Dois

O consultório era branco demais.

Pálido como a expressão de Rafael enquanto fechava a porta atrás deles.

Lorena permaneceu de pé, os braços cruzados contra o próprio corpo, como se precisasse se manter inteira para não se despedaçar. O silêncio entre os dois era pesado, sufocante, quase físico.

- Repete - ela pediu, a voz rouca. - Repete o que você acabou de dizer.

Rafael afrouxou o nó da gravata, um gesto automático, carregado de impaciência.

- Já expliquei. Não houve sexo. Não houve traição no sentido. Foi fertilização in vitro. Eu não te traí.

Ele falou como quem explica algo simples. Técnico. Frio.

Como se estivesse apresentando um relatório, não destruindo o relacionamento deles.

Lorena fechou os olhos por um segundo.

E o passado veio.

Rafael ajoelhado no chão frio da casa dos avós dela.

A chuva fina molhando seus cabelos, o olhar desesperado, a voz firme apesar do joelho cravado no chão.

- Eu não quero filhos, Lorena. Eu quero você. Só você.

O estômago dela se contraiu.

- Você vai ter um filho com outra mulher - disse, abrindo os olhos. - Como você chama isso então?

- Responsabilidade - Rafael respondeu sem hesitar.

Ele deu dois passos à frente, ocupando o espaço como sempre fazia quando queria controlar a situação.

- Meu irmão morreu. Eu sou o único filho agora. A família depende de mim. Eu sou o responsável por tudo.

O coração de Lorena bateu descompassado.

Outra lembrança invadiu sua mente.

Rafael sentado ao lado da cama do hospital, segurando sua mão depois do acidente.

Os olhos vermelhos, a voz falhando.

- A gente supera isso juntos. Eu juro.

- Então é isso? - ela perguntou, a dor se transformando em algo afiado. - Você simplesmente acordou um dia e decidiu que precisava de um herdeiro?

- Não simplifica - ele retrucou, cruzando os braços. - Você sabe como a família Menezes funciona.

Lorena levou a mão ao estômago por instinto. A dor voltou - funda, insistente, conhecida demais. Desde que passara a morar na casa dos sogros, após o funeral do irmão mais velho de Rafael, seu corpo parecia ter começado a gritar aquilo que ela se obrigava a engolir todos os dias. Enfrentar o olhar hostil da sogra, suportar humilhações veladas e ainda fingir força para que o marido não se preocupasse tinham cobrado um preço. E agora, esse preço ardia dentro dela.

- Sei - respondeu, a voz trêmula, mas firme. - Sempre funcionou deixando claro que eu nunca pertenci.

- A família precisa de estabilidade - ele corrigiu, impaciente.

Lorena soltou um riso curto, sem humor.

- Você está me dizendo que acabou de perceber agora que eu sou infértil?

A palavra saiu como um soco.

Rafael desviou o olhar por um instante.

Um único instante.

Foi pior do que qualquer resposta.

Só haviam se passado três anos desde o pedido de casamento.

Ela ainda lembrava claramente do sorriso dele, da segurança na voz.

- Você é suficiente pra mim. Sempre foi.

- Não seja mesquinha - Rafael disse, perdendo a paciência. - As coisas mudaram. Você não pode ter filhos e eu preciso de um herdeiro. Nós vamos adotar essa criança assim que nascer…

Ele tentou segurar a mão dela.

Lorena se afastou como se fosse uma praga.

- Você precisa entender que a minha família é diferente da sua.

- Então você sempre pensou assim? - ela continuou, a voz ficando mais firme à medida que a ferida sangrava. - Desde o começo? Quando me perseguiu por cinco anos? Quando me fez acreditar que eu era tudo o que você precisava?

- Eu te amava - Rafael respondeu, ríspido. - Ainda amo.

- Então por que casar comigo? - Lorena deu um passo à frente. - Por que não escolheu uma mulher que pudesse te dar o herdeiro que você sempre quis?

Ele a encarou, irritado, como se ela estivesse sendo injusta.

- Porque eu te amo - ele respirou fundo, como se estivesse se controlando. - Já me sacrifiquei o suficiente pra te provar isso. Te fiz minha esposa contra tudo e todos.

A irritação na voz dele já não era mais contida.

Cada palavra caiu como um golpe.

- Eu estou disposto a continuar me sacrificando - ele completou. - Desde que entenda a situação. Você nunca deixará de ser a esposa de Rafael Menezes.

Algo se quebrou dentro de Lorena.

Não foi o coração.

Foi a imagem do homem que a perseguiu por cinco anos jurando amor eterno… e que, apenas três anos depois do casamento, revelava sua verdadeira face.

- Você quer que eu aceite - ela disse lentamente - que você decidiu ter um filho com outra mulher… e que eu simplesmente sorria e finja que isso não me destrói?

- Eu quero que você seja madura - Rafael respondeu. - Que pense no todo.

Ela o encarou como se estivesse diante de um estranho.

- O todo sempre foi você, não foi?

Ele não respondeu.

E aquele silêncio disse tudo.

- Eu tentei fugir de você naquela época - Lorena sussurrou. - Foi você que disse que não importava. E agora quer que eu aceite isso?

Rafael respirou fundo, claramente no limite.

- Lorena, isso não é sobre você.

As pernas dela quase cederam.

- Nunca foi, não é?

Ele deu o golpe final, com a frieza de quem se sente no direito:

- Você precisa aceitar. Eu sou o responsável pela família agora. E a família precisa de um herdeiro.

Lorena abaixou o olhar, sentindo as lágrimas queimarem, mas se recusou a deixá-las cair.

Quando voltou a encará-lo, havia algo diferente em seus olhos.

Algo que Rafael não reconheceu de imediato.

- E se eu não aceitar? - perguntou, em voz baixa.

- Essa opção não existe - ele respondeu, impaciente, em um tom que ela nunca tinha ouvido dirigido a ela. - Meu filho vai nascer, será o herdeiro da família Menezes e, se você quiser continuar como minha esposa, vai criá-lo como seu filho.

Lorena respirou fundo.

- Ótimo - disse, fria. - Então aproveite a oportunidade e transforme sua cunhada em esposa. Ou arrume qualquer outra para ser a mãe do seu herdeiro.

Rafael franziu a testa.

- O que você quer dizer com isso?

Ela passou por ele como um furacão.

- Já que você se decidiu… - fez uma pausa ao alcançar a porta. - Eu concordo.

Rafael respirou aliviado. Sempre soubera que ela acabaria cedendo. Lorena não tinha escolha - era infértil, não tinha dinheiro e, ainda assim, ele enfrentou toda a família para torná-la sua esposa.

Lorena abriu a porta abruptamente.

Do outro lado, Nina estava ali.

Encostada na parede.

Ouvindo tudo.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP