Leandra Felix
O tempo entre desligar o telefone e ouvir o barulho de pneus se aproximando pareceu se esticar de forma cruel, como se cada segundo fizesse questão de me lembrar o quão frágil tudo era. Eu ainda sentia o coração batendo descompassado dentro do peito, as mãos frias, mesmo com o sol insistindo em tocar minha pele através do para-brisa amassado. O cheiro de borracha queimada e metal ainda estava no ar, misturado ao perfume que eu tinha passado antes de sair de casa, como uma ironia dolorosa: eu tinha saído para respirar, e quase não voltei.
Minha mãe…
Não. Charlotte.
Minha sogra estava sentada ao meu lado, com a postura rígida demais para quem dizia estar bem. O cinto de segurança ainda atravessava o corpo dela, e os dedos apertavam a bolsa com força. Ela olhava para frente, mas eu sabia que não estava vendo nada de verdade. Estava longe. Talvez no mesmo lugar em que eu estava: naquela fração de segundo em que o carro não respondeu, em que o mundo inteiro pareceu girar fora