Entre Cláusulas e Desejos
Entre Cláusulas e Desejos
Por: Ana Carolina
Capítulo 1 - O Acordo

Diogo Moretti gostava de chegar cedo. Antes que a cidade despertasse por completo, ele já estava no topo do prédio de vidro que levava seu sobrenome de forma indireta, observando São Paulo aos seus pés. O escritório amplo, minimalista e silencioso refletia exatamente quem ele era: organizado, controlado e inacessível.

Aos trinta e quatro anos, Diogo havia aprendido que sentimentos atrapalhavam decisões. Números, contratos e resultados eram mais confiáveis do que pessoas. Talvez por isso tivesse construído um império sólido, respeitado e temido. Ajustou a gravata diante do reflexo da janela e voltou a atenção para o tablet sobre a mesa, onde relatórios e gráficos aguardavam sua análise.

Nada parecia fora do lugar até que um e-mail específico chamou sua atenção.

Assunto: Proposta estratégica - confidencial.

Diogo franziu o cenho ao abrir o arquivo. Não era uma fusão comum, nem uma aquisição hostil. Tratava-se de algo muito mais… pessoal. À medida que lia, sua expressão endurecia. O texto era direto, quase cruel em sua objetividade. Para garantir a estabilidade de acordos empresariais, preservar alianças antigas e evitar um escândalo financeiro iminente, ele precisaria se casar.

Casamento por contrato.

Ele recostou-se na cadeira, respirando fundo. Nunca tivera paciência para esse tipo de solução antiquada, mas também não era ingênuo. Sabia que grandes impérios ainda se sustentavam em alianças familiares e aparências bem construídas. O nome da futura esposa apareceu em destaque no documento: Melina Carvalho.

Uma mulher que ele não conhecia. Não pessoalmente.

Diogo passou os olhos pelas cláusulas com atenção cirúrgica. Prazo determinado. Regras de convivência. Obrigações sociais claras. Nenhuma exigência emocional. Era um contrato tão frio quanto ele próprio. Ainda assim, a ideia de dividir a própria rotina com alguém desconhecido lhe causava um desconforto incômodo.

O telefone fixo tocou, quebrando o silêncio calculado do ambiente.

— O conselho está pressionando — disse a voz do outro lado, sem rodeios. — Precisamos da sua resposta hoje.

— Minha resposta depende de garantias — Diogo respondeu, em tom firme. — Não colocarei meu nome em algo que não esteja totalmente sob controle.

— Tudo foi pensado. A família dela também tem interesse. Melina Carvalho é discreta, independente e sem histórico de exposição negativa.

Independente. A palavra ecoou em sua mente com um leve tom de ironia.

— Marque uma reunião — disse por fim. — Quero conhecê-la antes de qualquer assinatura.

Ele desligou e ficou alguns segundos encarando a tela apagada do telefone. Aceitar aquele acordo significava abrir uma exceção perigosa em sua vida meticulosamente planejada. Ainda assim, se havia algo que Diogo aprendera cedo era que poder exigia sacrifícios e ele sempre estivera disposto a pagar o preço.

Enquanto isso, a alguns quilômetros dali, Melina Carvalho terminava de prender o cabelo diante do espelho do pequeno apartamento que alugava sozinha. O espaço não era grande, mas era seu. Cada móvel havia sido conquistado com esforço, cada detalhe representava sua independência.

Melina não gostava de depender de ninguém. Crescera aprendendo a se virar sozinha, a não esperar promessas e a desconfiar de soluções fáceis. Talvez por isso tivesse estranhado tanto quando recebeu a ligação naquela manhã.

Ela segurava o celular com força, relendo o e-mail que acabara de chegar. Reunião confidencial. Proposta estratégica. Seu nome ligado a uma das famílias empresariais mais influentes do país.

E, no anexo, um contrato preliminar.

Casamento.

Melina soltou uma risada curta, incrédula. Aquilo só podia ser algum tipo de erro.

Sentou-se à mesa da cozinha, respirando fundo enquanto lia cada linha. Não era um convite romântico, nem uma sugestão delicada. Era um acordo frio, objetivo e assustadoramente bem estruturado. O nome do noivo estava ali, claro como uma sentença: Diogo Moretti.

Ela já ouvira falar dele. Quem não ouvira? Um CEO implacável, conhecido por decisões duras e postura distante. Exatamente o tipo de homem que Melina evitava.

— Isso é loucura — murmurou para si mesma.

O telefone vibrou novamente, agora com uma mensagem curta.

— Precisamos conversar. É importante para o futuro da família.

Melina fechou os olhos por um instante. Sabia que, por trás daquela proposta absurda, havia interesses maiores do que ela gostaria de enfrentar. Dívidas antigas, acordos silenciosos, pressões que não haviam sido compartilhadas com ela até então.

Ainda assim, a ideia de se casar por obrigação a fazia sentir o estômago revirar.

Ela não queria ser parte de um jogo corporativo. Não queria ser uma cláusula em um contrato que não escrevera. Mas também não era ingênua a ponto de ignorar o peso que aquela decisão teria sobre pessoas que amava.

Horas depois, Diogo observava novamente a cidade do alto, já decidido. O encontro estava marcado. Em breve, ele e Melina Carvalho estariam frente a frente, dois desconhecidos unidos por interesses que nada tinham a ver com amor.

Ele não acreditava em finais felizes. Acreditava em acordos bem-feitos.

E, naquele momento, nenhum dos dois imaginava que aquele contrato, assinado por necessidade, seria o início de um conflito muito maior do que qualquer cláusula poderia prever.

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