Eu não queria me tornar Daniel.
Essa era a frase que continuava se repetindo na minha cabeça, muito depois de a casa ter voltado ao silêncio. Muito depois de a adrenalina ter se dissipado e deixado apenas o contorno do que havia mudado.
Eu não queria os instintos dele. A facilidade com o apagamento. O conforto com ser observado e responder na mesma moeda. Eu não queria o reflexo que catalogava pessoas pela utilidade antes da humanidade.
E, ainda assim.
A polícia sabia meu nome.
O Consórcio também.
Não havia mais um time dente-de-leite onde eu pudesse me esconder.
Eu estava diante da parede de vidro que dava para a piscina, as luzes da cidade distantes e organizadas, fingindo que o mundo ainda funcionava em linhas retas. Daniel me observava da cozinha, sem dizer nada a princípio, dando-me espaço para chegar ao que eu ia dizer.
— Você não quer ser eu — ele disse, por fim.
Virei-me.
— Não.
— Ainda bem — respondeu. — Isso seria um desperdício.
Franzi a testa.
— Isso não é nada reconfortan