Leandra Félix — 4 anos
Não sabia contar os dias direito.
Só sabia que fazia muito tempo que minha barriga doía.
Ela doía de um jeito estranho, como se tivesse um bicho pequeno dentro de mim, arranhando por dentro, pedindo alguma coisa que eu não conseguia dar. Às vezes doía tanto que eu dobrava o corpo no chão do quarto grande, aquele quarto que não era meu, mas diziam que era.
— Fica aí — tinham dito. — Criança quieta não dá trabalho.
O quarto era grande demais para alguém do meu tamanho. A cama era alta, com lençóis duros, que cheiravam a sabão forte. As paredes eram claras, mas pareciam frias. Não tinha brinquedos. Não tinha desenhos. Não tinha nada que fosse meu.
Só tinha silêncio.
Eu achava que o silêncio também fazia fome.
Minha boca estava seca. Quando eu engolia, doía. Eu tentava dormir para esquecer, mas o barulho da barriga me acordava. Às vezes eu chorava bem baixinho, com medo de alguém ouvir e ficar bravo comigo.
Eu não entendia o que tinha feito de errado.
Eu lembrava va