Mundo ficciónIniciar sesiónO ARMÁRIO
Cheguei ao prédio espelhado da grande corporação parecendo um soldado pronto para a guerra, embora estivesse mancando levemente graças ao talho no meu pé esquerdo. Atravessei as portas automáticas de vidro reluzente e fui direto à recepção imponente, revestida em mármore importado. — Bom dia! — falei, abrindo o meu melhor e mais radiante sorriso de brasileira que finge que está tudo sob controle, mesmo quando a vida está desmoronando. A recepcionista, impecavelmente vestida num terninho de grife e com uma maquiagem tão perfeita que parecia pintada à mão, tirou os olhos do monitor ultra-wide. Ela me olhou de cima a baixo como se eu fosse um alienígena que tivesse acabado de pousar uma espaçonave no meio do saguão. — Pois não? Em que posso ajudar? — perguntou, com aquele tom aveludado de quem treinou para ser simpática, mas claramente falhou na prática. — Aonde é que eu posso pegar a vassoura? — soltei, sem rodeios e sem nenhum pingo de cerimônia. A mulher piscou uma, duas vezes. Os olhos perfeitamente delineados quase saltaram das órbitas. — Como assim... pegar a vassoura? — Sou a substituta da Márcia — respondi, simples e plena, mantendo a postura ereta como se eu estivesse anunciando: "Sou a nova dona do prédio, prazer". — Ah... é... claro — ela gaguejou, perdendo toda a pose aristocrática e apontando com o dedo trêmulo para uma porta discreta ao fundo. — O vestiário dos funcionários da limpeza e o DML ficam no subsolo, à esquerda. — Beleza, obrigada! Agora vou vestir a minha roupa de faxineira. Não é a versão mais glamourosa de mim, concordo, mas eu definitivamente não vim aqui para um desfile da Victoria’s Secret. Vim para limpar, não pra me exibir. Afinal, essa é a minha nova função, né? A mulher me olhou sem saber se dava uma gargalhada, se chamava a segurança ou se me fuzilava ali mesmo com o olhar. E, só para deixar minha marca registrada e garantir que ela nunca mais me esquecesse, completei com uma piscadela: — E pode ficar tranquila, viu? Mesmo com o pé furado de caco de vidro, eu garanto que até de muleta eu faço essa firma brilhar mais que a sua maquiagem! Tenho certeza de que ela me achou completamente biruta, porque mal cheguei e já estava fazendo piada com a minha própria desgraça. Mas eu sou assim mesmo: no grande circo da vida, ou você vira o palhaço e ri de tudo, ou passa o dia inteiro chorando pelos cantos. E chorar não paga a fatura do cartão. Desci, peguei o carrinho de limpeza cinza, organizei os desinfetantes, os espanadores e o balde com o rodo. Ajustei o uniforme azul-marinho — que ficava comicamente justo nas minhas curvas brasileiras — e segui em direção à suíte presidencial do último andar, o escritório principal do tal "Grande Chefe" que minha mãe sempre mencionava com certo pavor respeitoso. E foi exatamente aí que o desastre anunciado aconteceu. Eu estava saindo do elevador de serviço, empurrando o carrinho com uma mão e me equilibrando no pé bom, quando virei o corredor de carpete felpudo e... BAM! Colidi de frente com uma muralha. Um autêntico armário humano no meio do caminho. Puta que o pariu, meu Deus! Que merda foi essa?! Alguém por favor anotou a placa desse caminhão?! O impacto foi tão violento que o som do choque ecoou pelo corredor vazio. Recuei um passo, atordoada, chacoalhando a cabeça para me reubicar no espaço-tempo. Sério, o homem parecia esculpido em granito puro. Devia ter quase dois metros de altura, ombros largos que pareciam ocupar três fuscas lado a lado, enfiado num terno sob medida cinza-chumbo que gritava "sou podre de rico". O rosto tinha uma maxilar tão marcado que podia cortar vidro, e os olhos cinzentos me mediram de cima a baixo devagarzinho, parando um pouco mais do que o socialmente aceitável na curva do meu quadril. Como se não bastasse a audácia, o sujeito lentamente passou a língua pelos lábios superiores, num gesto quase imperceptível, mas terrivelmente provocante. Quase revirei os olhos até o cérebro. Pronto! O macho alfa das montanhas achou que eu sou a sobremesa do almoço! Mais um que acha que mulher brasileira é convite aberto e vem com etiqueta de "sirva-se". Ah, mas ele vai quebrar a cara num nível astronômico. — Desculpa aí, seu armário... Ops! Senhor! Não vi você parado aí no meio do trânsito — falei, com a voz mais seca e gelada que consegui fabricar, desviando rápido do corpo dele. — Já tô indo fazer meu serviço, tá? Estou aqui pra limpar a sujeira dos outros, não pra virar comida de lobo mau! Tentando fazer uma saída triunfal e cheia de dignidade, dei um passo largo demais com o pé machucado. A dor pontuda me fisgou, meu calcanhar cedeu e eu fui direto para o chão. Devido à gravidade e à força do tropeço, caí de bunda com um baque seco no carpete. Mas, sinceramente? Ainda bem que bunda é coisa que definitivamente não me falta! Como toda boa e orgulhosa brasileira, a natureza me dotou com um amortecedor de fábrica de primeiríssima qualidade. A queda não doeu nada no bumbum, só no meu orgulho. — Licencinha! — resmunguei me levantando num pulo, sacudindo a poeira invisível da calça, empurrei o carrinho e entrei na sala principal do escritório. E claro, o armário humano veio logo atrás, caminhando com passos lentos, elegantes e silenciosos, parecendo uma pantera perseguição. Pronto, agora fudeu de vez. O lobo mau resolveu me perseguir até o covil! O que esse grandalhão quer atrás de mim? Será que é o segurança e acha que eu vim roubar os canetões do escritório? Me virei bruscamente, com um pano de microfibra amarelo em uma mão e um frasco de Limpa-Vidros na outra, me posicionando em base de luta. — Eu posso lhe ajudar em alguma coisa, senhor? — perguntei, franzindo a testa. — Porque eu preciso fazer meu serviço, e o senhor aí, parado atrás de mim, tá parecendo uma sombra assustadora de filme de terror! O homem não respondeu uma única palavra. Ficou ali, em pé perto da porta, com as mãos nos bolsos da calça social, me encarando com uma intensidade que faria uma pedra suar cold. — Ah, entendi. O senhor não tem língua, né? É mudo — deduzi, acenando com a cabeça. — Então tá bom! Mas faz o seguinte: pare de me olhar com essa cara de quem tá vendo um pedaço de picanha na churrasqueira. Senta aí naquele sofá chique e espera o seu chefe chegar. Porque eu preciso trabalhar, e quando o dono dessa porcaria toda pisar aqui, tudo tem que estar brilhando e cheiroso! Rebati, virando as costas com total desdém e me dirigindo ao banheiro privativo da diretoria. Entrei no banheiro — que era maior do que a cozinha da minha casa — e comecei o trabalho pesado. Limpei a pia de mármore, borrifei produto no espelho gigantesco, esfreguei o vaso sanitário... e quase caí para trás quando fui esvaziar a lixeira de inox do canto. Abaixei para pegar o saco plástico e arregalei os olhos. — O quê?! Mas que porra é essa?! — murmurei para mim mesma, usando a pá de lixo para puxar o conteúdo de lá de dentro com pura comoção. Comecei a contar as embalagens usadas, uma por uma, totalmente chocada: — Uma... duas... três... QUATRO?! Meu Deus do céu! — Olhei para o teto do banheiro, indignada. — Esse cara trabalha aqui ou só vive trepando?! Pelo amor de Deus, esse tal patrão vem pra uma empresa de classe mundial pra despachar relatórios ou pra transformar o escritório num motel de quinta categoria?! Balancei a cabeça, inconformada com a devassidão da elite corporativa, lavei as mãos, peguei meu espanador de penas e voltei para a sala principal. O "armário" continuava lá. Sentado no sofá de couro preto, com as pernas longas cruzadas de um jeito absurdamente elegante, o olhar cravado e grudado em mim como chiclete no sapato. Tentei ignorá-lo. Fui até a imensa mesa de mogno do executivo e comecei a alinhar os papéis e limpar o notebook. Mas, ao me agachar para pegar uma caneta que tinha caído no chão, senti aquele calor nas costas. Me virei de vez e peguei o safado no pulo: ele não tirava os olhos da minha bunda! Revirei os olhos de um jeito tão dramático que quase vi meu próprio cérebro, pousei as mãos nas cadeiras e encarei o sujeito: — Ô, meu amigo! Tá sujo aqui atrás por acaso? Ou com a queda de agora pouco o meu macacão rasgou no meio? Porque eu garanto para o senhor que eu não tô menstruada, não! O senhor me desculpe a sinceridade, mas ficar encarando o traseiro dos outros desse jeito já tá se tornando ligeiramente inconveniente. E outra coisa: por acaso o senhor é mudo ou é surdo? Não sabe falar, não?! O homem arqueou uma única sobrancelha perfeitamente desenhada. O canto de sua boca curvou-se num sorriso contido, fascinado, e ele finalmente abriu a boca. A voz dele saiu grave, profunda, um barítono que fez o ar da sala praticamente vibrar: — Cadê a Márcia? Endireitei a postura imediatamente, cruzando os braços sobre o peito. — A minha mãe está doente — respondi, adotando um tom sério e protetor. — Ela está de licença médica por esgotamento físico e emocional. E eu vou substituí-la durante um ano inteiro se for preciso. O olhar dele mudou ligeiramente, perdendo um pouco daquela aura debochada e ganhando uma sombra de surpresa. — Você é a filha da Márcia? — Sim, exatamente! Sou filha da dona Márcia com muito orgulho — declarei, erguendo o queixo. — E como ela está? — perguntou ele, e para a minha surpresa, a pergunta pareceu carregar uma preocupação genuína. — Vai ficar bem — respondi, dando um suspiro mais leve. — Eu e a minha irmã estamos nos revezando. Eu cubro os empregos e os contratos dela lá fora, minha irmã cuida dela em casa, e eu e o meu pai seguramos as despesas financeiras. A gente se vira. Peguei o pano, dei uma última espanada na mesa e fechei a gaveta principal do mogno com um estrondo seco de madeira. — Agora, se o senhor me dá licença, eu já terminei o meu serviço por aqui e preciso ir correndo pro meu próximo contrato. Ah, e faz um favorzinho? Avisa pro seu chefe que não pega nada bem transformar um local de trabalho tão bonito num parque de diversões erótico. É falta de respeito com quem limpa! O homem deu uma curta risada abafada, levantou-se do sofá devagar, revelando toda a sua altura intimidadora, e me encarou com um brilho divertido nos olhos cinzentos. — Obrigado — disse ele, dando um passo em minha direção. — Ficou tudo muito bem-feito. A limpeza está impecável... igualzinho ao trabalho da sua mãe. Foi exatamente nesse milésimo de segundo que a minha ficha finalmente caiu. O jeito como ele se movia pela sala... A postura de dono... A facilidade com que se acomodou no sofá... A familiaridade com o ambiente... Ao perceber a terrível, catastrófica e monumental verdade, entrei em pânico. Tentei dar um passo para trás para fugir daquela constatação, mas o meu pé machucado enroscou na alça do balde de água de limpeza. — Eita! — gritei. E lá fui eu de novo. Pela segunda vez na manhã! Tropecei desajeitadamente no balde, os braços girando no ar como as hélices de um helicóptero descontrolado, e SPLAT! Sentei de bunda com tudo direto no chão, espalhando respingos de água para todos os lados. Fiquei ali, caída no piso reluzente, encharcada, desacreditada. Olhei devagar para cima, acompanhando a linha do terno caríssimo dele até chegar ao rosto esculpido, ao sorriso de canto e ao olhar divertido que me encarava do alto. Quase engoli a minha própria língua. O Armário Ambulante, o sujeito mudo... o tarado do sofá... não era um funcionário qualquer, nem um visitante, nem o segurança do prédio. Ele era o dono da empresa. O bilionário. O chefe dos chefes. O dono do "parque de diversões". Misericórdia, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro! — pensei, sentindo meu rosto queimar numa temperatura capaz de derreter chumbo. — Gente do céu... — murmurei em voz alta, sem conseguir acreditar no tamanho do buraco que eu tinha acabado de cavar para mim mesma. — Eu discuti com o supremo chefe... chamei ele de mudo, mandei ele parar de olhar pra minha bunda... e ainda critiquei duramente o parque de diversões erótico dele?! Fechei os olhos com força, desejando do fundo da minha alma que o chão do escritório se abrisse e me engolisse inteira até o centro da Terra. Tô ferrada. Tô completamente, irreversivelmente e gloriosamente FERRADA!






