Início / Romance / Entre a Culpa e o Amor / Capítulo 1.2 Helena Duarte
Capítulo 1.2 Helena Duarte

Tentando não deixar aquilo invadir um momento que deveria ser meu.

— Posso conhecer a criança? — perguntei.

Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia.

Ela sorriu.

E dessa vez havia algo mais leve no olhar dela.

— É exatamente por isso que você veio hoje.

Assenti.

Mas, no fundo... Parecia mais do que isso.

Parecia que eu tinha sido levada até ali por algo maior.

Seguimos pelo corredor.

O som dos nossos passos ecoava baixo, misturado com vozes distantes de crianças... e aquele cheiro de lugar que tenta ser lar, mesmo sem conseguir ser completamente. Meu coração apertava a cada passo.

Ansiedade, medo e esperança.

Uma esperança tão grande... que chegava a doer.

Quando paramos diante de uma sala iluminada por uma grande janela, a diretora abriu a porta.

Eu entrei.

E o mundo... desacelerou. Havia cores, brinquedos, desenhos nas paredes. Mas nada disso ficou.

Porque meus olhos encontraram apenas uma coisa.

Ela.

Uma menina pequena, sentada no chão, sozinha. Devia ter uns quatro anos. Os cabelos escuros presos em dois coques tortos.

Um ursinho gasto apertado contra o corpo... como se fosse tudo que ela tinha. Ela montava um quebra-cabeça.

Concentrada.

Meu coração apertou de um jeito quase insuportável.

— Luna... — chamou a diretora, com suavidade.

A menina levantou o rosto.

E então... me viu.

Nossos olhares se encontraram.

E algo aconteceu. Como se, naquele instante, duas partes quebradas se reconhecessem sem precisar de explicação.

Senti meus olhos arderem.

Ela se levantou devagar.

Veio até mim com passos pequenos, cautelosos. Parou bem na minha frente.

Me observando.

Como se estivesse tentando entender quem eu era... e se eu valia a pena.

Me abaixei, ficando na altura dela.

Meu coração batia forte demais.

— Oi... — falei, com cuidado.

Com carinho, como se qualquer palavra errada pudesse afastá-la.

Ela inclinou a cabeça.

E então perguntou:

— Você vai embora também?

O mundo parou.

Demorei um segundo para entender. E quando entendi...

Doeu.

— Por que você acha isso? — perguntei, minha voz mais baixa.

Ela deu de ombros.

Como se já tivesse aceitado aquilo.

— Todo mundo vai.

Algo dentro de mim quebrou.

Silenciosamente.

Estendi a mão devagar com cuidado. Como se estivesse oferecendo mais do que um gesto.

— Eu ainda não fui.

Ela olhou para minha mão.

Ficou ali por alguns segundos.

Decidindo e então... Segurou.

Foi simples. Mas, para mim...

Foi tudo. Meu peito se encheu de algo quente.

Forte. Quase assustador.

— Você gosta de desenhar? — perguntei, tentando manter minha voz firme.

Ela assentiu.

— Gosto de desenhar casa.

A palavra bateu diferente dentro de mim.

— Casa?

— Uhum.

Ela pegou um papel e me mostrou.

Uma casa torta.

Simples.

Três bonecos de palito.

E um sol grande demais no canto.

Sorri... mesmo com os olhos marejados.

— Quem são eles?

Ela apontou.

—Eu.

Depois outro.

— Minha mamãe.

Engoli em seco.

Meu coração apertando mais uma vez.

— E esse?

Ela ficou em silêncio.

Os dedinhos apertaram o papel.

E então disse, baixinho:

— Eu não sei.

As lágrimas escaparam.

Sem pedir permissão.

Sem que eu conseguisse impedir.

— Ela sempre desenha esse terceiro boneco... — disse a diretora, suavemente. — Mas nunca sabe quem é.

Respirei fundo.

Mas não adiantou. Porque Luna ainda olhava para mim.

Esperando.

— Você sabe desenhar casa? — ela perguntou.

Eu sorri entre as lágrimas.

Um sorriso verdadeiro.

— Sei um pouco.

Ela puxou uma cadeira.

Simples. Como se já tivesse decidido algo.

— Então senta aqui.

E eu sentei.

E, pela primeira vez em muito tempo... Eu senti, não a dor, não o vazio. Mas algo que achei que tinha perdido para sempre.

Esperança.

Lá fora, a chuva diminuía. Mas dentro de mim... Algo começava a nascer.

E em algum lugar da cidade... Dante Ferraz ainda dirigia sem rumo.

Sem saber... Que naquele exato momento... Eu estava entrando na vida da única criança que ele se recusava a reconhecer.

E que muito em breve... Eu pisaria no mundo dele. E destruiria todas as certezas que ele levou anos para construir.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App