Mundo de ficçãoIniciar sessãoRaul Romero Fernandez
A chuva tamborila contra as janelas da biblioteca, insistente, quase agressiva, como se tentasse atravessar o vidro. O som se mistura ao estalo baixo da lenha queimando na lareira, criando uma melodia irregular que preenche o silêncio pesado do cômodo.
Estou sentado na poltrona de couro que pertenceu ao meu pai.
Ela range levemente quando me movo, como se protestasse contra o peso que carrego agora — um peso que, um dia, também foi dele. Giro o copo de uísque entre os dedos, observando o líquido dourado refletir a luz tremulante do fogo. Não bebo. Apenas observo.
É tarde.
Rafael ainda não voltou para casa.
A tensão no meu peito não é novidade. Ela se instalou ali há meses, talvez anos, como uma presença constante. Invisível, mas impossível de ignorar. As noites seguem sempre o mesmo padrão: eu esperando, e ele se perdendo em madrugadas que não deixam rastros — apenas consequências.
Uma batida discreta na porta da biblioteca interrompe meus pensamentos.
— Entre.
Teodora surge no vão da porta. A governanta nos acompanha há tanto tempo que se tornou parte da estrutura da casa, quase como as paredes antigas e os móveis herdados. Ela carrega um sorriso contido, mas os olhos… os olhos denunciam cansaço. Conhecimento demais. Silêncios demais guardados.
— Rafael ainda não chegou? — pergunta, mesmo sabendo a resposta.
Balanço a cabeça, sentindo a frustração escorrer em cada gesto.
— Deve estar em algum bar. Ou festa. — Faço uma pausa curta. — Mas hoje eu preciso falar com ele.
Meu olhar retorna ao copo. O uísque permanece intacto.
Teodora inclina levemente a cabeça, avaliando-me como sempre faz quando percebe que estou indo longe demais.
— Raul… você não acha que está ocupando o lugar do seu pai?
As palavras me atingem com força.
Por um instante, não respondo. O silêncio se alonga, pesado, desconfortável.
— Alguém precisa segurar esta casa — digo, por fim, a voz mais dura do que pretendia. — E Rafael claramente não será essa pessoa. Ele tem um filho, Teodora. Um filho.
Ela não se abala.
— Sim, ele tem. — Aproxima-se um pouco mais. — Mas me diga… quem está cuidando de você?
Antes que eu consiga formular qualquer resposta, o som seco da porta da frente batendo ecoa pela mansão.
Rafael chegou.
Coloco o copo sobre a mesa com mais força do que o necessário.
— Fique aqui — digo, levantando-me.
Teodora segura meu braço, cautelosa.
— Raul, não hoje. Ele bebeu. Amanhã vocês conversam melhor.
Retiro meu braço com cuidado, mas firme.
— Não. — Minha voz sai baixa, contida. — Se eu não falar agora, nunca falo.
Caminho até o hall.
Rafael está ali, tirando o casaco encharcado e jogando-o sobre o aparador como se nada tivesse valor. O cabelo molhado, o olhar turvo, o sorriso torto que ele usa sempre que sabe que está errado — mas não pretende admitir.
— Ora, ora… — diz, ao me ver. — Meu irmão responsável ainda acordado?
— Rafael, por Dios… isso precisa acabar.
Ele ri. Um riso vazio, arrastado, enquanto ergue a garrafa de uísque em minha direção.
— Quer um pouco? Ajuda a aliviar essa sua cara de funeral.
Respiro fundo.
— Não quero uísque. Quero que você acorde. — Dou um passo à frente. — Perdemos um cliente hoje porque você não apareceu.
Por um segundo, ele parece tentar entender. O cérebro lento pelo álcool processa a informação com dificuldade. Então, ele ri de novo.
— Ah… isso? Meu carro deu problema.
Fecho os punhos ao lado do corpo.
— Seu carro deu problema… ou você estava de ressaca?
O sorriso dele cresce, provocador.
— Que diferença faz? — Ele dá de ombros e se j**a na poltrona com desdém. — E você? Onde estava?
A pergunta vem carregada de intenção. Ele sempre tenta virar o jogo.
— Resolviendo um problema fora da empresa.
— Problema? — Ele arqueia a sobrancelha. — Que tipo de problema?
Meu maxilar se contrai.
— Não é da sua conta.
O riso que escapa dele agora é diferente. Mais amargo. Mais afiado.
— Sempre perfeito, não é, Raul? Sempre o herói da família. Sempre consertando tudo. — Ele inclina a cabeça. — Mas como viu hoje… a vida gosta de surpreender.
Dou mais um passo, reduzindo a distância entre nós.
— Quando você vai começar a levar isso a sério?
Ele não responde de imediato. Apenas gira o líquido dentro da garrafa. O silêncio cresce entre nós.
— Não estou pedindo perfeição — continuo, a voz firme. — Estou pedindo responsabilidade. Faça isso pelo seu filho. Uma vez na vida.
Por um instante, algo passa pelo olhar dele. Dor. Culpa. Algo que ele não sabe nomear.
— Eu sou um bom pai… — murmura. — Tenho meus momentos.
— Momentos não bastam. — Minha voz baixa não perde força. — Pai é constância. Presença. Não aparições.
Rafael desvia o olhar.
— Boa noite, Raul.
E sobe as escadas.
Sozinho outra vez, fico ali, com a certeza incômoda de que algumas batalhas não se vencem — apenas se repetem.