Gael Lubianco
Cheguei em casa no fim da tarde com aquela sensação estranha de quem finalmente decide desacelerar. O dia tinha sido longo, tenso, cheio de pensamentos que não me largavam desde cedo. Mesmo assim, quando atravessei a porta e senti o cheiro familiar da casa, algo dentro de mim relaxou.
A sala estava em meia-luz, silenciosa demais para quem tinha quatro crianças pequenas morando ali. Dei mais alguns passos e vi Dona Francisca sentada na poltrona perto da janela, ninando as gêmeas com um cuidado quase cerimonial. Auriel estava aninhada em seu braço esquerdo, Aniel no direito, ambas com os olhinhos semicerrados, rendidas ao embalo suave e à voz baixa que murmurava uma cantiga antiga.
Aquela cena me fez parar por um instante.
Havia algo profundamente sagrado ali. Vida. Continuidade. Proteção.
— Boa tarde, Francisca — falei em voz baixa, para não acordar as meninas.
Ela ergueu o olhar e sorriu, daquele jeito acolhedor que sempre fazia a casa parecer mais segura.
— Boa tarde, G