— Você trabalha aqui? — ele perguntou, me analisando.
Ergue o queixo para responder.
— Não.
— Então não se meta.
Seco, direto, como um corte.
— Eu não estou me metendo — disse, firme. — Só não acho justo ouvir alguém falar de uma criança como se ela fosse um problema.
Os olhos dele escureceram ainda mais.
— Você não faz ideia do que está dizendo.
Talvez não. Mas sabia o que era ser tratada como insuficiente.
— Talvez não — responde. — Mas sei que nenhuma criança merece ser rejeitada antes mesmo de ser conhecida.
Algo mudou no olhar dele. Rápido.
Quase imperceptível.
Raiva ou algo mais profundo.
Ele deu um passo na minha direção.
A presença dele, a força, o peso.
Mas não recuei.
— Você gosta de se envolver em problemas que não são seus? — ele perguntou.
Sustentei o meu olhar.
Respiro fundo.
— Não. Eu gosto de lutar pelo que importa.
O silêncio entre nós se tornou quase palpável.
Carregado, denso. Então ele soltou uma risada breve.
Fria.
Sem vida.
— Boa sorte com isso.
Ele se virou.
Mas antes de entrar no carro, disse sem olhar para trás:
— A vida tem um talento especial para destruir pessoas que acreditam demais em finais felizes.
Fiquei ali parada. Observando o carro desaparecer na chuva.
O coração batia rápido demais.
Mas não era medo.
Era outra coisa. Algo que eu ainda não sabia nomear. Não sabia quem ele era. Não sabia sua história.
Mas sabia reconhecer dor quando via uma.
E aquele homem... Não estava apenas ferido. Ele estava destruído.
Fecho os meus olhos por um instante.
Respirei fundo.
E então olhou novamente para o portão à minha frente.
Era ali. O meu recomeço.
Mas, por algum motivo que eu ainda não entendia...tinha a sensação de que aquele homem fazia parte dele.
Eu ainda estava parada sob a marquise do abrigo quando o portão finalmente se abriu.
Só então percebi o quanto estava imóvel. Como se meu corpo tivesse chegado ali... mas o resto de mim ainda estivesse preso do lado de fora.
No olhar dele.
Nas palavras dele.
Naquela dor crua que parecia ter atravessado o ar e encontrado um lugar dentro de mim.
— Entre, Helena... — a diretora disse, com um sorriso gentil... cansado demais. E entrei.
Mas a verdade é que só o meu corpo atravessou aquele portão. Minha mente estava lá fora.
— Quem era ele? — perguntei, antes mesmo de conseguir pensar melhor.
A diretora fechou o portão atrás de nós com um suspiro pesado.
— Dante Ferraz.
O nome ecoou dentro de mim.
Dante Ferraz.
— O Empresário?
— O próprio.
Franzi a testa, tentando encaixar o nome ao homem que eu tinha acabado de enfrentar... e, de alguma forma, sentido.
Ela começou a caminhar, fazendo um gesto para que eu a acompanhasse.
Eu fui.
— Ele perdeu a esposa e a filha no parto há alguns anos.
Eu parei.
Simples assim. Como se meus pés tivessem decidido não dar mais um passo. A informação não veio devagar. Ela caiu. Pesada. E, de repente... tudo fez sentido.
A frieza.
O jeito como ele falava... como se a maternidade fosse algo a ser rejeitado.
Não era ódio. Era dor.
Uma dor que ficou tanto tempo guardada... que apodreceu por dentro.
Engoli em seco. Meu peito apertou com força.
— E a criança? — perguntei, mais baixo dessa vez.
Como se já soubesse que a resposta também machucaria. Ela hesitou.
E aquele pequeno silêncio disse mais do que qualquer palavra.
— É sobrinha dele.
Não respondi.
Mas senti.
Senti algo dentro de mim se contrair.
— A mãe da menina morreu há alguns meses — ela continuou. — Dante é o único parente que restou... mas ele se recusa a assumir qualquer responsabilidade.
Aquilo me atingiu. De um jeito que eu não estava preparada.
Vi o rosto dele outra vez na minha mente.
O olhar duro.
E aquela frase... Ela é o erro de uma tragédia.
Meu estômago revirou.
Porque, de alguma forma, eu conhecia aquilo.
Não daquela forma.
Mas conhecia o suficiente para reconhecer. Rejeição.
Respirei fundo.
Tentando organizar tudo que estava sentindo.