Capítulo 2 - Do Que Sou Feito

Kaleo

O sorriso empurra ar para os meus pulmões e cobrança para a minha memória. Eu odeio essa mulher.

— Ela é bonita demais para uma culpa dessas. — sussurro, só para me punir.

Prendo a respiração quando ela pára diante de um banner, sozinha por três segundos de eternidade. Caminho até ali. Ela me percebe nas bordas do mundo, como sempre, Layla tem esse instinto de gata que fareja incêndio.

— Senhor Donovan. — ela diz, no tom que outras pessoas usam para “ameaça de bomba”.

— Senhorita Santos. — respondo, com polidez que dá coceira — Belo evento. Quase me convence de que anjos existem.

— Sorte a sua. — O sorriso dela não chega aos olhos — Aqui só aceitamos doações, não sarcasmo.

Eu rio baixo. O som que a faz odiar-me um pouco mais cada vez.

— Doações eu faço com um dedo. — Levanto o copo — Sarcasmo exige talento.

Ela inclina a cabeça, estudando-me como quem decide onde enfiar a faca.

— O que você quer, Kaleo?

— Hoje? — Dou um passo, invadindo o raio de calor que a protege do mundo — Ver você salvar o planeta inteiro enquanto esquece de salvar a si mesma.

O músculo em sua mandíbula pula. Eu me delicio.

— Você não muda. — ela sussurra.

— Mudanças ficam lindas em você, Layla. Em mim, só combinam pecados.

Um voluntário nos interrompe, pedindo a assinatura dela num formulário. Layla se afasta com alívio que me provoca e me irrita. Eu sigo meu roteiro, reconheço o chefe de cozinha, aperto mãos que não me interessam, sorrio para câmeras que não me merecem.

Na varanda lateral, o vento traz cheiro de chuva e promessas ruins. É o meu lugar favorito para tomar decisões que custam caro. Abro o estojo discreto no bolso interno do paletó, duas micro ampolas idênticas, rótulos sem nome.

Uma delas é nada além de água tônica. A outra, um susto inofensivo que provoca tontura por cinco minutos e deixa o coração lembrando que tem dono. Um lembrete cruel sobre fragilidade e, no meu caso, sobre controle.

Não é envenenar, é testar o destino.

Aproximo-me do bar. O barman me reconhece e tenta tremer só por dentro. Apoio as ampolas no balcão, invisíveis para olhos que não sabem procurar. Peço duas taças. A noite inclina o rosto para mim, cúmplice.

— Está esperando alguém? — pergunta o barman.

— Uma sentença. — respondo.

Layla ressurge pela porta de vidro, varrendo a varanda com os olhos. Quando ela me encontra, a prudência dela dá meia-volta, mas o orgulho fica. Sempre fica.

— Se vai estragar a noite, faça rápido. — diz, parando a um metro.

— Eu nunca faço rápido. — Encho as duas taças — Brindamos? Aos animais que você protege de gente como eu.

Ela ri. Um som curto, incrédulo.

— Aos animais, então.

Por um instante, vejo Adrian entre nós, com aquele sorriso de quem achava o mundo salvável. O fantasma encosta a mão no meu ombro. Eu deveria ser gélido. Deveria trocar as taças no último segundo, deveria deixá-la provar o que é fraqueza.

Deveria.

Meus dedos obedecem à coreografia planejada, um truque de salão ensaiado mil vezes, a taça com o “susto” para ela, a outra para mim. Dou o meio passo que fecha a distância. E então… a minha mão erra o copo.

Não erra.

Escolhe.

— Por você. — digo, oferecendo-lhe a taça que era minha.

— Por mim? — Ela franze o cenho — Não mereço a gentileza do diabo, Kaleo.

— Não é gentileza. É estatística. — Bebo primeiro, para provar que não há perigo. O líquido queima diferente, um aviso dentro da pele. Eu aceito — Eu nunca deixo a morte sentar à mesa sem pagar a conta.

Layla levanta a taça, me encara por sobre a borda, e bebe. A boca dela reluz de vinho e afronta. O vento carrega um trovão. O tempo, por um capricho, volta a andar.

— Você me odeia tanto assim? — ela pergunta, voz baixa, quase cansada.

— Eu odeio a parte de mim que te quer. — Apoio o copo — A parte que te rodeia. A parte que sabotou cada plano de acabar com você. Essa parte… eu mataria, se pudesse.

Ela respira fundo, como quem encara um precipício que já conhece.

— Então por que continua aqui?

— Porque a minha prisão tem a sua voz.

O silêncio entre nós é um campo minado. Layla dá meia-volta para retornar ao salão. Eu a pego pelo pulso, firme, sem dor.

— Cuidado com o elevador à esquerda. — aviso, num sussurro que cheira a profecia — Está dando tranco.

Ela gira devagar.

— Desde quando você se preocupa com a minha segurança?

— Desde sempre. — digo, sem maquiagem — Odeio concorrência com o acaso.

Layla solta o pulso, sem agradecer. Vai pelo corredor iluminado, ignora o elevador da esquerda e escolhe a escada. Eu fico na varanda, sentindo o “susto” correr pelo sangue como um aviso, vivos sangram, vilões também.

Quando volto ao salão, o mestre de cerimônias a chama ao palco. Layla pega o microfone. Fala da ONG, fala de doações, fala de bichos sem voz e de crianças sem abrigo. A sala inteira amolece. Eu fico duro como pedra.

Ela termina com um sorriso que não nasceu para mim. O aplauso desaba como chuva.

— Senhor Donovan? — Élio surge, discreto — O carro está pronto.

— Não ainda.

Olho para a escada por onde ela saiu. A tentação de segui-la é uma corda no meu pescoço que não enforca, só lembra. Eu poderia acabar com isso agora. Bastava um tropeço, um degrau, um empurrão tão leve quanto um segredo.

Bastava.

No telão, uma foto antiga surge… Layla mais jovem, abraçada a um rapaz de olhos gentis. Adrian. O auditório não sabe quem ele é. Eu sei. O mundo, por um segundo absurdo, some do meu alcance. O som do aplauso vira mar, a luz vira sal, e eu tenho que me segurar no corrimão da realidade.

— Tudo começou naquela noite. — digo para ninguém — E ainda não acabou.

Guardo as mãos nos bolsos antes que façam promessas que não posso cumprir. Quando saio, a chuva já decidiu. Desço os degraus do hotel com o rosto entregue ao céu e um gosto de derrota que só Layla consegue deixar na minha língua.

— “Eu queria matar você.” — penso, entrando no carro — “E tudo o que faço, toda maldita vez, é provar que já sou seu.”

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP