Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio em Istambul parecia mais pesado naquela segunda-feira.
Defne Topal já não conseguia diferenciar o peso da mentira do som constante de saltos ecoando pelos corredores da İplikçi Shoes. A missão, que antes soava absurda, agora começava a se enredar em camadas emocionais que ela jamais esperava sentir.
Ömer İplikçi, em seu império silencioso, continuava inalcançável — rígido como o corte preciso de suas criações. Mas Defne notava algo novo nos olhos dele. Um estranhamento. Um incômodo que surgia sempre que ela entrava em uma sala.
A tensão explodiu com a chegada de Pamir Mert.
Sorridente, provocativo e com presença que preenchia os espaços, Pamir era como perfume forte demais: sedutor e incômodo. Um velho conhecido de Ömer. Um rival que, segundo rumores sussurrados por Yasemin, havia tentado tomar o controle da empresa anos antes.
— Defne Topal — disse Pamir, estendendo a mão com charme calculado
— Neriman sabe escolher bem suas peças.
Ela hesitou ao apertar. O elogio vinha com veneno. Pamir sabia demais. E talvez soubesse exatamente o que ela estava fazendo ali.
Durante a apresentação da campanha de outono, Ömer parecia feito de pedra. Sentado à mesa, com os dedos entrelaçados, ele observava tudo com aquele olhar clínico que colocava todos à prova.
Defne apresentou um esboço inspirado em mulheres turcas modernas — misturando tradição e estilo urbano. Yasemin ergueu uma sobrancelha, interessada. Sinan, sempre gentil, apoiou. Mas Pamir foi direto:
— Bonito. Mas previsível.
— Funcional — retrucou Defne, firme.
— Nem toda mulher quer provocar. Às vezes, ela só quer existir e marcar presença.
Um silêncio cortante se instalou. E, pela primeira vez, Ömer falou com algo próximo de emoção:
— Bom. A moda precisa de honestidade. Não de dramatizações.
Defne sentiu um choque. Ele a defendia?
Ou... estava reconhecendo que ali havia algo autêntico?
Mas não durou.
Naquela noite, Neriman a recebeu em casa com pressa nos olhos.
— Ele está demorando demais! E você está se apegando.
— Eu estou fazendo o que pediu.
— Está hesitando, Defne! Você se importa com o que ele pensa. Com o que ele sente!
Defne não negou. Não podia. Cada olhar de Ömer, cada frase que vinha carregada de feridas passadas, mexia com algo dentro dela que nem o contrato previa.
No dia seguinte, Ömer a chamou ao terraço da empresa. O céu estava coberto por nuvens — como se refletisse os sentimentos que não podiam ser ditos.
— Você me intriga — ele disse.
— Você não é como os outros funcionários.
— Eu só estou tentando fazer meu trabalho.
— É isso que me inquieta. O seu trabalho parece... mascarado.
Ela congelou.
Mas antes que pudesse responder, ele desviou o olhar. O orgulho de Ömer era uma muralha antiga. Uma que não tolerava mentiras. E Defne sabia: se a verdade viesse à tona, ele não perdoaria.
Ela queria fugir. Ou ficar. Ou dizer tudo.
Mas apenas disse:
— Às vezes, o que parece disfarce... é só uma tentativa de proteger o que não sabemos lidar.
Ele a observou por mais tempo do que deveria.
E saiu.
Naquela noite, sozinha em casa, Defne chorou pela primeira vez desde que tudo começou. Não era pelo plano. Nem por Neriman. Era por ela mesma.
Por estar se apaixonando por alguém que ela estava destinada a enganar.







