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Entre a Culpa e o Amor
Entre a Culpa e o Amor
Por: Milla Almeida
Capítulo 1.0 Helena Duarte

A chuva caía fina, quase silenciosa... como se o mundo estivesse prendendo a respiração junto comigo.

Estacionei o carro em frente ao portão do abrigo desligou o motor, mas não tive coragem de sair de imediato.

Meus dedos permaneciam presos ao volante, rígidos, como se soltar significasse atravessar um ponto sem volta. E talvez fosse.

Fechei meus os olhos por um segundo.

Meses de espera, entrevistas, perguntas invasivas, avaliações que pareciam medir cada pedaço da minha alma... Como se precisasse provar, o tempo todo, que era suficiente para amar.

Suficiente para cuidar.

Suficiente para ser mãe... mesmo sem poder gerar. Meu peito apertou.

Hoje não era só mais um dia.

O dia em que eu conheceria a criança que poderia chamar de filha. Parece até surreal falar assim:

Filha.

A palavra ecoou dentro de mim, carregada de tudo que já foi negado... e de tudo que ainda insistia em construir. Passei a mão pelo rosto, sentindo a pele fria.

Medo.

Ansiedade.

Esperança.

Tudo misturado de um jeito quase insuportável.

— Vai dar certo... — sussurrou, mais como um pedido do que como uma certeza.

Infelizmente vem a voz do Felipe falando: Você é uma mulher incompleta, nunca poderá ser uma mulher por completa....

Jogo esses pensamentos

Preciso acreditar nisso.

Mesmo depois de tudo. Vou mostrar que sou uma mulher completa e que ele estava errado, sempre esteve.

Engoli o nó na garganta, pego minha bolsa e saio do carro.

A chuva tocou minha pele como um choque leve, trazendo-me de volta ao presente enquanto caminho até o portão de ferro.

Cada passo parecia mais pesado que

quando levantei a mão para tocar a campainha, o som brusco de um carro freando cortou o silêncio me assustando me viro.

Um carro preto parou quase atravessado na rua, como se tivesse chegado ali com urgência ou fúria.

A porta se abriu com força e então um homem saiu.

Não sabia explicar o que senti naquele instante. Mas algo dentro de mim... se retraiu forte.

O homem parecia carregar uma tempestade inteira nos ombros.

Alto. Postura rígida. Movimentos precisos, duros.

Cada passo dele não era apenas firme... Era pesado assim como a tempestade.

Como se estivesse pisando sobre algo que nunca deixou para trás.

E então vi seus olhos. Escuros,

profundos e frios como a tempestade. E cheios de algo que não reconheceu antes mesmo de entender.

Dor. Mas não uma dor qualquer.

Era uma dor transformada em raiva.

Ele não me olhou.

Passou direto, como se nada ao redor importasse, e parou diante do portão como se aquele lugar fosse um inimigo.

Prendi a respiração sem perceber.

A diretora surgiu do outro lado da grade.

— Senhor Ferraz, eu já expliquei que — antes que ela terminasse ele a interrompeu

— Explique de novo.— A voz dele...

Baixa.

Controlada.

Mas carregada de algo perigoso.

Franzi levemente a testa.

Ferraz.

O nome soou familiar... mas foi rapidamente engolido pelo que veio em seguida.

Ele se aproximou da grade, os dedos fechando com força no ferro.

— Eu quero saber por que continuam me ligando para falar sobre aquela criança.

Aquela criança.

Não uma criança.

Como se fosse um problema.

Senti algo se contrair dentro do peito.

A diretora suspirou, cansada.

— Porque ela não tem ninguém, senhor Ferraz. E o senhor é o único familiar vivo.

O silêncio que veio depois... pesou.

Pesou como se o ar tivesse ficado denso demais para ser respirado.

— Eu já deixei claro — ele disse, cada palavra sendo medida — que não quero nada que tenha a ver com essa criança.

Aquilo me atingiu como um golpe.

Por um segundo, tudo em mim reagiu.

Não com raiva.

Mas com algo mais profundo.

Algo que eu conhecia bem demais.

Rejeição.

Olhei para ele de verdade pela primeira vez.

E foi então que viu.

Não apenas a frieza.

Mas o que estava por trás dela.

Um abismo.

— Ela é sua sobrinha — insistiu a diretora.

— Não.

A resposta veio imediata.

Sem emoção.

— Ela é o erro de uma tragédia que eu já enterrei.

O meu estômago revirou.

Erro.

A palavra ecoou em minha mente como uma lembrança que nunca cicatrizou.

Por um segundo... não estava mais ali.

Estava de volta ao passado.

Àquela sala.

Àquela voz.

"Eu quero uma família completa."

O ar faltou. E antes que pudesse se controlar...

— Crianças não são erros.

As palavras saíram. Firmes.

Carregadas de algo que nem tentou esconder.

Ele virou o rosto lentamente. E então... me olhou.

O impacto foi imediato.

Os olhos dele a prenderam no lugar.

Escuros. Intensos. Vivos de um jeito perigoso.

Senti o meu coração acelerar, mas não recuou.

A chuva caía entre nós, como uma barreira invisível... e ainda assim insuficiente.

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