Mundo ficciónIniciar sesiónLayla
Se alguém me perguntasse como eu gostaria de ser lembrada, eu responderia sem pensar: como alguém que fez diferença. Pode soar piegas, mas é a verdade. Desde menina, minha vida sempre foi sobre cuidar, de animais perdidos, de vizinhos que precisavam de companhia, de qualquer causa que ninguém parecia se importar. É por isso que trabalho na ONG Terra & Vida. Ali, entre cães assustados, gatos ariscos e crianças que chegam em busca de afeto, eu sinto que meu coração b**e mais forte. Propósito não paga boletos, mas alimenta a alma. — Layla, você não vai almoçar? — Helen, minha irmã do meio, grita da cozinha enquanto atravesso o corredor, tentando amarrar o cabelo e achar meus documentos ao mesmo tempo. — Não tenho tempo! — respondo, tropeçando na própria bolsa. — Você nunca tem. — ela retruca, rindo, e j**a uma maçã na minha direção — Se desmaiar, não diga que não avisei. Helen é assim, cheia de piadas, exageros dramáticos e tiradas de novela mexicana. Já Bianca, a mais velha, é a advogada séria da família, sempre pronta para discursos sobre responsabilidade. Eu sou a caçula, a que acredita em causas perdidas e insiste em achar que pode mudar o mundo com pequenas ações. Meus pais completam o quadro caótico e amoroso. Minha mãe acredita que o café da manhã de domingo é uma cerimônia sagrada, e meu pai, calado, parece viver só para nos ouvir rir. Eu sei que sou privilegiada, e sei que tenho sorte por ter essa família. Mas ainda assim, sinto como se faltasse alguma peça. Talvez seja por isso que eu viva sonhando acordada. Sonho em viajar, participar de missões humanitárias, salvar vidas em outros cantos do mundo. Só que a realidade sempre me puxa de volta, lembrando que não é tão simples. — Se continuar com essa cara de heroína, vai perder o ônibus. — Helen provoca, atravessando a sala com uma toalha no ombro. — Não vou perder nada. — agarro a bolsa — O mundo precisa de mim. — Olha só, a santa debochada de volta! — ela ri, erguendo as mãos. Esse é o apelido que me deram em casa… santa porque tento ajudar todo mundo, debochada porque não perco a chance de soltar uma resposta afiada. No ônibus, coloco os fones e observo a cidade correr pela janela. Eu deveria estar focada na ONG, mas minha mente insiste em vagar para outro lugar. Para alguém. Bart. Meu namorado. Um homem que parece ter saído de um catálogo de perfeição… educado, atencioso, sempre com uma palavra doce na ponta da língua. O tipo de parceiro que aparece com flores sem motivo e transforma qualquer noite comum em lembrança especial. — Você é tudo o que eu sempre quis, Layla. — ele costuma dizer. E eu acredito. Sarah, minha melhor amiga desde o colégio, adora lembrar como tive sorte em encontrá-lo. E Soraya, minha outra amiga próxima, também costuma elogiar como ele me trata bem. Para mim, isso basta. No fundo, acho que só quero continuar acreditando nesse conto de fadas que, por alguma razão, resolveu me escolher. No trabalho, o dia passa em ritmo acelerado. Entre limpar gaiolas, aplicar remédios, organizar doações e acolher crianças, sinto que minha vida ganha um sentido que nenhuma outra carreira poderia me dar. É cansativo, mas preenche cada canto do meu peito. Só que, no fim do expediente, a realidade sempre dá um jeito de cutucar o que eu tento evitar. Porque é quando ele aparece. Kaleo. O magnata bilionário. O homem que parece surgir do nada apenas para atravessar meu caminho, para me lembrar de que o mundo pode ser cruel e malvado. Ele é arrogante, perigoso, e por algum motivo, quando seus olhos azuis me encontram, sinto meu corpo reagir contra a minha vontade. Um arrepio, uma inquietação, uma sensação proibida. É errado. É perigoso. Mas é real. O portão da ONG range quando o fecho. Sarah já me espera encostada no carro, com café em uma mão e uma sacola de donuts na outra. — Cheguei com reforços. — ela ergue a sacola — Carboidratos contra o apocalipse. — Você é meu anjo da guarda. — digo, mordendo o primeiro donut com gosto — Anjo gordinho. — E você continua sendo minha santa debochada favorita. — Ela sorri — Como foi o evento ontem? — Lotado. — limpo o açúcar do canto da boca — E… ele estava lá. — Ele? — Sarah já estreita os olhos. — O magnata de terno que insiste em aparecer. — Kaleo Donovan. — Ela fala o nome como se cuspisse caroço. — Esse mesmo. — respiro fundo, tentando afogar o arrepio que insiste em voltar — Apareceu, fez piada… e depois me disse para não usar o elevador da esquerda. — E daí? — Ele travou cinco minutos depois com dez pessoas dentro. Sarah me encara até o café dela esfriar. — Esse homem é um rádio mal sintonizado. Só pega estação de ameaça e de cuidado. Encosto a testa no ombro dela, rindo sem humor. — E o problema é que as duas frequências me atingem. Sarah me dá carona até em casa, como sempre faz quando percebe que estou exausta demais até para pensar no caminho de volta. Ela deixa a sacola de donuts no banco do passageiro e diz que amanhã vou agradecer por ter sobrado algum. Eu rio, mesmo sabendo que provavelmente vou devorar todos ainda hoje. Ao chegar, encontro Bianca debruçada sobre o notebook, digitando com a fúria de quem luta contra o tempo. Helen está jogada no sofá, rindo de um reality de culinária. — A filantropa chegou! — Bianca ergue os olhos, ajustando os óculos — Algum milionário salvou o mundo hoje? — Não, mas eu salvei três gatos de uma caixa de papelão e um cachorro com medo de chuva. — respondo, largando a bolsa — Vale como ponto extra? — Só se tiver recibo. — ela ironiza. — O recibo é que eu ainda tô viva. — digo, jogando um donut no colo dela — Adoça esse coração, doutora. Helen b**e palmas, gargalhando. — Minha irmã é um milagre ambulante. Só falta ganhar um prêmio internacional de sarcasmo. Antes que eu retruque, minha mãe aparece com um pote de creme hidratante nas mãos. — Minha filha, passa isso no rosto. Frio deixa a pele triste. — Mãe, pele sente? — pergunto, rindo, e beijo sua bochecha — Amo você. — Também te amo, minha menina respondona. É nessas horas que percebo como sou sortuda por ter essa bagunça de família. Cada um com seus jeitos, mas todos girando em torno do mesmo eixo: amor. O celular vibra no bolso. A tela ilumina meu rosto com a foto que uso como capa: eu e Bart na roda-gigante, abraçados, sorrindo como se nada no mundo pudesse nos abalar. — “Amor?” — a voz dele vem quente, aconchegante — “Posso te buscar hoje? Quero jantar com você.” — Claro! — respondo sem pensar. — “Ótimo. Te pego às sete. E…” — pausa dramática — “tenho surpresa.” Sorrio sozinha, curiosa. — Surpresa boa? — “Sempre.” Quando desligo, Helen já está me encarando com aquela expressão de irmã intrometida. — Jantar romântico? — ela pergunta. — Surpresa, segundo ele. — Hm… espero que seja comida de verdade. Bianca levanta os olhos do notebook. — Só não volte tarde, Lay. Você tem relatório amanhã cedo. Reviro os olhos, subo pro quarto e escolho um vestido simples, mas que sempre rende elogios do Bart. No espelho, passo batom e penso em como é fácil me sentir tranquila ao lado dele. Seguro. Às sete em ponto, o sedã prata estaciona em frente de casa. Bart desce impecável, camisa clara, blazer ajustado, colônia leve que já reconheço no ar. Ele segura uma rosa branca. — Para a mulher mais linda da cidade. — estende a flor. — A cidade tem outras. — sorrio, pegando a rosa — Mas eu aceito a propaganda. — Você merece todas. — ele beija minha testa e abre a porta para mim. Antes de entrar, uma voz conhecida chama meu nome da calçada vizinha. — Lay! — Soraya surge, elegante como sempre, saltos que soariam exagerados em qualquer outra pessoa — Que coincidência linda! Ela me abraça com entusiasmo e acena para Bart. — Vocês estão tão bonitos! — Obrigado, Soraya. — ele responde polido, sem perder o sorriso. — A gente se fala amanhã, amiga. — ela pisca para mim — Tenho novidades. — Quero saber tudo. — aceno de volta. Soraya se afasta, e eu entro no carro. Bart segura minha mão por um instante antes de ligar o motor. — Senti sua falta. — Também senti. — respondo, sincera. O restaurante escolhido tem luz baixa, música suave, garçons coreografados. Ele puxa a cadeira para mim, segura minha mão por cima da mesa, olha nos meus olhos como se cada detalhe importasse. — Tenho pensado no nosso futuro. — diz, a voz calma, quase solene — E queria saber se você toparia viajar comigo. Itália, talvez Grécia… você poderia trabalhar em projetos humanitários lá. Eu daria um jeito de administrar à distância. Meu coração acelera. É como se alguém tivesse colocado meus sonhos num prato de prata e me oferecido. — Parece perfeito. — digo, e o brilho nos olhos dele me aquece. Ele ergue a taça de champanhe que o garçom acabou de servir. — À gente. — À gente. — repito, brindando. Durante o jantar, conversamos sobre tudo… planos, memórias, bobagens. Em alguns momentos, o celular dele vibra sobre a mesa. Ele vira discretamente a tela para baixo e diz que é trabalho. Eu acredito. Bart sempre tem resposta pronta, sempre tem jeito certo de falar. Deixo que o clima me envolva. É fácil. É confortável. Mas, quando encosto a cabeça na janela do carro no caminho de volta, a chuva fina tamborilando no vidro, a sombra de outro nome atravessa meus pensamentos. Kaleo. O deboche, o aviso estranho sobre o elevador, o olhar azul que me fere e desperta. Fecho os olhos, respiro fundo, e aperto a rosa branca contra o colo. — Não, Layla. — sussurro para mim mesma — Não confunda a vida com um pesadelo bonito. Bart segura minha mão e beija meus dedos sem notar meu silêncio. Eu sorrio de volta, porque a vida com ele é calma, é promissora, é tudo o que eu deveria querer. E ainda assim, por baixo da pele, uma parte de mim pulsa inquieta. A parte que Kaleo insiste em acordar.






