O helicóptero rasgava a escuridão como um segredo. As luzes da cidade voltaram primeiro em manchas. Depois ruas inteiras. Depois o rio. Depois os bairros. O piloto não falou nada. O fone só transmitia a respiração constante da máquina.
Observei as ruas e tentei imaginar o próximo ano. A mensalidade do Diogo. O aluguel. O trabalho. Mentiras que não pareceriam mentiras porque seriam — termos. Tentei me agarrar à linha que eu tinha traçado. Sem corpos. Sem sangue. Sem carrinhos de lavanderia. Repeti isso como uma oração, embora eu não rezasse.
O helicóptero desceu devagar. As hélices cortaram o ar. Os patins tocaram a plataforma. O barulho foi caindo, nota por nota, até restar apenas o estalo do metal esfriando.
O piloto abriu a porta.
Eu desci na noite.
As luzes da cidade brilhavam baixas à distância. A casa não ficava na cidade. Ficava acima dela. Escondida atrás de muros de pedra e de um portão que parecia pertencer a um pequeno aeroporto.
Sem George. Sem Daniel. Apenas dois segurança