#####CAPÍTULO 03

O RESGATE DA DIGNIDADE E A SELVA CORPORATIVA

Ainda caída no chão, sentada sobre a poça d’água do balde entornado e com a calça do uniforme ensopada, fiquei encarando o dono da empresa. Se existia um buraco no chão para eu enfiar a cabeça, aquele era o momento perfeito.

— Gente do céu... — murmurei alto, a voz falhando. — Eu discuti com o supremo chefe... chamei ele de mudo, mandei ele parar de olhar pra minha bunda... e ainda critiquei duramente o parque de diversões erótico dele?! Tô ferrada! Completamente ferrada!

O "Armário Ambulante", do alto do seu terno que custava mais do que a minha casa inteira, não aguentou. O rosto esculpido se desarmou e ele deu uma risada abafada, profunda, que ecoou pela sala imensa. Ele se inclinou ligeiramente no sofá de couro, apoiando os cotovelos nos joelhos, com a voz grave e divertida:

— Não, você não está ferrada. Você está certa — disse ele, com um brilho malicioso nos olhos. — Eu é que fui indiscreto.

Pisquei duas vezes, tentando processar.

— O senhor se machucou? — perguntou ele, arqueando a sobrancelha.

Balancei a cabeça, rindo sozinha da minha própria miséria enquanto me levantava desajeitada.

— Graças a Deus, não. Para-choque é o que eu mais tenho! Tenho comissão de frente e um para-choque atrás de respeito, meu senhor. Se não fosse isso, eu tava lascada de verdade. Se eu fosse uma americana nata, daquelas magrinhas, coitada, tinha quebrado o último osso da coluna agora mesmo.

Ele me olhou de cima a baixo com um sorriso de canto, sem disfarçar nem um pouco.

— É, realmente... eu estava olhando. Você tem uns apetrechos interessantes.

Arregalei os olhos, indignada, segurando o cabo do rodo como se fosse uma lança medieval.

— Epa, epa, epa! O senhor pode até ser meu chefe, o dono do prédio e do parque de diversões inteiro, mas isso aí é assédio puro, viu?!

Sem perder mais tempo, juntei a pá, o balde, a vassoura e o que me restava de dignidade. Passei o pano rápido no piso molhado para não deixar rastro do meu desastre, me aprumei, joguei o cabelo para trás e disse na lata:

— Então, com sua licença, deixa eu limpar isso aqui rápido porque eu tenho mais umas salas para dar conta e depois ainda preciso ir voando pro outro trabalho da minha mãe. Adeus, desculpe a audácia e, com um pouco de sorte, até nunca mais!

Saí da sala rebolando e marchando como se estivesse numa passarela, fingindo que a minha calça não estava meio encharcada. E, enquanto a porta automática se fechava, ouvi o infeliz gargalhar alto. Gargalhar de mim! Vê se pode uma coisa dessas? O homem é um bilionário, com o terno impecável, e rindo da faxineira desastrada.

No corredor, empurrando o carrinho de limpeza, soltei um suspiro que veio lá do fundo da alma.

Meu Deus do céu, Ava... você não tem filtro nenhum na língua! Se a mamãe descobre que no meu primeiro dia eu já chamei o patrão de tarado e comentei sobre o estoque de camisinha do banheiro dele, ela infarta de vez.

Respirei fundo, tentando recompor minha postura. Graças a Deus, o próximo escritório era a última sala daquele andar. "Agora vai ser tranquilo", pensei. Doce ilusão.

Abri a porta e me deparei com a ocupante da sala. Pensa numa criatura antipática. Aff, Maria!

Típica americana loira de capa de revista corporativa, alta, magra feito um caniço, usando um vestido justo e uma cara de quem estava sentindo cheiro de azedo permanente. E ainda se achava a última bolacha do pacote porque tinha dois peitos siliconados e super empinados.

Eu olhei para ela, olhei para o quadril reto dela e pensei imediatamente: "Querida, em vez de investir tanto na comissão de frente, devia ter colocado um para-choque atrás. Porque, sinceramente, se essa bunda seca levasse a queda que eu levei agora há pouco, quebrava a bacia em três partes na mesma hora."

Hoje eu tô poética, não tem jeito. Mas, gente, sinceramente! Meu dia começou maravilhoso: primeiro o talho no pé, depois a trombada no Armário Ambulante, e agora o escritório da Miss Purgante de Mamona.

Vocês sabem o que é um purgante de mamona? É aquela coisa amarga, ruim de engolir, que só serve para deixar a gente arrependida e passando mal depois. Pois é, essa era a loira. A mulher nem me respondeu o "bom dia", só apontou para o chão com uma unha acrílica gigante, indicando onde eu devia passar o pano, como se eu fosse invisível.

Balancei a cabeça, engoli o sapo e voltei a trabalhar. Porque, no fim das contas, se eu não terminar rápido aqui, ainda tenho a segunda empresa da mamãe pra dar conta do outro lado da cidade.

Enquanto passava o espanador nas prateleiras da Miss Purgante de Mamona, uma pulga atrás da orelha começou a me coçar: Será que tratavam a minha mãe com o mesmo desrespeito e a mesma cara feia que estão me tratando? Porque, convenhamos, tirando o corpo mais curvilíneo, de rosto eu sou a cópia cuspida e escarrada da dona Márcia. Epa, epa, epa... esse negócio de ver a mamãe trabalhando tanto pra aguentar gente arrogante não tava cheirando certo, não...

Terminei a sala da loira o mais rápido que pude, me despedi do nada (já que ela nem olhou pra minha cara) e fui para o andar inferior.

O próximo escritório era ocupado por um homem bem mais jovem. De cara, percebi que o clima ali era outro. Jeito leve, sorriso simpático, sem aquela pompa toda de empresário estressado. Uma energia boa que me fez até relaxar os ombros.

Ele levantou os olhos dos papéis e franziu a testa, surpreso.

— Ué... Cadê a Márcia? — perguntou, curioso.

Respondi no automático, já afiada e na ponta da língua:

— Minha mãe está de licença médica. Esgotamento físico e mental. Eu sou a filha dela e vou substituí-la durante esse ano.

— Como ela está? — o tom dele foi de uma preocupação tão sincera e genuína que me pegou desprevenida.

— Está sendo medicada e tratando o cansaço em casa — respondi, amolecendo o tom de voz. — Espero que melhore logo.

Ele encostou na mesa, cruzou os braços e falou com extrema gravidade:

— Quando você sair hoje, me avisa, por favor. Vou mandar entregar um buquê de rosas bem bonito na casa dela. A Márcia é uma excelente funcionária e uma pessoa incrível. Vai fazer uma falta enorme por aqui.

Eu parei no meio do movimento com o espanador, chocada. Olha só... até que enfim alguém nesta empresa gigante reconhece o valor e a dedicação da minha mãe!

— Que bom... pelo menos alguém aqui dentro se preocupa e valoriza ela — pensei alto, sem querer.

O rapaz deu uma risada curta e gostosa.

— Você falou alguma coisa?

— Ops! Não, desculpe, falei sozinha! — dei um sorriso sem graça. — Qual é o seu nome mesmo?

— Ah, me desculpe a falta de educação. Eu sou o Jeffrey. Prazer, Ava! — disse ele, estendendo a mão com toda a simpatia do mundo.

Apertei a mão dele, mas logo fiquei meio sem jeito, ajeitando o avental.

— Prazer, Jeffrey. Só que... acho que não pega muito bem o senhor ficar conversando e batendo papo comigo. Eu sou só a faxineira e o senhor é alguém importante por aqui.

Jeffrey ergueu a sobrancelha, soltando uma gargalhada leve.

— O que é que tem a ver uma coisa com a outra, Ava? Você é uma trabalhadora, tá aqui ralando honestamente. Isso já te torna uma pessoa extremamente importante.

Enquanto ele falava, reparei bem no jeito dele: o tom doce, os gestos delicados, o olhar tranquilo e suave... Ahhh, já saquei tudo! O Jeffrey não tava me olhando com aquele olhar faminto do Armário Ambulante lá do último andar. Jeffrey gosta do mesmo fruto que eu! A gente curte a mesma mercadoria!

Na mesma hora, relaxei 100%. Abri um sorriso cúmplice de quem já entendeu o enredo inteiro.

— Ah, então tá! — falei, me encostando no carrinho de limpeza. — Pode ir perguntando o que quiser enquanto eu trabalho. Só não posso parar de esfregar, porque ainda tenho outra empresa inteira pra cobrir hoje tarde.

— Outra empresa? — ele inclinou a cabeça, curioso. — Qual é o nome do outro prédio?

Falei o nome da empresa de logística que ficava a seis quarteirões dali. Jeffrey deu uma risadinha e balançou a cabeça.

— Ah, sim. Essa outra empresa também é nossa.

Eu parei com o rodo no meio do ar, congelada.

— Peraí... Como é que é? Quantas empresas vocês têm, afinal de contas?!

Ele riu, cruzando os braços.

— Algumas dezenas... O grupo é bem grande.

— Meu Deus do céu! — Arregalei os olhos, chocada. — Então quer dizer que eu vou passar um ano inteiro cobrindo "essas algumas"? Agora eu entendi perfeitamente por que a minha mãe teve um esgotamento! Vocês são donos da cidade inteira!

Jeffrey caiu na gargalhada, divertindo-se com a minha reação.

— Você é terrivelmente espirituosa, Ava! Igualzinha à sua mãe.

— Jura? — brinquei, colocando as mãos nas cadeiras. — Então eu puxei a dona Márcia mesmo! Porque a minha mãe não é de aguentar desaforo de ninguém, não.

— Não é mesmo — ele concordou, sorrindo nostálgico. — A Márcia sempre deu umas respostas afiadas por aqui quando o pessoal passava do ponto.

Cruzei os braços com um sorriso convencido no rosto.

— Então tá explicadíssimo! Se vocês já estão acostumados com o temperamento da dona Márcia, é melhor eu continuar sendo eu mesma, sem filtro, pra vocês não sentirem tanta falta dela!

Jeffrey piscou para mim, num gesto leve e amigo. Eu sorri de volta. Ali, no meio daquela selva corporativa cheia de ternos caros, arrogância e chefes intimidadores, eu tinha acabado de arrumar um verdadeiro aliado.

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