes, Margô lhe oferecia um café. Durante o inverno, o suco virava chá. O vigia nunca desconfiou dessas visitas pontuais, de segunda a sexta. Nos fins de semana, o comprimido vinha camuflado no miolo do meu pão. Eu o engolia ali mesmo, à mesa das refeições, bem debaixo do nariz do meu marido lendo o jornal.
Mas agora estávamos indo para uma clínica especializada em fertilização na cidade de Berna, a melhor da Europa, e o Juan ia descobrir a minha trapaça.
— Você está tão tensa, minha querida — a voz grave dele cortou meus pensamentos. — Preocupada com o atraso do voo ou com frio? Avisei que esse vestido tinha decote demais. Aqui, vista meu casaco.
— Fique com ele. Obrigada.
— Então me abrace. Venha, irei aquecê-la.
Eu preferia o asfalto úmido da pista.
— Será que pode parar de encarar essa janela e me dar atenção?
Nada respondi.
— Laura Montoya! — Juan deu um soco na coxa. — Olhe para mim quando eu estiver falando!
Seu movimento brusco me fez encolher. Ele parou, passou a mão pelos cabelos lisos e sorriu. Depois pegou a garrafa de vinho, serviu duas taças e estendeu uma por cima da mesa.
— Tome. Brinde comigo. Um tinto italiano cura qualquer falta de romantismo.
Eu não segurei. Foi ele quem forçou o cristal fino contra minha palma.
— Viu? É só pegar. Agora aproveite, porque é a última. Quando estiver carregando meu herdeiro no ventre, não colocará uma gota de álcool na boca.
Juan ergueu a taça.
— Tim-tim.
Enquanto ele bebia com os olhos de mel fincados em mim, eu imaginava dez maneiras de arremessar o meu vinho naquela cara.
— Depois da inseminação, minha querida, eu vou presenteá-la com um belo colar de rubis. A menos, é claro, que ainda prefira ganhar tulipas que murcham.
Não, meu bem. Eu prefiro que vá para o raio que o parta com os seus bilhões que também apodrecem.
Dois anos no inferno. Naquela noite, enfim, tomei coragem. Atirei meu vinho nos olhos dele e saí correndo. Dez segundos. Era o tempo que eu tinha para sair do avião.
— Maldição! — Juan tombou a mesa, dentes trancados. — LAURA!
Os berros dele e o estilhaçar do vidro ecoaram atrás de mim enquanto eu empurrava as comissárias.
— Segurem ela, imbecis! Não deixem que minha esposa escape!
Desci correndo as escadas do avião. Eu salteava os degraus. O metal retinia debaixo das minhas botas. A bolsa do dinheiro pesava nos ombros. Eu respirava em golfadas curtas sem olhar para trás. No último lance, o pé derrapou. Mas disparei como uma flecha dentro do nevoeiro, tentando enxergar além do branco.
Não demorou muito para os seguranças aparecerem. Um deles chegou perto demais de me alcançar. Os dedos ainda triscaram nas pontas do meu cabelo.
— Senhora Montoya, pare. Por favor, volte.
— Jamais! Prefiro morrer!
Nunca fui atleta, mas crescer numa fazenda, no meio do mato, tem lá suas vantagens. A gente aprende a correr dos predadores. Naquela noite eram sete. Sete capangas do meu marido.