Três

O quarto ainda cheirava ao perfume de Rafael.

Um aroma caro, amadeirado - o cheiro do dono daquela casa.

Lorena respirou fundo. Durante anos, aquele perfume significara proteção. Agora só embrulhava seu estômago.

Ela dobrava as roupas com mãos trêmulas, colocando tudo dentro da mala aberta sobre a cama do quarto que dividia com o marido, na casa da família Menezes.

Não eram muitas coisas.

Desde o casamento, quase tudo que usava tinha sido comprado por Rafael, escolhido por ele, aprovado por ele. A casa também não fora escolha sua. Depois do casamento, ela simplesmente se mudara para a residência da família dele - uma mansão que nunca a pertenceu, onde cada móvel tinha história antes dela.

E cada história a lembrava disso.

A casa de Rafael.

A casa da mãe dele.

Nunca a casa dela.

A sogra jamais a aceitara. Primeiro, por Lorena ser pobre demais para carregar o sobrenome Menezes. Depois, simples demais, silenciosa demais. E quando o acidente a deixou infértil, o desprezo deixou de ser velado e passou a ser exibido sem pudor.

Lorena fechava o zíper da mala quando a porta do quarto foi escancarada.

- Onde você estava a tarde inteira? - a voz de Sônia ecoou pelo quarto. - E por que ainda não começou a preparar o jantar?

Lorena não respondeu de imediato.

Sônia avançou dois passos e então viu a mala.

- O que é isso?

Lorena respirou fundo.

- Estou indo embora.

O rosto de Sônia se contraiu em puro desprezo.

- Indo embora? - ela soltou uma risada seca. - Você some o dia inteiro, não cumpre suas obrigações e ainda arma esse teatro?

Nesse momento, passos firmes ecoaram pelo corredor.

Rafael entrou no quarto.

Atrás dele, Nina.

- O que está acontecendo aqui? - ele perguntou, já irritado.

Lorena virou-se para ele, a mala ao lado.

- Estou arrumando minhas coisas.

- Suas coisas? - Rafael riu, incrédulo. - Você enlouqueceu? Por que está sendo tão dramática a ponto de ameaçar fugir de casa?

- Eu não estou ameaçando - respondeu, firme. - Eu vou sair.

Ela puxou a mala.

Rafael deu um passo à frente e segurou o braço dela com força suficiente para fazê-la estremecer.

- Você não vai a lugar nenhum.

Lorena se soltou e, sem dizer uma palavra, puxou um papel do bolso da bolsa. Estendeu para ele.

- Aqui.

Rafael pegou o papel sem entender.

Leu.

E então seu rosto escureceu.

- O que é isso? - rosnou.

- Dei entrada no divórcio - ela respondeu, a voz surpreendentemente calma. 

O silêncio durou apenas um segundo.

Rafael explodiu.

Com um movimento brusco, ele agarrou o jarro de porcelana sobre a cômoda e o arremessou contra a parede. O objeto se estilhaçou a centímetros de Lorena.

Ela gritou, mais pelo susto do que pela dor.

Um caco de porcelana cortou sua panturrilha. O sangue começou a escorrer lentamente pela perna, manchando o tapete claro.

Em outros tempos, um corte de papel teria feito Rafael correr até ela.

Agora, ele nem olhou.

O ódio nos olhos dele era tudo o que existia.

- Você enlouqueceu de vez? - ele gritou. - Divórcio? Depois de tudo?

Nina deu um passo à frente, com o rosto preocupado, a voz doce demais.

- Lorena… - disse suavemente. - O Rafael fez tantos sacrifícios para ficar com você. Para casar com você. E agora você pede o divórcio como se fosse nada?

Lorena a encarou, incrédula.

Sônia aproveitou a brecha.

- Eu avisei - disse, venenosa. - Disse ao meu filho que uma mulher de origem tão humilde jamais seria uma esposa adequada. Só sabe fazer barraco, como as pessoas da classe dela.

Lorena sentiu o rosto queimar.

- Você está vendo por quem apanhou do seu pai para ir tirar a certidão de casamento - Sônia continuou, satisfeita. - Apanhou como um cachorro. E veja o que ela faz agora.

As palavras acertaram Rafael como um fósforo aceso.

A lembrança veio violenta.

O pai parado na porta.

O cinto na mão.

As chicotadas ardendo nas costas enquanto ele repetia que aquela mulher não valia a pena.

Rafael respirava com dificuldade agora.

- Você quer ir embora? - ele disse, a voz baixa, perigosa. - Então vá.

Lorena deu um passo à frente, apoiando-se na mala, o sangue ainda escorrendo.

- Mas não leva nada dessa família - ele continuou. - Nada.

Virou-se bruscamente para a porta.

- Marta! - chamou a empregada.

A mulher apareceu, assustada.

- Abra essa mala - Rafael ordenou. - Agora.

- Rafael… - Lorena tentou.

- Abra - ele repetiu.

Marta abriu a mala com mãos trêmulas.

Rafael apontou para dentro.

- Só deixe aí as roupas que ela mesma trouxe quando se casou. Se é que ainda tem algum daqueles trapos.

Lorena sentiu o estômago se revirar.

- O resto - ele concluiu, com frieza absoluta - deixe tudo aí e depois queime.

O silêncio que se seguiu foi pesado demais para caber naquele quarto.

Lorena olhou para Rafael uma última vez.

O homem que um dia ajoelhara por ela já não existia.

Só restava alguém disposto a destruí-la.

E ela entendeu, ali, com a perna sangrando e a dignidade sendo arrancada:

Sair daquela casa não era uma escolha.

Era sobrevivência.

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